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Jonathan Swift

(1667 – 1745)

Por THOMAS, Henry e THOMAS, Dana Lee. Vida de grandes romancistas. 2ª. ed. Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo. Ed. Globo, 1954

Título do original americano: Living biographies of famous novelists.

 

 

A história de Jonathan Swift é a tragédia de um gigante acorrentado por liliputianos. Mas é também a comédia de um misantropo que sabia rir das cadeias que o prendiam. Tinha um cérebro forte demais num corpo excessivamente débil – combinação que converte um homem num pregador monótono ou num sarcasta brilhante. Jonathan Swift foi ambas estas coisas.

A superioridade de sua inteligência ficou demonstrada quando ele tinha três anos. Nessa idade já era capaz de ler, sozinho, a Escritura. E a fragilidade de seu corpo ficou demonstrada quase que ao mesmo tempo. Desde a mais tenra infância sofreu ataques periódicos de tonturas e vômitos.

Efetivamente toda a sua vida foi uma mistura de contradições. Estas começaram no berço. Embora filho de ingleses, nasceu na Irlanda e lá viveu a maior parte de sua vida. Sua natureza ficou marcada por esta dupla influência de descendência e ambiente: cresceu com o espírito de um inglês e o coração de um irlandês.

Perdeu o pai quando tinha seis meses e, ao completar doze meses, foi raptado por sua ama de leite. Chegando ao conhecimento desta que lhe morrera um tio deixando-lhe uma herança na Inglaterra, embarcou para lá num navio sem nada avisar a patroa… e levou consigo o pequeno Jonathan. Somente três anos mais tarde o menino voltou para perto de sua mãe, e voltou com um profundo amor à Bíblia e com um gosto endiabrado de fazer troça de tudo.

Aos seis anos entrou para o ginásio de Kilkenny e aos catorze matriculou-se no Trinity College de Dublin. Aí demonstrou “paixão pela leitura e aversão pela disciplina”. Mal conseguiu um certificado de aprovação nos estudos, mas não o diploma definitivo devido à sua “desnecessária insolência para com o Junior Dean”. Voltou para casa desonrado.

Conseguiu, contudo, apesar de sua “desnecessária insolência”, o emprego de secretário de Sir William Temple, escritor medíocre, íntimo conselheiro do rei da Inglaterra e – assim diziam os mexericos maliciosos, mas provavelmente falsos – pai “natural” do próprio Jonathan. O emprego representava um salário de vinte libras por ano e um lugar na segunda mesa, com os criados da casa.

E assim, com o bolso cheio, mas com o orgulho abatido, o jovem e brilhante secretário ia pondo por escrito os pensamentos do velho e medíocre patrão. E nos momentos de ócio – que não eram muitos – apontava também os seus próprios pensamentos, quase sempre em verso.

Mas nos raros momentos de lazer do seu aprendizado, o jovem Jonathan encontrou outra diversão: ensinar a uma meninazinha chamada Ester (ou Stella) Johnson. Essa linda criança de oito anos fazia parte da casa de Sir William. Sua posição ali, bem como sua origem, pareciam envoltas em mistério. Legalmente batizada como filha da governanta de Sir William e de Edward Johnson, seu mordomo, era muito benquista do dono da casa, sendo tratada como pessoa da família. Os mexericos diziam – e desta vez provavelmente com razão – que Stella era também filha natural de Sir William. Seja como for, Sir William não só lhe prometeu um legado quando morresse, mas lhe proporcionou uma educação aprimorada sob a orientação de Jonathan Swift.

O jovem Swift gostava de ensinar Stella. Quanto a esta adorava seu alto e simpático preceptor dono de uma língua cáustica e de um sorriso amável.

