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Um País Triste

                   Por Luís Mir

Retirado do jornal: Folha de S. Paulo, segunda-feira, 24 de janeiro de 2005.

 

 

Somos um país triste. Aqui tudo é oficial. A história, a realidade, a ética, a crítica, o pensamento, a literatura, a reflexão, a vida, a morte. Nada existe fora dos trâmites, cânones, interesses, conchavos oficiais. Ao não termos como centralidade a política em todas as suas expressões e manifestações, temos o institucionalismo mais sufocante e repressor. Nada é feito fora do Estado, tudo que lhe interessa ele acoberta, acumplicia, apóia, estimula ou condena; retira seu apoio e sufoca tudo o que possa surgir fora dele ao mais completo ostracismo ou morte planejada.

Somos um país onde os fatos, as suas versões, todas as interpretações e até as suposições são oficiais. Nada pode ser feito fora do oficialismo. A fronteira entre o público e o privado é somente um axioma para ser citado, e não seguido. Essa perene falsificação da história real em história oficial tem nos feito transitar entre o ridículo e o patético sem nenhum sobressalto ou susto. Todos os documentos são triados, queimados, adaptados, manipulados pelo país oficial. Não se tem acesso a nada que não seja oficial, consentindo e manipulado pelos governantes.

Triste ofício o de historiador. Penoso o de jornalista. Quase impossível o de crítico. Maquiavélico o de pesquisador. Angustiante o de médico de atendimento de emergência, quando o pronto-socorro se transforma na ante-sala do inferno, dentro da mais absoluta normalidade e legalidade.

A hierarquia oficial também só é mantida, respeitada ou seguida pela própria hierarquia oficial. Ela segue regras próprias, leis favoráveis, ética e moral cômodas. Não vale o que está escrito, não protege o que a história registra, não ampara o que é real. Se o ministro da Defesa não demite o chefe da base aérea de Salvador por queimar patrimônio público é porque o ministro da Defesa e o chefe da base aérea só farão o que interessa ao país oficial. O país real é uma abstração e não merece ser levado em conta. Da mesma forma como deveria ter sido impedida a implosão do Carandiru, como história do sistema prisional brasileiro. Mantidas as celas originais, os instrumentos de tortura, as armas rudimentares dos detentos, os túneis. Não, explodiram a história real.

Da mesma forma como quiseram transformar o prédio que abrigava o Departamento de Ordem Política e Social em São Paulo em um centro cultural. Quase como uma instalação povoada por artistas e anjos. Deveriam ter sido mantidas e preservadas as celas em sua forma original, com todas as salas e os instrumentos de tortura intactos. O país oficial não queima somente arquivos públicos, implode o país real sempre que este lhe molesta a consciência ou lhe cobra algo imputável. Sempre que o país real tenta sair à superfície, ele é esmagado com a violência necessária e sanitária adequada.

Somos um país linear, monocromático, monotemático, monodisciplinar, monocultural. Dispensamos o pensamento único, temos a verdade única. Não temos a experiência política em todas as suas possibilidades. Todos os protagonistas de nossa história – à direita ou à esquerda, no centro ou nos extremos – sempre foram tão autoritários e arrogantes quanto os seus piores adversários. Sempre foram em busca do mesmo objetivo, do mesmo poder, do mesmo país oficial. Nunca estiveram no país real e nunca o conheceram realmente. Sempre quiseram destruir o país real e nunca abandonaram o país oficial.

No país oficial, o Estado só mostra, revela, desvela e concede acesso a documentos, personagens, histórias, fatos e crimes que lhe interessam e fazem parte da história oficial. Não há nada a ser revelado que não se saiba ou não se intua o suficiente nos arquivos oficiais da ditadura de civis e militares que atrasou este país por duas ou três gerações.

A direita civil e militar vai negociar com a esquerda oficial e institucional o que será mostrado e como, onde e por quem. O que não interessar à direita civil e militar e à esquerda oficial e institucional será queimado. Assim é há cinco séculos e não há nenhum fato, interesse, motivo ou razão para que seja diferente. Todos os arquivos serão mantidos trancafiados ou queimados, à brasileira, como os da Guerra do Paraguai e os da escravatura. Não será diferente com os da ditadura civil-militar de 25 anos.

Neste momento, a única coisa que podem fazer os pesquisadores e os médicos envolvidos no atendimento às vítimas da guerra civil – no país oficial é só uma crise provocada pelo tráfico de drogas e pela população bárbara e selvagem das favelas – é tentar salvar o máximo possível de inocentes. Perderam a maior das nossas inocências, a de que somos todos humanos.

O país oficial nos detesta. Rejeita-nos, quase nos agride e ofende à luz do dia. Estamos gastando recursos da arca do tesouro oficial com pobres, miseráveis, velhos, jovens e crianças que tiveram o que mereceram – a interrupção da vida como prêmio por habitarem o país real, e não o país oficial. E como se não bastasse isso, ainda querem penetrar nas entranhas do país oficial e garimpar os custos e os números reais da guerra civil. O país oficial é falso. É triste, mórbido, cruel.

 

 

Luís Mir, historiador, doutor pela Universidade Complutense de Madri (Espanha), é autor de “A Revolução Impossível” (Best Seller) e “Guerra Civil, Estado e Trauma”. (Geração Editorial), entre outras obras.