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O NEOCLASSICISMO

“Inutilia truncat”1

 

         Século XVIII, o Século das Luzes: momento de racionalismo, de investigação científica; é o instante do emprego da energia a vapor na indústria têxtil inglesa. É o tempo do espírito enciclopédico (no saber e na experiência).

         E “o homem deste momento histórico, senhos do mundo pelo conhecimento, modificador do mundo pela técnica”, crê no poder da ciência, capaz de modificar as condições da humanidade, crê que é possível eliminar as superstições negativas, causa principal de todos os sofrimentos.2

         A ciência e a razão é que constituem as “luzes” com que se costuma caracterizar a centúria. Razão e ciência que “iluminam”, que ilustram, que esclarecem os homens, que os conduzem a uma crença otimista em suas amplas possibilidades. Daí as palavras iluminismo e ilustração, que caracterizam as manifestações culturais do momento, o conjunto das tendências características do século, de origem francesa e inglesa na maioria, e que traduzem o termo alemão Aufklaerung.

         O homem acredita no saber do homem e preocupa-se com mudanças radicais. A busca de uma nova estrutura social traduz-se em “críticas à ordem social vigente implícitas ou explícitas no iluminismo: a negação das desigualdades, a afirmação de que a sociedade é o produto do arbítrio e da iniqüidade e deve ser racionalmente reformada”3.

             É o momento de Voltaire, de Montesquieu, de Rousseau, e dos fa­mosos "déspotas esclarecidos": Frederico II, da Prússia, Catarina II, da Rússia, José II, da Áustria, o Marquês de Pombal, em terras portuguesas. Hora de crise. E de revolução cultural. A burguesia substitui os aristocratas na lide­rança da História. Os enciclopedistas franceses consubstanciam e divulgam as novas idéias. E não nos esqueçamos da Declaração dos Direitos do Homem, de 1789.

             Importa, entretanto, esclarecer que "o século XVII é uma encru­zilhada de correntes espirituais e estéticas", quando "enciclopedismo e ilu­minismo ou filosofia da ilustração confundem-se num movimento sobretu­do intenso entre 1715 e 1789, de que a Enciclopédia foi a bíblia e a burguesia a classe social que o aplicou na vida, na economia, na corte, criando o tipo de sociedade dominada pela técnica, pela máquina, pela indústria. O iluminismo teve sua repercussão política antes da Revolução Francesa (1789), que foi, com a Revolução Americana (1776), sua conseqüência natural, na forma do despotismo esclarecido de alguns monarcas e chefes de Estado, políticos-filósofos que acreditaram poder conciliar a estrutura do

Antigo Regime com o espírito reformista do enciclopedismo"4.

         Nesse entrecruzar-se de atitudes, de um lado permanecem manifestações do Barroco, melhor dito de barroquismo, de outro, o Rococó, além da emergência do Neoclassicismo, com todas as múltiplas facetas que o caracterizam. Começam também a corporificar-se tendências que já anunciam um novo movimento e que justificam, para alguns, a caracterização de um Pré-Romantismo.

         Em termos de Neoclassicismo, há, basicamente, um movimento de restauração de alguns aspectos do espírito renascentista, como se verifica, por exemplo, neste poema de Iriarte:

 

EL BURRO FLAUTISTA

 


Cerca de unos prados

que hay en mi lugar

pesaba un borrico

por casualidad.

Una flauta en ellos

halló que un zagal

se dejó olvidada

por casualidad.

Acercóse a olerla

el dicho animal,

y dio un resoplido

por casualidad.

 

En la flauta el aire

se hubo de colar,

y sonó la flauta

por casualidad.

“i Oh! Dijo el borrico,

i qué bien se tocar!

¿Y dirán que es mala

la música asnal?”

Sin reglas de arte

borriquitos hay

que una vez aciertan

por casualidad5.


