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O Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto)

Prof. André Luiz Lazarotte

Resumo

Autor: Lima Barreto, Afonso H. de (1881-1922), romancista, contista e cronista brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, RJ, onde faleceu.

Com uma linguagem simples - e, para recriar a fala popular, Às vezes agramatical -, enfocou o subúrbio carioca, os marginalizados sociais, a hipocrisia dos burgueses, dos políticos e dos acadêmicos.

Crítica ao pedantismo academicista dos parnasianos e congêneres.

Figura excelentemente pinçada por Eça de Queirós - vide conselheiro Acácio em O Primo Basílio.

("Quanto mais incompreensível é ela [a língua], mais admiradoé o escritor que a escreve, por todos que não lhe entenderam o escrito.").

Acusado de desleixado, vítima de preconceito e privação, Lima Barreto teve um destino trágico devido ao alcoolismo.

Entre romances, contos, sátiras políticas e literárias, artigos, crônicas e memórias, deixou-nos, entre outros, Recordações do Escrivão Isáias Caminha, Triste fim de Policarpo Quaresma, Os bruzudangas, Impressões de leitura (crítica, 1955), Cemitério dos vivos.

Aspectos Relevantes

Uma das principais inovações da literatura modernista é a abordagem de temas do cotidiano, com ênfase para a realidade brasileira e os problemas sociais.

Fábricas, operários, favelas e outros assuntos até então considerados antipolíticos são incluídos nos romances e na poesia.

O tom é combativo. O texto liberta-se da linguagem culta e torna-se mais coloquial, com admissão de gírias.

Há liberdade no uso do vocabulário e na sintaxe. Nem sempre as orações seguem uma sequência lógica e o humor costuma estar presente.

Objetividade e concisão são características marcantes. Lembramos que Lima Barreto é tipicamente pré-modernista.

Publicado em folhetim período de 11 de agosto e 19 de outubro de 1911. Cumpre reparar que na leitura dos capítulos há variados ambientes e fatos sucedendo-se. A linearidade do livro é quebrada. Algo muito semelhante a capítulos de novelas de televisão. O folhetim era a novela de outrora.

Panorama dos fatos sócio-históricos no tempo da presidência de Floriano Peixoto ( 1891 - 1894).O retrato quixotesco e esperançoso do livro transparece o espírito consciente e lúcido do autor, antecipador de tantas tendências em nossas política e letras, como a da Semana de Arte Moderna:, ocorrida ironicamente no ano de sua morte_ 1922

Estrutura textual

A coloquialidade é traço marcante da linguagem de Lima Barreto, expressões tipicamente brasileiras surgem na obra sem incomodar-se com o rigor gramatical até então em voga no Brasil.

A inclusão de termos ingleses tal como self-help mostram não só a colagem feita em toda obra como a influência do american way of life na vida latino-brasileira.

Esta colagem e xenofobismo, ao mesmo tempo incorporado na linguagem brasileira, é um acontecimento que seria valorizado pelo modernismo antropofágico de Oswald de Andrade e que encontraria eco na produção tropicalista de Caetano Veloso e Os Mutantes em fins da década de 60.

 

Personagens

Veja na tabela a simbologia ínsita a cada personagem.

Major Policarpo Quaresma Personagem quixotesco, baseado na obra de Miguel de Cervantes. Contradição: olhar visionário sobre: o concreto cotidiano nacional. Protagonista da sociedade em que atua.
Adelaide irmã solteirona de Quaresma ( símbolo da temperança )
General Albernaz representante do setor médio civil de que nos diz Darcy Ribeiro - temerosas de se proletarizar, sofrerão ou usufruirão das contingências sociais interferentes, enxergando-as, ora como ameaça, ora como vantagem financeira
Olga Filha de Coleoni e afilhada de Policarpo_ nutre por este especial sentimento de afeto - inteligente e vivaz ( casada não por amor, mas por contingência social. Uma mulher a frente de seu tempo.
Vicente Coleoni Imigrante italiano que enriqueceu-se. Compadre de Policarpo
Ismênia ( Filha do Gen. Albernaz (casamenteira que perdeu o noivo - fútil ) enlouquecera após o fato, vindo a ser enterrada com o vestido de noiva
Ricardo Coração dos Outros professor marginal de violão e símbolo do lirismo e solidariedade populares
Anastácio ex-escravo e agregado de Policarpo

 

Enredo - síntese

1° PARTE

Retrato de um Policarpo Quaresma metódico, leitor de obras ufanistas, estudioso das tradições populares, dotado de uma pureza de caráter, visionário, e autor do projeto para a instauração do tupi-guarani como idioma oficial do Brasil.

  1. A lição de violão
  2. Quaresma era um oficial pacato, suburbano e metódico nos gestos e atos praticados, vivia num isolamento monacal e gozando de reputação na vizinhança de homem abastado, contudo parecia pedante aos olhos dessa mesma ao ter uma enormidade de livros em sua residência, "ora se não era formado, para quê tinha livros?"
  3. O absurdo e a excentricidade comportamental desse nosso personagem se dá quando do estudo do violão; com o fito de compreender as raízes musicais de nossa cultura. Seu mentor em tal estudo é o solidário Ricardo Coração dos Outros, visto como um capadócio pela dita "correta sociedade."

  4. Reformas radicais
  5. Policarpo já estava a tempos estudando o processo de formação cultural brasileira, expert em Brasil, nosso colega há muito conhecia o tupi-guarani e todos na repartição onde trabalhava, jocosamente pilhavam-no de O Ubirajara.
  6. O humor de nosso herói quixotesco altera-se e, de pacato torna-se combativo nos negócios e assuntos da Pátria.