Estas relações amistosas entre mestre e discípula duraram, com interrupções, nove anos. Então Jonathan Swift mudou de emprego. Foi despachado capelão de Dublin Castle. O jovem cura ficou contente com a honra espiritual, porém não lhe agradou a parte material do emprego. Resolvido a abraçar a carreira eclesiástica, almejava atingir os postos mais elevados na Igreja da Inglaterra em vez de ser apenas um broto do ramo irlandês desta. Todavia, aquilo que ele mais desejava – um lugar proeminente na Igreja da Inglaterra – foi a coisa que seus superiores lhe negaram com mais energia. Pois este “clérigo louco” – como o chamavam os superiores – tinha um cérebro capaz das maiores surpresas e uma pena livre demais para um líder da fé ortodoxa. Não havia como predizer que bomba ele era capaz de lançar inopinadamente sobre os membros da sua igreja. Como era do conhecimento geral, já ele escrevera – embora ainda não a tivesse ousado publicar – uma sátira arrasadora contra algumas práticas religiosas na Europa. Chamara sua sátira história de um barril, título que, segundo explicava no prefácio, lhe fora inspirado por um costume popular entre os marinheiros. Quando encontram uma baleia, dizia, jogam no mar um barril vazio que, distraindo a atenção do cetáceo o impede de atacar a embarcação. Dessa mesma maneira ele lança a sua história para evitar que os infiéis ataquem a igreja.

E continua, mostrando como o cristianismo se desviou da religião de Cristo. Ilustra sua tese com uma alegoria sobre um homem que legou três casacos de igual valor a seus três filhos: Pedro (A Igreja Católica), Martin (A Igreja da Inglaterra) e Jack (a Igreja Calvinista). “Estes casacos” – disse o pai – “durarão sem a menor dúvida enquanto vocês viverem… Usem-nos e escovem-nos com freqüência… Além disso, dispus em meu testamento que os três vivam na mesma casa como irmãos, pois assim, terão certeza de prosperar.

Os três irmãos tomaram os casacos – continua Swift e esqueceram-se em seguida do testamento do pai. Cada qual começou a remodelar o próprio casaco, procurando sempre tê-lo de acordo com a moda do dia.

Finalmente, Pedro, tendo adornado seu casaco com ombreiras, com galões de ouro e diversas outras coisas até não ser possível reconhecê-lo mais como o original doado pelo pai, passou a proclamar que era o único dono do verdadeiro casaco. Além disso, declarou que somente ele era dono da casa de seu pai e imediatamente expulsou a pontapés os dois irmãos.

Estes, escreve Swift, voltaram então a examinar o testamento do pai (a Bíblia) e tentaram restaurar os próprios casacos de acordo com a simplicidade inicial.

Em sua tentativas conclui Swift, Martin teve um certo êxito. Arrancou do casaco todos os bordados desnecessários, tendo o cuidado de deixar apenas os adornos que serviam para realçar ou para esconder um defeito. Entretanto Jack estava tão aflito por simplificar seu casaco que acabou reduzindo-o a um trapo. E quando o povo veio vê-lo ou rir-se dele… mas o resto da história é grosseiro em demasia para paladar moderno.

Somente vários anos depois de concluída é que a História de um barril foi publicada… anonimamente. Embora idealizada como uma parábola para mostrar as preferências de seu autor pela Igreja da Inglaterra, não logrou a aprovação dos bispos e arcebispos anglicanos. Acharam graça na sátira de Swift contra os defeitos das outras igrejas, mas ficaram muito zangados com as alusões feitas aos da igreja anglicana. Este jovem capelão – resolveram eles – era sabido demais, e isso não lhe faria nenhum bem. Era um homem que se devia mimar, mas também vigiar.

 

 

II

 