Regras de arte: regras rígidas do Renascimento, fundadas em Aristóteles via Horácio, numa volta regulamentar, racional e reflexiva à imitação dos antigos gregos e romanos. Nesse sentido, o século XVIII é um sécu­lo normativo; e as normas vêm através dos manuais da época: a Art poéti­que de Nicolas Boileau, a Poética do espanhol Luzán e outros. E, variando de nação para nação, as diversas tendências "compreendem em geral o culto da sensibilidade, a fé na razão e na ciência, o interesse pelos problemas sociais, podendo-se talvez reduzi-las à seguinte expressão: o verdadeiro é o natural, o natural é o racional. A literatura seria, conseqüentemente, ex­pressão racional da natureza, para assim manifestar a verdade, buscando, à luz do espírito moderno, uma última encarnação da mimesis aristotélica”6:

         Para Boileau, a primeira virtude do artista é a razão:

“Aimez donc la raison; que toujors vos écrits empruntent d’elle seule et leur lustre et leur prix”7

(Ame, portanto, a razão; que sempre os seus escritos emprestem somente dela o seu brilho, o seu valor.)

A essa valorização do natural associa-se, notadamente, a simplicidade; tais traços, nesses termos, convertem-se no ponto de contato entre os ideais neoclássicos e o conceito de sublime, que se faz também presente nas produções da época; este, se por um lado se harmoniza com alguns princípios do Neoclassicismo, por outro se converte num fator de dissolução do próprio movimento, abrindo-o para o vicejar da estética pré-romântica8. Vale lembrar que o mesmo Boileau traduziu, no mesmo ano do lançamento de sua Art poétique (Arte poética), o Traité du sublime (Tratado do sublime), do pseudo-Longino.9

         A poesia é também entendida como “imitação da natureza no universal” e no particular, feita com versos para utilidade ou para deleite dos homens ou para uma e outra coisa juntamente”10, diz Luzán, na trila horaciana. E um bom exemplo, no caso, são as “fábulas” de La Fontaine.

A verdade e a natureza, mas ambas conhecidas através da experiência. "À emoção quinhentista do mundo descoberto em superfície, sucede, depois de aproximadamente um século de alheamento, a emoção da reali­dade vista em profundidade e pormenor. As novidades espantosas que an­tes se pediam aos nautas e exploradores de continentes esperam-se agora dos investigadores de laboratório, de todos os observadores dos fenômenos da terra e do céu, munidos de microscópios e telescópios. Analogicamente é à razão, a que Descartes confiava a audaciosa como que recriação do uni­verso, de que a dúvida metódica fizera tábua rasa, que recorrem moralistas e legisladores, que tentam a reforma nacional dos costumes e das instituições tradicionais. A razão, livre da pressão da fé, na solução dos problemas do cognoscível; a natureza, minuciosamente observada."11

         Mas ainda estamos diante de uma estrutura social em que a razão e o bom senso se vinculam à educação no ambiente aristocrático.12 Isso leva a uma redução de lemas, a uma linguagem limitada. Com apoio nesse prin­cípio, o conceito de beleza associa-se ao conceito de razão, e "razoável" é o que é real: “Rien n’est que le vrai; le vrai seul est aimable”13.

         Razão, verdade, exemplo dos antigos gregos e latinos, finalidade didática da obra de arte. E mais: separação de gêneros, observância da re­gra das três unidades para o teatro, disciplina, norma, cálculo.

         Em suma, o Neoclassicismo surge no século XVIII como uma tendência geral das artes na Europa, cabendo assinalar a forte presença e influência francesas. Nasceu da aplicação de princípios abstratos, de um rígido código de normas, valores críticos, fórmulas literárias que consubstanciavam a imposição de um gosto oficial. A preocupação primeira era a satisfação intelectual e lógica, antes da emoção; havia que cuidar da elegância exterior em vez da unidade interna na obra de arte. De tudo isso decorrem o caráter decorativo, a ausência de sentimentos, de paixão, de fantasia; se ocorrem em algum escritor da época, é porque ele já não se integra totalmente no estilo vigente; a sua liberdade criadora não se conforma com a coação. Por outro lado, marca a literatura predominante no tempo uma intenção didática e crítica, também constrangedora.

         O estado de espírito, a atitude geral neoclássica, cujas características muito sumariamente acabamos de examinar, surgem em Portugal através da corrente chamada Arcadismo, que apresenta certas divergências com o padrão geral, como, por exemplo, a ausência de anticlericalismo. Basta dizer que a arcádia, que dará nome ao movimento, tinha como patrono o Menino Jesus.

