Capoeira Angola
Não sabemos com certeza a origem
da Capoeira Angola, alguns Mestres acreditam ter vindo da África,
outros afirmam ter sido criada no Brasil pelos escravos africanos em ânsia
de liberdade. Acredito que seja esta a origem, pois nem um escritor conseguiu
encontrar nada que levasse a crer que a Capoeira Angola fosse africana.
Apesar de sabermos que na África existia o "Jogo de zebra",
ou N'Golo, que era praticado com bastante violência, fazia parte
de um ritual onde os negros lutavam num pequeno recinto e os vencedores
tinham como prêmio as meninas da tribo, que ficavam moças.
Contam que, ainda hoje, existe um ritual semelhante em Katagun, na Nigéria.
O grande motivo pelo qual não conseguimos provar se a Capoeira é
africana ou brasileira é que o Ministro da Fazenda, senhor Rui Barbosa,
no governo Deodoro da Fonseca, mandou queimar todos os documentos com relação
a escravidão no Brasil, dizendo ser muito vergonhoso para o Brasil,
mas haviam outras razões pelas quais ele queimou estes documentos,
que também não sabemos.
Os negros vindos para o Brasil eram em sua maioria de Angola, diziam ser
mais ágeis, por terem estatura mediana e por isto tinham mais aproveitamento
no trabalho e no jogo da Capoeira. O nome "CAPOEIRA" deu-se pelo
motivo dos escravos ao fugirem para as matas, cujo nome é Capoeira.
Os senhores mandavam os capitães-do-mato buscarem os escravos, que
os atacavam com pés, mãos e cabeça, dando-lhes surras
ou até mesmo matando-os, porém os que sobreviviam voltavam
para os seus patrões indignados. Então os Senhores perguntavam:
-"Cadê os negros?" e a resposta era: - Nos pegaram
na Capoeira", referindo-se ao local onde formam vencidos. A Capoeira
no meio das matas era praticada como luta mortal, já nas fazendas
ela era praticada como brinquedo inofensivo, pois ela estava sendo feita
por baixo dos olhos dos Senhores de Engenho e dos Capitães-do-mato;
e naquele momento se transformou em dança, pois ela precisava sobreviver,
uma luta de resistência. O nome Capoeira Angola surgiu quando o Senhor
de Engenho flagrava os negros jogando, ele dizia: -" Os negros
estão brincando de Angola". Movimentos muito raros nas
fazendas. Com as fugas em massa das fazendas, a Capoeira se afirmava como
arma de defesa no meio das grandes matas, onde situavam-se os Quilombos.
Em 1888 a Lei Áurea aboliu a escravidão no Brasil e em 1890
baixou um decreto sobre a imigração que autorizava a entrada
de africanos e asiáticos no País, somente mediante permissão
do Congresso Nacional. A prática da Capoeira é incluída
no Código Penal. Rui Barbosa decidiu queimar todos os documentos
da escravidão no Brasil, mas a Capoeira resistiu apesar de ter sido
usada por políticos para aterrorizar seus adversários. Ela
sobreviveu e mais tarde transformou-se em cultura popular brasileira e
com isto surgiram os grandes amantes da Capoeira Angola, como Besouro Mangangá,
Valdemar da Paixão, Totonho de Maré, Cobrinha Verde, Canjiquinha,
Caiçara, Atenilo, Nagé Traíra, Pedro Mineiro, Porreta,
Sete Morte, Bento Certeiro e o famoso Vicente Ferreira PASTINHA, que escolheu
a Capoeira como a sua maneira de viver, praticou e ensinou a Capoeira Angola
por muitos anos e fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, em Salvador/BA.
Mestre Pastinha
Vicente Ferreira Pastinha, nasceu em 05 de abril de 1889, em Salvador. Foi o maior
nome da Capoeira Angola e hoje é citado como exemplo e referência
da Capoeira Angola por vários escritores. Pastinha já foi
a África mostrar a nossa Capoeira, no 1° Festival de Artes Negras
no ano de 1966, com ele foram também: Mestre João Grande,
Mestre Gato, Mestre Gildo Alfinete, Mestre Roberto Satanás e Camafeu
de Oxossi. Divulgou a Capoeira de Angola por quase todo País. Citado
nos livros do grande Jorge Amado, Mestre Pastinha apareceu sempre como
uma figura carismática. Faleceu em 13 de novembro de 1981 e deu
muito de si para a Capoeira, mas morreu na miséria, sem ter sequer
onde morar. Enquanto viveu para a Capoeira, ele procurou manter os fundamentos
da Capoeira Angola e até implantou alguns de sua própria
criação. Vale dizer até que ele implantou alguns fundamentos
como as "Chamadas" para o passo à dois, as composições
dos instrumentos e outros.
| Capoeiristas que representaram o Brasil,
em 1966, no 1° Festival Mundial de Arte Negra, em Dakar, sob o comando de Mestre Pastinha. Na foto: M. Pastinha, M. Gato, M. João Grande, M. Gildo Alfinete, M. Roberto Satanás e Camafeu de Oxossi - Arquivo: Gildo Alfinete |
Antes de Mestre Pastinha abrir sua
escola, a Capoeira não tinha uniformização e nem um
método de ensino. As pessoas aprendiam de oitiva, como dizia o Mestre
Bimba. As roupas usadas, eram de cor branca ou roupas comuns, alguns até
descalço e outros calçados. Na escola de Mestre Pastinha,
tinha um padrão, que era o uniforme preto e amarelo (pelo motivo
do Mestre torcer pelo Ipiranga, um time de futebol da Bahia. Apesar de
utilizar essas cores, ele próprio utilizava o branco) e calçado;
tinha as suas "Chamadas", as quais ele aprendera com seu
mestre, um africano. Tentou manter os fundamentos da Capoeira que ele aprendeu,
e hoje quando se fala de Capoeira Angola, se fala na Capoeira de Mestre
Pastinha.
Bom, acredito eu que, a Capoeira é afro-brasileira, pois não
concordo na teoria que ela seja somente africana. As pessoas têm
mania de internacionalização, portanto quando dizemos que
a Capoeira não é brasileira, estamos entregando o mérito
de milhões de pessoas que sofreram e morreram para que hoje ela
possa estar onde está. Já temos federações
nacionais e internacionais de Capoeira, associações e até
mesmo uma confedereação.
Não vamos entregar agora a nossa luta, bem no meio do campo de batalha,
pois a Capoeira tem muito para nos ensinar.
Esta é apenas minha opinião, pois afinal, para mim a Capoeira
é afro-brasileira.
| Mestre Zacarias Boa Morte, Mestre
João Grande, Mestre Gildo Alfinete e Mestre João Pequeno |
| Associação Brasileira de Capoeira Angola |