Um dia, quando Swift já era um velho, passou os olhos por algumas páginas de sua História e murmurou: “Meu Deus, como eu tinha talento quando escrevi este livro!”. Isso foi a sua desgraça. Seu gênio era grande demais para a compreensão dos seus contemporâneos. Os espíritos tacanhos tinham medo do intelecto superior. Conservaram-no deliberadamente agrilhoado, transferindo-o de uma situação obscura para outra igualmente sem importância. De Dublin Castle para uma paróquia do interior, em Laracor. Daí novamente para a cardeal de S. Patrício, em Dublin. Mas, nada de bispado para ele na Inglaterra nem na Irlanda. O deado foi o cargo mais alto que se animaram a oferecer-lhe. Swift doutorara-se em teologia, captara a amizade dos homens mais influentes da Inglaterra, jantara com o Primeiro Ministro e jogara cartas com o Secretário do Tesouro. Mas tudo em vão. Sempre que se candidatava a uma posição importante da Igreja, recebia uma delicada recusa. Sua pena estava excessivamente embebida de fogo e de enxofre. Certa vez chegou a apelar diretamente para a rainha… e recebeu a mesma resposta negativa. O deão Swift permaneceu a mais famosa das nulidades da sua época.

Mas, com tudo isso, exteriormente continuou alegre. Seus dias, apesar dos ataques demasiadamente freqüentes de tontura, eram cheios de epigramas e de risos. Amava individualmente as pessoas, embora as odiasse em globo. Era um tipo de homem alto, vigoroso, moreno, dos que estão sempre em foco, de olhos penetrantes, sobrancelhas negras e espessas, dotado de voz sonora. Que histórias não sabia contar! E que linguagem usava, especialmente quando não havia senhoras presentes! E que cavalheiro para com as damas! – não obstante certos rumores acerca de sua deficiência orgânica.

Externamente era um homem jovial e interiormente era um vulcão de ira. Consciente de sua superioridade sobre os figurões da época, diante deles, tinha de manter-se em atitude de lacaio. Indo espontaneamente a Londres em missão favorável aos irlandeses, conheceu os dois estadistas ingleses mais conspícuos (Bolingbroke e Harley), tentou como pôde angariar-lhes a simpatia (“em Londres um homem deve andar de gatinhas”) e tornou-se seu palhaço favorito, mas sem paga.

Como Defoe, escreveu panfletos políticos para Harley. Diferiu, porém, de Defoe, visto como declinou qualquer recompensa pelo trabalho. Em certa ocasião, ao apertar a mão de Harley, este passou-lhe disfarçadamente uma nota de cinqüenta libras. Ofendido, o panfletário atirou a nota ao rosto de Harley, retirou-se altivamente da sala e recusou-se a ver de novo Harley até que este o procurou em sua casa para apresentar-lhe pessoalmente suas desculpas.

O que Swift queria em troca de seu trabalho não era dinheiro, mas promoção. E isto ele nunca foi capaz de conseguir nem de Harley nem de qualquer outra pessoa.

Contudo, sua estada na Inglaterra, apesar de ter sido um fracasso político, foi um triunfo intelectual. Tornou-se a figura central nos cafés, onde as inteligências mais vivas de Londres se reuniam para seu diário duelo de línguas. O ”clérigo louco” era sem a menor dúvida o mais hábil, se não era sempre o mais sutil dos duelistas. Seus golpes eram fundos e decisivos. Quando realmente queria ferir, não andava com meias medidas. “Ninguém”, escreve um dos seus biógrafos, Bertram Newman, “teve jamais tanta inteligência e tão pouco humor como Swift”.

Possuía um tipo curioso de engenho, qual o de desmascarar sem dó nem piedade a hipocrisia que cobre a fealdade da vida, uma cínica reductio ad absurdum – uma redução da pompa do fantástico ao absurdo do real. Seu talento sarcástico aflorava em seus atos tanto amistosos como hostis. E seus atos eram outras tantas surpresas – tanto mais inesperados quanto mais lógicos. “Uma noite”, escreve o poeta Alexander Pope, “Gay (autor de The Beggar’s Opera) e eu fomos visitar Jonathan Swift – sabeis como éramos íntimos. Ao entrar em sua casa, diz o doutor: - Ora viva senhores – que significa esta visita? Que foi que houve para que deixassem os grandes lordes que tanto amam, para virem visitar um pobre deão?

- Porque preferimos vê-lo a procurar qualquer deles.

- Quem não os conhecesse tão bem como eu poderia acreditar no que dizem. Mas, desde que estão aqui, creio que devo arranjar um jantar para ambos, não é?

- Não doutor. Já jantamos.