         Essa arcádia14 tem origem em Roma. Foi fundada em 1690 pelos amigos da rainha Cristina, ex-soberana da Suécia. Filha de Gustavo Adolfo, a jovem Cristina abdicara do trono e do luteranismo e convertera-se à religião católica. Fixando residência na Itália, reunia ume sue palácio eruditos e estudiosos para discutir problemas ou ler trabalhos literários e científicos. Morre a soberana em 1689, e os participantes das reuniões não querem deixar perder-se o bom hábito: com regulamento-programa, presidente e dezesseis membros, fundam a agremiação.

         Seus integrantes denominavam-se “pastores” e adotavam nomes pastoris gregos ou latinos. O presidente era o guardião-geral. Por patrono tinham o Menino Jesus, símbolo de simplicidade, como já dissemos. As reuniões realizavam-se em jardins ou parques das grandes vilas romanas.

         Em linhas gerais, o Arcadismo apresenta os seguintes trações característicos:

         Reação ao mau gosto do Barroquismo.

         Culto da teoria aristotélica da arte como imitação da natureza,15 entendendo-se que o guia da arte é, nesse caso, a razão. Não se trata de “reproduzir” simplesmente a natureza, mas sim de “apreender a forma imanente”, isto é, “uma verdade ideal. O belo é o verdadeiro porque este é o natural filtrado pela razão”16. Poesia, por exemplo, é imprimir verdade na imaginação.

         Persistência das normas ditadas pela antigüidade clássica, consubstanciadas rigorosamente nas artes poéticas e nos manuais da época.

         Retorno ao equilíbrio e à simplicidade dos modelos greco-romanos, diretamente ou através dos modelos renascentistas, notadamente de Petrarca.

         Presença marcante do bucolismo, da exaltação da vida campesina, com sua paisagem, seus pastores e seu gado e a simplicidade dos costumes da vida rural.

         Imposição de uma disciplina literário nacional, com predomínio da “autoridade literária”, do dogma sobre o gosto.

         Simplicidade, mas correção e nobreza de linguagem.

         Defesa de uma função social para a literatura, que deve ter caráter didático e doutrinário.

         Preocupação com a finalidade moral da literatura.

         Preocupação com o homem natural, entendido “no sentido próprio, de primitivismo, como no figurado, de obediência ao que em nós é sangue e nervo”17.

         Preocupação com alindar a possível feiúra da realidade.

         Tendência, na poesia, para pintar situações, mais do que emoções.

         Separação, em termos clássicos, dos gêneros literários.

         Condenação da rima.

         Em Portugal instalou-se, em 1756, a Arcádia Lusitana, uma academia com propósitos reformadores, fundada por três bacharéis em Direito: Cruz e Silva, Esteves Negrão e Gomes de Carvalho. A reforma da poesia portuguesa, por exemplo, seria feita pela imitação dos clássicos ---*, à luz dos princípios ditados por Aristóteles, Horácio e Longino, sobretudo através de lições dos teorizadores da época, como o citado Boileau, por exemplo. A intenção era, sobretudo, antibarroca.

         Ficou do Arcadismo luso a importância de uma atividade crítica e doutrinária ao lado de urna fraquíssima obra de criação literária:18

"Os poetas arcádicos oscilam entre um convencionalismo solene apropriado à pompa do absolutismo monárquico, que tentava revestir-se da grandeza imperial romana, e, por outro lado, o realismo do cotidiano burguês. o prosaísmo, a desmitificação do lirismo tradicional. Do absolutismo monárquico conservavam estes poetas – quase to­dos funcionários da administração – a pompa; do iluminismo, que quase todos professavam, o seu racionalismo antibarroco e antiesco­lástico; de sua origem burguesa, o gosto descritivo de certos ambien­tes concretos e certos temas da vida cotidiana"19.

         Portugal conhece ainda a Nova Arcádia, em fins do século XVIll.

         Passemos agora ao Rococó.

