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Um poema sobre Lilith, Adão e Eva da década de 70.

    

A Canção de Lilith

 

Eva ainda padecia de um repugnante

Mau cheiro fetal: pois nascera

de um fervilhante útero do pântano.

As palmas de suas mãos estavam salpicadas de sangue

que ainda se precipitava, infantil e teimoso,

para fora de seus dutos;

em seus úberes

os mamilos eram falanges de dedos anulares adultos

com um tampão em forma de chifre

destinado a se desprender por ocasião do primeiro leite.

Eva tinha o aspecto de um animal herbívoro,

uma besta de pele, desconfiada e estólida

- coelho ou lebre -,

sua desgraciosa boca mantinha-se entre aberta

e a ponta de sua língua (Eva ainda não falava)

exposta feito um verme numa cereja podre.

Adão demorava-se indeciso

com a construtiva curiosidade de uma topeira

e a triste aparência de um cão fulvo:

após copular com um grifo

e dar vazão aos seus restantes espasmos

no ninho abandonado de um paguro

precisava tentar agora – pois estava sob severas

ordens – usar seu sexo

com a nova criatura. Mas Eva

tinha uma pele lisa

sem o tosão das ovelhas, os ninhos todos dourados,

sem o fulgor marinho das conchas

sem o frenesi anfractuoso das íbis

e depois

era exasperante o fato de ela não emitir nenhum som

nem mesmo o fraco bramido de uma onda

da mais distante praia do Éden.

 

Que época maravilhosa aquela em que ele, Adão, seduzia

as panteras pintadas e, na mata

de gigantescos cardos, brincava com as ovelhas

-como eram pacientes e beatíficas suas expressões-

ou então quando ele agarrava

as leves e graciosas gazelas

e as carregava para o fundo de uma larga

e refrescante anêmona!

 

Mas agora um Anjo negro

com brilhantes asas de gafanhoto

(Mzpopiasaiel era seu nome, ele dissera,

aquele cuja cólera é justa)

dera-lhe Eva

decretando – que voz de lenha crepitando no fogo

tinha aquele cálice de ira sagrada! –

decretando que ela não seria

seu alimento mas sua companheira no amor.

 

Mas ele, Adão, passava o tempo contando

os minúsculos anéis de um tedioso réptil

mordendo pêssegos e tirando as espinhas

de pequenos salmões pescados com folhas de acanto

cuspindo, com o arco mais selvagem possível,

caroços de pêssegos e cerejas

mijando apático em folhas de alface:

esperando

(e sua vida até agora

fora apenas uma espera, uma espera pelas ordens)

que da nuvem, da nuvem sem cabeça, à direita da macieira

surgisse

voando – como nos velhos tempos – um novo sinal.

 

Quando ele viu Lilith, o mais encantador dos demônios,

em sua reluzente forma feminina

encimada por uma instável coroa de estrelas alquímicas

avançando com uma radiante impetuosidade

precedida por um incrível animal

-por certo um remanescente de outras

criações mais meticulosas-

ostentando um único e alto chifre

em sua fronte celestial...

 

Mas a nova eva da sodomia está à procura de

outros demônios semelhantes a ela: não de

fingidos ataques de unhas, nem de

uivos festivos:

a nova eva mítica

magnífica na acrobática cadência de seu caminhar

estranha aos outros animais do Éden,

atira pedras, encimada por estrelas

alquímicas, majestosa, atira pedras.

 

Filha do homem ela não é, tampouco noiva do Anjo:

para além dos prolíficos pântanos do paraíso,

à espera de serem drenados

o unicórnio

conduz Lilith, aquela que já conhece

a forma misteriosa da raiz de mandrágora

e o golem que cresce na semente. Ela sabe

que o jaspe depositado no meimendro

provoca um sono mortal, mais árido e estranho

do que aquele que se abateu sobre Orfeu,

que na vulva da estrelada moréia

há um embrião de sereia

no lírio o látex

que gerará as Amazonas, e cem

divindades femininas estão à espera no imerso abeto

sob a forma de patinhos dourados

outras cem divindades femininas

serão alimentadas por unicórnios e seu sangue

estará isento de contágio, presciente do fogo.

 

Quantos léxicos

Lilith já conhece!

Ela fala setenta línguas

que despertam em suas cavernas e subjugam

mortos alfabetos de criações imediatamente aperfeiçoados

e consumidos!

Ela não negocia com cobras,

mercadoras de mesquinhas velhacarias, e dos condescendentes

e magmáticos abismos

aprendeu místicos deleites.

 

Virá o dia em que ela, Lilith...

 

 

 

 

(Fonte: Rosanna Ombras, “The Song of Lilith”, tradução por Edgar Pauk, no A Big Jewish Book, 1978)

 

 

 

 

 

Referente ao poema acima:

 

“Conquanto Lilith seja indiretamente mencionada no Velho Testamento como um “mocho”, um “demônio da noite”, não há nenhuma outra menção explícita e nominal a seu respeito, exceto uma rápida alusão em Isaías 34:14. No entanto, essas imagens existem na psique moderna. Os leitores poderiam se reportar ao Fruit of Knowledge (The Best of C. L. Moore, Ballantine Books, 1975) ou considerar o poema acima como uma expressão das intricadas origens de Lilith. Podemos observar, nesse poema, a cisão no Feminino entre Lilith, enquanto o primitivo, instintivo e livre espírito da mulher – “macho e fêmea os criou, à sua própria imagem os criou” – e Eva, enquanto recém criada “mãe de todos que vivem”. E há também Adão como homem, agora consciente de sua instintividade e de sua necessidade de usá-la a serviço do Eu.”

 

(Barbara Black Koltuv)