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POEMA DE JOHN KEATS

LA BELLE DAME SANS MERCI

 

 

Que te pode doer, pobre-diabo

   Só em desalento vagando;

Os cíperos vêm secos desde o lago

   E nenhum pássaro cantando.

 

Que te pode doer, pobre-diabo

   Tão triste, tez desfigurada?

Cheio o coleiro do esquilo

   E a colheita consumada.

 

Vejo um lírio em tua fronte

   Em angústia e febre orvalhado;

E na face uma rosa lânguida

   Que já em breve também terá murchado.

 

Uma Dama nos prados encontrei

   Formosa em plenitude, filha de fada

De longa cabeleira, leve o

   E era de fera a sua fé mirada.

 

Possui-a em meu corcel a passo

   E durante esse dia mais vi nada

E do lado inclinada ela pendia

   E uma canção cantou de fada.

 

Uma grinalda fiz para a cabeça

   E bracelete e laço perfumado

E como se me amasse me fitou

   E suave lamento foi lançado.

 

Sumo de orvalho, mel agreste e essências

   De ameno sabor me regalou

E com certeza em língua estranha,

   Eu te amo, declarou.

 

Para a sua gruta encantada me levou

   E lá bem suspirou profundamente

E lá cerrei seus feros tristes olhos

   Assim beijados, dormentes, dormentes.

 

E lá bem me embalou até o sono

   E lá sonhei – Ah, mala sina

O último sonho que jamais sonhei

   Nesse lado frio da colina.

 

Pálidos reis eu vi e também príncipes

   Guerreiros pálidos, na lividez da morte

Gritando: “La Belle Dame sans mercy

   Tem-vos serva a sorte.”

 

Vi seus lábios à míngua no crepúsculo

   Greta agourenta grande e bem ferina

E despertei aqui me achando

   Nesse lado frio da colina.

 

E eis por que passo por aqui

   Só em desalento vagando

Embora os cíperos secos desde o lago

   E nenhum pássaro cantando.15

 

15 Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX. Organização e tradução de José Lino Grünewald. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 65-67. [N.T]

 

 

Em termos poéticos, talvez seja essa a melhor balada em língua inglesa, desde as Baladas Folclóricas de Fronteira, surgidas na Ata Idade Média. Para um leitor avisado, trata-se de uma excelente oportunidade de se aperfeiçoar em leitura de poesia. Existe algo muito estranho em “La Belle Dame sans merci”, que está longe de ser um poema celebrativo – conforme pensava o poeta e romancista Robert Graves. Para Graves, a Belle Dame era, ao mesmo tempo, a tuberculose (que dera cabo de Keats aos vinte e cinco anos de idade), Fanny Brawne (amada, embora jamais possuída, por Keats), o amor, a morte, a poesia, e a Deusa Branca, musa mitológica que gerava, desposava e enterrava os poetas autênticos. Embora fosse um leitor de poesia, em sua leitura da balada de Keats, Graves projetou a sua relação, a um só tempo, sublime e destruidora com a poetisa norte-americana Laura Riding.

O poema de Keats – “A Bela Dama sem piedade” – toma o título emprestado a um poema francês que remonta à Idade Média, mas é sempre tão original e sutil que jamais sabemos ao certo se a estamos lendo corretamente. Em todo caso, lendo-o com atenção, somos levados a duvidar que essa “filha de fada” seja, deveras, impiedosa, ainda que, sem dúvida, tenha vitimado uma série de amantes – reis, príncipes e pálidos guerreiros -, que, supostamente, definharam, por terem passado a recusar alimento mundano após um repasto de fadas. Mas esse é o sonho do cavaleiro do poema – será que devemos nele acreditar?

Estamos em um fim de outono, ou início de inverno, e o cavaleiro encontra-se angustiado, enfermo, possivelmente, a definhar. Nas primeiras três estrofes ouvimos a voz de Keats; nas demais nove fala o desolado amante da fada. Quando a última estrofe nos faz retornar, em círculo, à primeira, percebemos que Keats evita inserir a balada dentro de um estrutura fechada, em que ele próprio aparecesse como narrador, no início e no fim. Será que, muito sutilmente, o gesto não indicaris uma identidade entre Keats e o cavaleiro, conforme pensava Graves?

A questão crucial do poema é que a Belle Dame e o cavaleiro não conseguem se comunicar, e é possível que ele esteja interpretando erroneamente os gestos e as expressões faciais da mulher. O cavaleiro apaixona-se pela bela fada à primeira vista; e como poderia ser diferente? Contudo, as palavras do cavaleiro fazem-nos duvidar da interpretação que ele próprio faz da atitude da Dame. “E como se me amasse me fitou/E suave lamento foi lançado”. Esse lamento pode ser mais uma ameaça do que uma expressão de amor, e podemos perceber a insegurança do cavaleiro quando este diz: “E com certeza em língua estranha,/Eu te amo, declarou”. A interpretação do cavaleiro parece equivocada, e preocupa-nos saber que a Dame “bem suspirou profundamente”, pois constatamos o fracasso de mais um amante iludido.

Expressão perfeita de amantes tristonhos, os versos abaixo, embora estejam entre os mais melancólicos escritos em língua inglesa, podem traduzir auto-ilusão.

 

          E despertei aqui me achando

             Nesse lado frio da colina

 

O cavaleiro adormece na “gruta encantada” onde a fada habitava – com que propósito, não somos informados, mas os beijos que ele dá nos “tristes olhos” da Dama podem ter sido toda a recompensa que ele obteve. Como terá sido transportado daquele ninho de amor (se é que se tratava de um ninho de amor) para o lado frio da colina, onde ele despertara? Pode ter sido em um passe de mágica, mas como saberemos se tudo não terá passado de uma ilusão? Quando começa o sonho do cavaleiro>

A balada é por demais inteligente para responder, peremptoriamente, a todas essas indagações. Permanecemos na dúvida, encantados, como o próprio Keats parece encantar a si mesmo. Por que ler “La Belle Dame sans merci”? Pela maravilhosa expressão de anseio universal pelo romance e pela profunda convicção de que todo romance, literário e humano, depende do conhecimento incompleto e incerto.