Para muitos especialistas, trata-se de um movimento altamente representativo, no cruzamento de tendências que, corno assinalamos, marca o século XVIlI.20 Alguns chegam mesmo a considerá-lo um estilo de época autônomo, situado no mesmo nível, por exemplo, do seu coetâneo Neoclassicismo. Tal dimensionamento, no âmbito da arte literária, data dos últimos quarenta anos, e, apesar de algumas opiniões em contrário, o Rococó já integra, com maior ou menor destaque, a terminologia dos estilos de época, inclusive no Brasil.21

              A palavra deriva de rocaille, que se refere a rochedo, grutas. As con­chas (coquille, sem o molusco, coquillage, com o mesmo) eram elementos de ornamentação na época.

         Para caracterizá-lo, voltemos a Hatzfeld, que, ao estudar o século XVIII francês, “como a expressão do rococó nas artes e literatura, em termos aplicáveis às outras manifestações artísticas fora da França”, nos esclarece sobre o que seja o espírito rococó: “1. Uma gama de amor, do namoro ao índio, à lascívia, ao erotismo; 2. A natureza como o lugar ideal para o prazer voluptuoso (fêtes champêtres, paisagens eróticas etc...); 3. Intimidade na vida e nas instituições sociais (interiores, música de câmera, bijoux, cenas íntimas etc...); 4. Máscaras e disfarces, como recurso intimista para velar e revelar; 5. Esprit, talvez o maior predicado do espírito rococó (ironia de Montesquieu e Voltaire)”22.

         O mesmo Hatzfeld, estendendo os seus estudos à Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal, confirma a sua tese e, em livro de 197223, entende que a literatura rococó abrange todo um período. Na configuração do estilo, aponta ainda:

·         ênfase na claridade, numa retomada de atitude renascentista;

·         ênfase na ação, nos cenários, no vestuário;

·         substituição do herói por heróis cômicos;

·         visão superficial e cínica das paixões humanas;

·         agnosticismo e ceticismo;

·         preferência pelo romance de costumes, pelo romance social, epistolar ou memorialista.

A esses elementos podemos acrescentar as mascas que José Guilherme Merquior aponta como também caracterizadoras do estilo:

a) Oposição ao “senso cósmico do seiscentos, substituindo o parque monumental pelos jardins ‘pitorescos’” de canteiros bordados, e a majestosa amplitude das paisagens à Poussin ou Claude pelas vedute ou fêtes champêtres: por vistas impressionistas da rua (Guardi) ou anedotas bucólicas (Watteau), nas quais as figuras humanas reconquistam ao quadro natural a condição de protagonistas da cena.24

b) Culto do hedonismo, obsessão do prazer, e de tal maneira que “os próprios moralistas religiosos procurarão descrever a fé como volúpia, a virtude como gozo. Uma franca erotização invade dessublimatoriamente a cultura”25. É a hora do amor “simultaneamente sensual e cerebral, tipificando em Casanova, réplica rococó ao D. Juan barroco”26.

c) Culto da conversação e do esprit.

d) Ênfase no ludismo.

e) Presença forte da mulher, “pivô dos salões”: “a literatura rococó tem seu público no salão e no café, berços da primeira opinião pública moderna. Ambientes ‘informais’, café e salão fomentaram a arte da conversação”27.

         Entre os autores representativos da literatura rococó, figuram, entre outros, Marivaux, o abblé Prévost, Diderot, Voltaire, Beaumarchais, Pope, Defoe, Lawrence Sterne (que tanta influência terá sobre Machado de Assis), Lessing, o jovem Goethe, Gravina, Muratori, Goldoni, Ramón de la Cruz, Meléndez Valdez.

         As tendências pré-românticas que começam a despontar nos meados dos século voltam-se para a valorização do sentimento, a melancolia e a angústia; substituem-se as regras clássicas pelo culto do “gênio”, abandonam-se os princípios da poética clássica. Aos quadros da manifestação literária da época acrescentam-se, entre outros exemplos, a presença da poesia inglesa, o noturno sepulcral de Edward Young, a mística de William Blake, a poesia do suíço-alemão Salomão Gessner, este último com sua concepção sentimentalista da poesia bucólica. Acrescente-se o movimento do Sturn und drang (tempestade e assalto) dos alemães, com as contribuições de Klopstock, Herder, Goethe e Schiler, entre outros, e a forte presença do francês Jean-Jacques Rousseau.