- Já jantaram! É impossível. Ainda não são oito horas.

- Já jantamos, sim, doutor.

- É muito estranho. Mas, se não tivessem jantado, eu deveria oferecer-lhes alguma coisa. Deixem-me pensar: que poderia ser? Uma ou duas lagostas? É, isso serviria perfeitamente – dois shillings; tortas – um shilling. Mas não irão beber comigo um copo de vinho, embora tenham jantado fora da hora habitual apenas para pouparem o meu dinheiro?

- Não. Preferimos conversar a beber com o senhor.

- Mas, se tivessem jantado comigo, o que deviam ter feito em boa razão, deviam beber um copo em minha companhia. Uma garrafa de vinho – dois shillings. Dois e dois são quatro, e um são cinco. Apenas dois shillings e seis pence cada um. Aqui está, Pope, meia coroa para você; e outra para o senhor, pois estou resolvido a não economizar nada à custa de ambos.

“E apesar de tudo que alegamos em contrário,” concluiu Pope, “insistiu até obrigar-nos a receber o dinheiro.”.

Tal a índole estranha do deão Swift: sarcástico, amável, vivaz, rabugento – um escritor aplaudido pelo seu gênio, um pregador desprezado pela sua franqueza, uma celebridade citada em toda a parte e em nenhuma parte entendida. Voltou da Inglaterra carregado de honrarias e com a recusa ao seu pedido de emprego. Um titã algemado num mundo de pigmeus.

Mas, antes de deixar seus pigmeus ingleses, divertiu-se à custa deles. Na pessoa de John Partridge furou-lhes o balão da vaidade. Partridge quer era de ofício sapateiro remendão, tentou passar por profeta. Publicou um almanaque astrológico, no qual fazia predições anuais de coisas que iriam acontecer. Para desmascarar publicamente a estupidez dessas predições, Swift publicou – sob o pseudônimo de Isaac Bickerstaff – outro almanaque com um relação de suas próprias profecias. “Minha primeira profecia”, escreveu ele, “refere-se a Partridge, o fazedor de almanaques. Consultei a estrela de seu nascimento… e predigo que ele morrerá infalivelmente a 29 de março próximo, cerca das 11 da noite, de uma febre devastadora.

O dia 29 de março passou e Partridge protestou que permanecia vivo. Mas “Isaac Bickerstaff”manteve sua predição. Publicou uma minuciosa Notícia de morte de M. Partridge, o fazedor de almanaques, no dia 29 do corrente. Mais uma vez Mr. Partridge protestou que não estava morto. Diante disso, “Mr. Bickerstaff” anunciou com seriedade que John Partridge era não somente um cadáver, mas também um mentiroso.

E assim o farsante ficou desmoralizado e permaneceu “um morto e mentiroso” até o fim da vida.

 

 

III

 

Swift era um homem estranho, e uma das coisas mais estranhas que com ele se deram foras as suas relações com Stella e Vanessa. Stella, como vimos, era uma meninazinha a quem ele tinha dado lições enquanto servia como secretário de Sir William Temple. Quando Stella cresceu, tornou-se para ele alguma coisa menos que uma amante, porém alguma coisa mais que uma amiga. Quanto a Vanessa (cujo verdadeiro nome era Ester Vanhomrigh) Swift a conhecera numa de suas idas a Londres e sentira-se ternamente afeiçoado a ela. E Vanessa – apesar do deão ter idade suficiente para ser seu pai – apaixonou-se por Swift.

E aqui começa um dos casos mais interessantes na história do amor. Swift devotou-se a ambas sem, entretanto, entregar-se inteiramente a nenhuma delas. Quando estava Inglaterra, mantinha uma correspondência íntima com Stella; e quando estava na Irlanda, fazia o mesmo em relação a Vanessa. E finalmente, quando se estabeleceu em Dublin como deão da catedral de S. Patrício, viu-se na situação agradável, embora embaraçosa, de arcar com a presença de ambas as suas afeiçoadas, vivendo na mesma vizinhança. Stella morava numa casa próxima da catedral e, quando Swift estava viajando, ela ficava no próprio aposento do deão. E Vanessa tomou uma casa num subúrbio de Dublin com o pretexto de que tinha herdado uma propriedade naquela localidade e que precisava tratar pessoalmente do negócio.

