Site hosted by Angelfire.com: Build your free website today!

Um conto místico sobre Lilith e uma de suas vítimas.

 

“Lilith”

 

   E à noite, Benye estava em casa deitado em sua cama, como numa profunda sepultura. Respirava com dificuldade e estava encharcado de suor, deitado entre trapos imundos, os cabelos em desalinho e o corpo esparramado feito uma carcaça.

   Ele estendeu as mãos na escuridão, tentando agarrar-se em alguma coisa, proteger-se da queda; um cheiro fétido desprendeu-se dele e a baba escorria de sua boca.

   Benye, o santo de sua geração, estava babando.

   Ele desvencilhava suas mãos da escuridão e estendia suas mãos na escuridão; mas, de repepente, puxou-as para trás.

   Benye teve a impressão de ter tocado alguém, junto à sua cama.

   Perscrutou atentamente o quarto. Havia de fato alguém, em pé, não muito distante dele, uma silhueta espessa, uma silhueta alta. Quente.

 

   Benye ergueu-se da cama, aterrorizado.

 

   Sem dúvida era uma mulher; seus quadris e seios sobressaíam-se de seu traje colante e negro.

 

   Em voz baixa, ele lhe perguntou:

 

   “O que você está fazendo aqui?”

 

   Ela não respondeu. Lenta e calmamente, caminhou até a porta, onde voltou-se de frente para ele e permaneceu em pé, nessa posição.

 

   Uma irradiação amarela espalhou-se pelo quarto como uma fina poeira.

 

-    Benye - ela disse -, uma vez você me chamou.

 

   Sua voz era ardente, sensual e tranqüilizadora, e fez com que o corpo dele se inclinasse na direção dela.

 

-         Eu?

-         Sim, uma vez, quando você ainda era um menininho.

 

   Benye espichou sua barba emaranhada.

 

-         Eu? Quando era menino?

-         Sim, sim, Benye, você estava caminhando pelo pasto, por entre as vacas, você tinha uma barriga grande e inchada e seus olhos pareciam os de um bezerrinho. Você se lembra? Sempre que um touro cobiçava uma vaca, você torcia as mãos e chorava aflito, e começava a contar nos dedos quantos anos faltavam ainda até você poder se casar.

 

   Benye começou a se lembrar, mas não quis responder.

 

-         Benye, naquele momento você me chamou... Mas não atendo as crianças. – E, com um sorriso, acrescentou: - Agora você já é um adulto, um homem feito... Um homem forte e bonito... Bonito e querido! Quero colocar minha cabeça em seu jovem peito... Quero que suas mãos ardentes me abracem, querido! Quero sentir a fresca fragrância do seu corpo...

 

   Os olhos de bezerro de Benye arregalaram-se no escuro.

 

   Ele balbuciou:

 

-         Mulher, você deve estar enganada.

-         Olhe - ela gritou em êxtase.- Você é o meu único homem! Olhe para meu corpo fresco e jovem...

 

   E, sem dizer uma palavra, começou a se despir.

 

-         Benye, meus quadris ainda são castos, virginais, fortes, e minhas coxas são macias  e lisas... Os bicos de meus seios são duros, e meus seios nunca amamentaram uma criança... nunca amamentaram... nunca amamentaram...

 

   E chorou emocionada, chorou com ardor, e seu corpo nu cintilou na pálida escuridão, como as escamas de uma serpente.

 

   Benye ouviu aquela voz abafada e, na penumbra amarela, ela a viu, viu Lilith, de pé, junto à entrada, um pouco curvada, as mãos acima da cabeça, emoldurada pelos umbrais da porta.

 

   Benye agarrou-se nas bordas da cama e cerrou os dentes. Sentiu-se atraído para ela. Estava sufocando e, de repente, com uma voz estranha gritou:

 

-         Fora! Fora da minha casa!

 

   Começou a atirar os trapos e os travesseiros nela.

 

-         Vá embora, monstro!

 

   Benye cuspiu, arrancou a camisa, ao mesmo tempo em que pulava da cama, e, confuso, começou a bater-se na cabeça e no peito.

 

   Lilith conservou-se junto à porta, em silêncio, com um olhar grave e um sombrio sorriso nos lábios. Estava aguardando que Benye se acalmasse.