         No Brasil, as manifestações setecentistas, notadamente o Arcadismo, vão refletir-se nos poetas do grupo mineiro, embora sem o rigor que caracteriza o movimento em outras paragens. A poesia de Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga, Basílio da Gama e José de Santa Rita Duerão traz, de um lado, como assinala Merquior, marcas de um “rococó ilustrado, (...), um misto de neoclassicismo e rococó”28 e de outro já deixa vislumbrar pré-românticos. Não houve, entre nós, a fundação de nenhuma arcádia. Criaram-se, entretanto, nesse século XVIII, quatro academias, caracterizadas, em geral, por uma literatura preciosa e decorativa e por fortes trações de barroquismo: Academia Brasílica dos Esquecidos (Bahia, 1724-25), Academia Brasílica dos Felizes (Rio de Janeiro, 1736-40), Academia dos Renascidos (Bahia, 1759), Academia dos Seletos (Rio de Janeiro, 1752).

         Fundaram-se ainda na época duas sociedades de intelectuais, no Rio de Janeiro: uma científica (1772) e outra literária (1786). Ambas se preocupam menos com problemas literários do que científicos, como flora indígena, inundações da cidade etc...

         A título de exemplo de manifestação literária no Brasil da época, leia-se “Lira I”, de Tomas Antônio de Gonzaga:

 

LIRA

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

que viva de guardar alheio gado;

de tosco trato, de expressões grosseiro,

dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

das brancas ovelhinhas tiro o leite,

e mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Eu vi o meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os Pastores, que habitam este monte,

Respeitam o poder do meu cajado:

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Mas tendo tantos dotes da ventura,

Só apreço lhes dou, gentil Pastora,

Depois que o teu afeto me segura,

Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

De um rebanho, que cubra monte, e prado;

Porém, gentil Pastora, o teu agrado

Vale mais q’um rebanho e mais q’um trono.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Leve-me a sementeira muito embora

O rio sobre os campos levantado:

Acabe, acabe a peste matadora,

Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso:

Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;

Para viver feliz, Marília, basta

Que os olhos movas, e me dês um riso.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Irás a divertir-te na floresta,

Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta,

Dormindo um leve sono em teu regaço:

Enquanto a luta jogam os Pastores,

E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas,

Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

Depois que nos ferir a mão da Morte,

Ou seja neste monte, ou noutra serra,

Nossos corpos terão, terão a sorte

De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes,

Lerão estas palavras os Pastores:

“Quem quiser ser feliz nos seus amores,

“Siga os exemplos, que nos deram estes.”

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

 

         Observe-se:

         As estrofes apresentam um expositor que se dirige a uma personagem feminina Marília, dizendo de si mesmo, de sua situação na vida, de suas aspirações.

         Depreendem-se dos versos uma concepção tranqüila e feliz da existência, uma visão confiante do mundo, valorizada por uma condição amorosa onde transparece a ausência de conflitos.

         É exaltada a vida campesina nas suas mais simples condições.

         Na primeira e na segunda estrofes, o expositor situa-se em termos físicos e sociais: diz de suas habilidades artísticas e faz referência a outro indivíduo, Alceste (atente-se para o nome), como termo de comparação.

         Na terceira estrofe, dimensiona-se o sentimento, que, por comparação, aparece ultravalorizado, sem qualquer angústia.

         A quarta estrofe apresenta uma figura-padrão de mulher, que, seja dito desde logo, corresponde à imagem ideal de figura feminina presente na literatura da época e que volta valorizada em sua significação na estrofe seguinte. Observe-se a tendência para o sentimentalismo.

         A Sexta estrofe define seu ideal típico de viver citadino, sempre à sombra da paisagem bucólica.

         Culmina o trecho com a certeza da felicidade presente e com a segurança da felicidade que essa condição vital representa.

         Há um refrão que se repete no final de todas as estrofes, marcando a “eleição desse expositor privilegiado e, ao mesmo tempo, traduzindo uma atitude característica do ambiente social em que se insere poeticamente.

         Se as condições vitais traduzidas no poema se fazem de simplicidade e naturalidade, também simples é a linguagem de que se constituem as estrofes.

         A área semântica mostra-nos palavras e expressões capazes “de criar um mundo de formas ideais que exprimem objetivamente o mundo das formas naturais”30.