Stella e Vanessa nunca se encontraram. No entanto, ema sabia da existência da outra e ambas ralavam a Swift com seus ciúmes. Das duas, Vanessa era a mais impetuosa. “Nasci com paixões violentas”, confessou a Swift em uma de suas cartas, “e todas vêm a dar numa única: esta inexprimível paixão que sinto por ti… Por favor, demonstra-me um pouco de carinho, senão enlouquecerei…” E, finalmente, ela não suportou a tensão a que eram submetidas as suas emoções. A 1º de maio de 1723, fez seu testamento, no qual omitiu deliberadamente o nome de Swift e morreu a 1º de junho do mesmo ano “sem a assistência de Deus ou de um padre”, e “tendo nas mãos um fragmento de História de um barril”.

Stella, não menos sensível, porém mais sensata que Vanessa, sobreviveu a esta cinco anos. Pode dizer-se que em geral exerceu influência preponderante sobre o seu “clérigo louco”. Sendo uma mulher de caráter firme e de critério sereno, “dispunha-se antes a confirmar uma opinião errônea do que a contradizê-la.”. A desculpa que costumava das (estamos citando palavras de Joseph Addison) “era que assim evitava barulho e poupava tempo”. Embora não lhe agradasse o papel de dona apenas de uma metade das afeições de Swift, contentava-se com um ocasional ataque à “deslealdade do meu querido”. Afinal compreendia que Swift era um homem fora do comum, que precisava ser tratado com cuidados especiais.

E assim ela viveu sua cautelosa vida mais como “sua ministra que como sua amante” (1). Não há provas que corroborem a insinuação de alguns dos seus contemporâneos de que eles tinham se casado. E quando ela morreu, deixou no coração do velho deão uma lacuna impreenchível. Dali em diante a conduta exterior de Swift, como a do seu íntimo, foi a de um homem amargurado. “Detesto o mundo”, escreveu a um de seus amigos, “porque estou me tornando inteiramente inadequado a ele”.

 

 

IV

 

Para o deão Swift tornou-se uma espécie de ritual ler no dia do seu aniversário, o capítulo da Bíblia no qual Job amaldiçoa o dia em que veio ao mundo. Aprendia cada vez mais a desprezar a humanidade e a servir a seus semelhantes. Estava especialmente ansioso por aliviar o peso que acabrunhava os irlandeses. Castigava-os com a língua e com a mão os acariciava. O sofrimento da Irlanda tinha-se tornado a ansiedade dominante de sua velhice. Aliviar esse sofrimento, tornara-se sua ambição mais viva. Certa ocasião, tendo o governo inglês proposto uma medida contra o povo irlandês, Swift, numa série de cartas, zurziu a injustiça com tal virulência que o governo julgou necessário desistir do intento. Estas cartas, assinadas por “M. B. Drapier, proprietário de uma loja de artigos irlandeses”, conquistaram para Swift “a eterna gratidão” dos irlandeses e tornaram-se para ele “uma fonte perene de aborrecimentos.”. Pois não lhe agradava a adulação do povo. Ele o ajudara, disse, não movido de amor ao povo, mas de ódio à escravidão. Conhecia a inconstância da multidão. Esta estava pronta a aplaudi-lo por seu desassombro em defendê-la. Mas, levantaria um dedo para salvá-lo das conseqüências de sua intrepidez? Para ilustrar este ponto, contava uma história divertida. Um judeu espanhol, seguido por uma turba de exaltados colegiais, era conduzido ao pelourinho. Temendo perder seu divertimento se o homem fizesse sua retratação, a meninada dava-lhe palmadas nas costas e gritava: Sta firme, Moysc!