 

-         Sua prostituta! Saia daqui!

 

   Benye percebeu que estava quase nu diante daquela mulher e, imediatamente, pulou de volta para a cama, puxou as cobertas sobre si, fechou os olhos e voltou o rosto para a parede.

 

   Soltou um fraco gemido.

 

   Durante alguns instantes, Lilith permaneceu imóvel. Depois, lentamente, sem ruído, aproximou-se dele e, com suavidade, fez cócegas em sua axila.

 

   Benye mordeu os lábios, o prazer percorreu todo seu corpo, cada recanto, cada fenda. Ele não se voltou; aos poucos, porém, parou de gemer.

 

   Lilith sentou-se em sua cama, sorriu e começou a fazer-lhe cócegas nas solas dos pés.

 

   O prazer era tanto que o deixou atordoado.

 

   Benye sabia que Lilith estava sentada ao seu lado; por isso, conteve sua profunda gargalhada e manteve-se ali, deitado e mudo como um pedaço de pau.

 

   Ela começou a acariciar-lhe os cabelos e seus finos dedos enrolavam-se nos fios em desalinho. Benye não pôde resistir mais, voltou-se para ela e seus grandes dentes amarelecidos rangiam com esse agradável sofrimento.

 

   Soltava risadinhas abafadas, feito um bode velho: - Meu amor, como é gostoso...!

 

   Lilith disse: - Seu belo rosto me deixa louca, Benye, querido! Não ria assim de mim!

 

   Benye percebeu, de súbito, que era Lilith e começou a rir e ranger os dentes mais alto ainda, a fim de afugentá-la.

 

   Ela se afastou da cama.

 

-         Sua cadela!

 

   Benye avançou na direção dela, deixando cair seus trapos em sua excitação, mas ela conseguiu se esquivar dele.

 

-         Vou agarrá-la, Lilith - gritou ele.- Vou agarrá-la.

 

   Benye arremessou-se atrás dela através da pálida luz, esbravejando, ofegando, berrando, até agarrá-la, num canto, com sua mão direita.

 

   Cravou seus escuros e sujos dedos no alvo corpo dela e mergulhou sua emaranhada barba em seu rosto. Lilith curvou-se, tentando evita-lo, mas ele a apertou fortemente de encontro ao seu corpo e, com os lábios espumando, gritou:

 

-         Débora, Débora, é você!

 

   Pois o nome de sua falecida esposa era Débora.

 

   Lilith tentava esquivar-se. Ela estava sentindo um imenso prazer, mas lutava para liberta-se dele. De repente, agarrou sua imunda barba e beijou tão vigorosamente seus grossos e ressecados lábios que Benye quase desfaleceu; então, ela o apoiou em seus quentes ombros e carregou-o até a cama...

 

-         Meu Deus! Meu Deus! E o galo ainda não cantou!

 

   O quarto tornou-se escuro, suas respirações fundiram-se, centelhas cintilaram na escuridão, lúbricos membros envolveram o corpo com uns olhos verdes e um leve adejo... Não há mais salvação, meu Deus!

 

   E Benye se debatia, lutando sem saber com quem, sentia-se afundando e estendia os braços na escuridão numa tentativa de se agarrar em alguma coisa; com um esforço supremo, atirou-se da cama ao chão. O quarto estava em silêncio e não havia ninguém ali.

 

   E seu sangue estancou nas veias, coagulado, congelado.

 

   Lilith, a jovem e fresca Lilith, a esposa de Satã, matara-o.

 

   A primeira mulher de Adão...

 

 

 

 

(Fonte: Um conto de Moyshe Kulback, no “The Messiah of the House of Ephriam”, no Great Works of Jewish Fantasy and Occult, 1986.)

 

 

 

 

 

Referente ao conto acima:

 

“Neumann, em The Great Mother, arrola Lilith entre as “atraentes e sedutoras figuras de encantamento fatal” que representam o aspecto negativo e transformador do feminino. O terrível poder de sedução de Lilith é retratado neste conto místico de Benye, que dormia sozinho desde o falecimento da esposa.”

 

(Barbara Black Koltuv)