         Com raras exceções, a manifestação lingüística está muito próxima da prosa e da denotação. O texto afasta-se dessa atitude apenas na Quarta estrofe, quando a figura feminina é apresentada através de metáforas, hipérboles e comparações que, mesmo na época, já eram lugares-comuns; repare-se como a imagem é artificial e estereotipada.

         O vocabulário é, em sua maioria, ligado ao campo. Se pensarmos na realidade brasileira do tempo, o século XVIII, é fácil verificar que não há no texto qualquer preocupação com caracterizá-la, seja em termos de imagem, seja em termos de exaltação; há, isto sim, uma caracterização geral de realidade campestre.

         Na área da sintaxe, observam-se o rigor da norma gramatical, a estrutura frasal simples, com o uso de hipérbatos não-violentos e nem mesmo expressivos: as inversões constituem mais um “comportamento”, notadamente no que se refere aos adjetivos; estes são, em sua maioria, meramente descritivos; em cada estrofe, os quatro primeiros versos constituem sempre um período.

         Na área fônica mantêm-se o equilíbrio e a regularidade: o texto faz-se de sete estrofes, cada uma com oito versos decassílabos e um refrão composto de dois versos hexassílabos (heróicos quebrados); a matéria de que se trata distribui-se regularmente pelas estrofes. A cada uma corresponde um aspecto da realidade apresentada; o esquema rítmico também se repete: ABABCDDCEE; não há preocupação com o emprego da rima rica, e algumas admitem vogais de timbre diverso: bela/Estrela; vapora/pastora; embora/matadora; ciprestes/estes.

         Claro está que para a compreensão plena das sete estrofes que estamos examinando se torna necessário conhecer o livro Marília de Dirceu de que são parte integrante. Mas mesmo esse reduzido material permite vislumbrar que “o principal da mensagem gonzaguiana está numa poesia suave, de acentuado cunho realista, de concepção burguesa da vida, dentro do espírito moralizador e didático”31 da época. Na verdade, na obra de Gonzaga revelam-se nítidos traços do Arcadismo tal como se manifestou no Brasil.

         Sintetizemos, por fim, a área semântica da variada terminologia com que se costuma designar as principais tendências do século que estamos examinando:

         O Rococó vem sendo caracterizado por alguns críticos, nos últimos quarenta anos, como o estilo dominante da centúria, notadamente depois dos estudos de Hatzfeld.

Enciclopedismo traduz a orientação da Encyclopédie française, publicada entre 1751 (primeiro) e 1772 (últimos volumes).

         Iluminismo e ilustração indicam “o conjunto de tendências ideológicas próprias do século XVIII, de fontes inglesa e francesa, na maior parte”32.

         Neoclassicismo, outro termo empregado com freqüência para caracterizar o estilo da época, prende-se à tendência a imitar os clássicos franceses, comum na Europa do século de setecentos, e, no que se refere às literaturas portuguesa e brasileira, identificaria a preocupação com combater o cultismo, imitar gregos e romanos, como Vergílio, Horácio, Teócrito e Anacreonte, além de tomar como modelo as atitudes literárias do século XVI.33

         Arcadismo liga-se à arcádia, agremiação que, originando-se em Roma, como vimos, será modelo de instituições do gênero, fundadas em outros países.

         Para alguns críticos, essa última designação, Arcadismo, “é melhor que as outras, dado o seu sentido histórico”, desde que “tenhamos a preocupação de não restringi-la à convenção pastoral que evoca imediatamente” e consideremos que “engloba os traços ilustrados”.34

         De tudo o que dissemos sobre o século XVIII europeu, a conclusão é que nele não encontramos um estilo homogêneo e único, mas, como já ficou assinalado, um cruzar-se de correntes espirituais e estéticas. Cumpre lembrar, entretanto, que o Iluminismo lança as bases do liberalismo e da sociedade industrial que marcam a época em que vivemos.

         Já nos fins do século XVIII, percebem-se os prenúncios de grande tempestade: a razão e a verdade logo cederão lugar ao sentimento e à imaginação.

         É o que veremos no próximo capítulo.

 

 



* ininteligível na xerocópia