    Agora, inventara de estudar os costumes tupinambás e:

    "...Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando ( era domingo) lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho...

    _Mas o que é isso compadre?

    _Que é isso, Policarpo?

    _ Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão...Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

  7. A notícia do Genelício
  8. Genelício, um empertigado funcionário público com talento nato para o puxa-saquismo anuncia a loucura de Quaresma ao ter enviado um ofício ao ministro todo escrito em tupi-guarani.
  1. Desastrosas conseqüências de um requerimento
  2. Tal ofício serviu de inspiração satírica para os jornais, até a caricatura de nosso herói foi publicada nos mesmos. Tornou-se Quaresma o motivo principal de jacotas nas ruas.
  3. O bibelot

Quaresma encontra-se internado_ fruto da paranóia de perseguição que o acometera, razão da estafa emocional submetida nos últimos momentos.

2° PARTE

O produtor rural Policarpo começa com dificuldades: os atravessadores levam todo o seu lucro. Começou a compreender porque o homem da roça bebe muita cachaça e não quer produzir.

  1. No "Sossego"
  2. Sossego é o sítio em que viera Policarpo a morar desde a saída do sanatório, curado, mas ainda empertigado pela febre nacionalista, nosso herói alavanca esforços para o início daquilo que seria a primeira revolução agrária nacional. Não tardaremos a ver o seu visionarismo e ingenuidade fracassarem frente a realidade quotidiana agrária em nosso país_ falta de investimento governamental no setor, ausência de tecnologias no campo, despreparo científico do agricultor.
  1. Espinhos e flores
  2. Nesta parte da obra temos Ricardo Coração dos Outros a filosofar acerca da vida de compositor popular, neste trecho temos a narrativa nítida do pré-modernismo _ o desenho do subúrbio e dos excluídos de expressão:
  3. "...Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não era das sórdidas, mas era um casa de cômodos dos subúrbios..."

    Também presenciamos o mulato Lima Barreto valer-se da denúncia do racismo em nosso país:

    "...e viu que, no tanque da casa, um tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava...

    Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor..."

    O retrato de um país de cultura acadêmica também é retirado do irônico traço cartunista de Lima Barreto, a leitura é encarada como necessária apenas aos bacharéis, não cabível tal proceder àqueles que não são os ditos "sábios".

  4. Golias
  5. Lutar contra um gigante - este título do capítulo ilustra a insignificância da luta de Quaresma contra o poder burocratizante da lei e do Estado na sociedade brasileira - a questão agrária é o grande tema deste capítulo.
  6. A miséria agrária brasileira e o desalento do trabalho no campo assustam até o mais incrédulo nacionalista. Veja a questão do latifúndio:

    "...E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses latifúndios inúteis e improdutivos?..."

  7. "Peço energia, sigo já"
  8. Desestimulado com os lucros fracos oriundos de seu trabalho no campo e, explorado pelos atravessadores que monopolizam o mercado, Quaresma vê na Revolução que explode no Rio de Janeiro a chance de aproximar-se do Governo e mudar a realidade agrária do país. Resoluto parte como voluntário das forças governistas. Segue o telegrama deste para Floriano Peixoto:
  9. "..._ Peço energia, sigo já..."

  10. O trovador

A figura de Ricardo Coração dos Outros é a metáfora valida por Lima Barreto para identificar a massa popular brasileira, sempre alheia aos fatos políticos e aos seus interesses da pátria. Enquanto estoura a Revolta, Ricardo encontra-se alheio a tudo, apenas com seu devaneio musical e egoístico.

3° PARTE

Aqui temos a Revolta da Esquadra, contra Floriano Peixoto. O povo apóia os insurreitos. O major Quaresma apresenta-se como voluntário. Desiludido com tudo (inclusive com os crimes praticados contra os revoltosos - acaba escrevendo uma carta ao presidente censurando-o da injustiça de condenar à morte os revoltosos aprisionados, tal fato presenciara Policarpo em seu papel de carcereiro. Por isto foi considerado um traidor da Pátria

  1.  
  2. Patriotas
  3. Neste momento temos a caricatura dos militares e seu positivismo estúpido a procura de racionalizar qualquer traço de humanismo. O povo apenas serve a Pátria se obrigado a tanto, é o caso do número de deserções e do exemplo de Ricardo_ levado a força para o quartel.
  4. Você, Quaresma é um visionário
  5. Quaresma encontra-se com Floriano Peixoto em uma madrugada, este último enfadado com o discurso sonhador de Quaresma chama-o de visionário.
  6. ...e tornaram logo silenciosos
  7. Ismênia, filha de Albernaz que fora abandonada pelo noivo falecera em razão da loucura que apoderara-se de seu frágil corpo_ as sucessivas crises nervosas tinham-lhe minado as forças físicas. Enterrou-se vestida de noiva! As reflexões filosóficas de Quaresma acerca da finitude da vida e seus valores ganha peso neste capítulo.
  8. O Boqueirão
  9. Os governistas ganham a batalha contra os revoltosos e inicia-se o "período do terror" donde os vencidos são torturados no Boqueirão. Quaresma tornara-se carcereiro a a tudo assistira, cúmplice de tal ditador regime.
  10. A afilhada

Aprisionado em uma cela, em razão de uma carta dirigida ao presidente, Policarpo interroga-se do porquê de seu patriotismo. A resposta é nenhuma. Talvez decepção seja o melhor termo para definir a situação de Quaresma.

  • O fim do ufanista Policarpo e a luta do solidário Ricardo e da altiva afilhada Olga comprovam o eterno "mutatis mutandis" do mundo e há sempre esperança na transformação.