E Swift continuou firme a despeito dos meninos bobos e dos selvagens inquisidores do mundo. Sentia um desprezo compassivo pelos Yahoo da espécie humana, com seus perjúrios e suas paixões, sua estupidez, suas trapaças e suas guerras. Espantava-se com a desumanidade do homem para com seu semelhante. Tinha perdido toda a fé na razão humana. E asseverou essa sua falta de fé num folheto cuja cerrada lógica lhe confere, mesmo entre as obras de Swift, um lugar especial. O título desse folheto é Modesta proposta tendente a impedir que os filhos dos pobres sejam em peso para os pais ou para a nação, e a torná-los úteis ao público. Onde está – perguntava ele – a utilidade de todas as sugestões feitas para minorar a “terrível pobreza e a confrangedora penúria” dos camponeses da Irlanda? Para que perder mais tempo tentando ensinar os proprietários de terras ausentes “a terem, pelo menos, um grão de misericórdia para com seus colonos?”. Fora com “idéias tão vãs, inúteis, visionárias!” Ele, o autor da Modesta proposta tinha um plano inteiramente novo e prático – um plano “que espero, não será passível da mais leve objeção”.

Em resumo, é este o seu plano:

“Um norte-americano das minhas relações em Londres, entendido na matéria, assegurou-me que uma criança sadia e bem cuidada é, com um ano de idade, um alimento delicioso, muito nutritivo e saudável, quer cozido, tostado, assado ou estufado, e não tenho dúvida que também dará fricassé ou guisado.”

Portanto, que os camponeses da Irlanda criem seus filhos para a mesa dos grandes latifundiários ingleses. “Uma criança dará para dois pratos numa festa aos amigos e, quando a família não tem convidados para o jantar, o quarto dianteiro e o traseiro darão um prato razoável, e temperados com um pouco de pimenta ou sal cozinharão muito bem passados uns quatro dias, especialmente no inverno…

“Concordo em que esta comida em que esta comida será um tanto cara e, portanto, muito apropriada para os senhores de terras que, como já devoraram quase inteiramente os pais, parecem ter os melhores direitos aos filhos…

“Fiz os cálculos das despesas de alimentação do filho de um mendigo… são cerca de dois shillings por ano… E creio que nenhum gentleman sentirá dar dez shillings pela carcaça de uma criança bem gorda… Assim o Squire se tornará popular entre seus colonos, e a mãe camponesa terá oito shillings de lucro líquido e estará apta para o trabalho até ter outro filho.”

E depois, imprimindo ao seu látego satírico um movimento final: “Os mais econômicos… poderão esfolar a carcaça, pois que a pele artificialmente preparada, dará admiráveis luvas para senhoras e ótimas botas de verão para cavalheiros.”

Os senhores de terras leram o folheto, exprimiram o seu asco ante a barbaridade do autor e continuaram na sua tarefa “civilizada” de matar lentamente à fome seus colonos irlandeses.

Quanto ao “bárbaro”, continuou a viver “em completa raiva e ressentimento”, rosnando contra todos e dando esmolas a uma torrente contínua de mendigos que vinham diariamente bater-lhe à porta.

Odiava os mendigos. E o mundo, dizia, estava cheio deles. Podiam ser encontrados entre os ricos tanto quanto entre os pobres. “Os ricos mendigam um reino; os pobres, uma côdea de pão.” Swift detestava os mendigos gigantes muito mais que os mendigos pigmeus. Quanto maiores são, diz Swift nas Viagens de Gulliver, maior é a tortura que infligem aos olhos e ao nariz. Não precisava mendigar porque não tinha o que fazer com o dinheiro. Neste ponto, dizia, procurava modelar-se à imagem do Todo-Poderoso. “Podemos dizer quão pouco o Onipotente estima o dinheiro, observando aqueles a quem outorga.”

E assim o “clérigo louco”, a zombar e a repreender, chegou à velhice, dando a todos a impressão de que estava de cabeça para baixo, porque, num mundo de pernas para o ar, era ele o único que se mantinha em pé.

 

 

V

 

Swift chegara aos anos de sabedoria desiludida e decidiu incorporar esta sabedoria às viagens imaginárias de Lemuel Gulliver. A 8 de agosto de 1726, enviou o manuscrito das Viagens de Gulliver ao editor Benjamin Motte. Anexo enviou-lhe uma carta assinada “Richard Sympson” na qual se apresentava como primo de primo Lemuel Gulliver. “Há alguns anos Mr. Gulliver confiou-lhe uma cópia de suas Viagens… Mostrei-a a várias pessoas de grande discernimento e distinção; e embora alguns trechos, em um ou dois lugares, possam ser julgados como um tanto satíricos, concorda-se em que não melindrarão ninguém. Em prosseguimento, Mr. “Sympson” oferecia ao editor o manuscrito por 200 libras, com a condição de que se a venda do livro não cobrisse essa quantia, ele reembolsaria do restante o editor.

O livro foi publicado no outono de 1726 e a primeira edição esgotou-se numa semana. Todo o mundo ria-se com o impiedoso ataque de Gulliver à estupidez da raça de homens yahoo, porque todos pensavam que o ataque dizia não consigo mas com o vizinho. E Swift tornou-se ainda mais encanzinado. Malograra-se-lhe o intento. “Eu queria”, diz ele, “apoquentar o mundo e não diverti-lo.” As Viagens de Gulliver são a história de um homem de senso aventurando-se a discretear sobre as inanidades e vaidades de um mundo louco. Se ao menos o mundo, em vez de se divertir com seus homens são, permitisse que eles o guiassem! Então haveria menos cobiça e mais bondade, menos propriedade privada e mais fraternidade, menos crueldade e mais piedade, menos esplendor falso e mais glória, menos insolência e mais critério. “Freqüentemente fiz esforços”, escreveu Swift a Alexander Pope, “para estabelecer uma amizade dentre os homens de bom senso… Eles são, às vezes, mais de três ou quatro em cada geração; e se pudessem estar unidos, poderiam conduzir o mundo à sua vontade.”.

A um desses homens ajuizados ele conheceu – Voltaire. Este jovem francês rebelde, exilado para a Inglaterra por causa de sua língua franca demais (“O meu comércio” dissera ele, “é escrever o que penso”) sentou-se aos pés do “clérigo louco”, absorveu sua filosofia, escreveu uma imitação (Micromégas) das Viagens de Gulliver e voltou para a França com um novo modo de encarar as coisas e decidido a abolir os ódios e as injustiças dos dominadores do mundo.

E o “clérigo louco” prosseguiu em sua incansável busca de um mundo são. Seu corpo estava devastado e seu coração amiúde se confrangia com a perda dos mais queridos. “O dom de uma vida longa custa caro demais.” A fim de fortalecer-se para a provação de uma velhice solitária, escreveu uma prece que foi encontrada, após sua morte, entre seus escritos inéditos. “Ó, Deus, vós distribuís vossas bênçãos e vossos castigos com infinita justiça e misericórdia… Volvei antes nossos pensamentos para aquela felicidade que esperamos eles vão fruir do que para a inenarrável perda que vamos sofrer.”

Sempre preocupado com a felicidade humana, sse misantropo que vivia a rosnar contra o gênero humano.

 

 

VI

 

E agora suas idéias, seus sofrimentos e sua rosnadura se haviam desgostado a ponto de reduzir-se a um compassivo olvido. Seu espírito era uma página em branco. Um dia, ao ler ele História de um barril, alguém lhe disse que era ele, Swift, o autor do livro. “Oh! Não. O homem que escreveu isso era um gênio”, respondeu o deão. Sempre que via num espelho o rosto macilento, dizia com tristeza impessoal: “Pobre velho.”. E na sua data natalícia, quando os sinos soavam e se acendiam fogueiras em sua homenagem, perguntava: Quem é esse homem a quem o povo ama com tanto afeto?

19 de outubro de 1745. Lá em cima um céu claro, dentro dele um espírito enevoado. Mas durante um instante a nuvem se dissipou. “Oh! Deus”, ouviram-no murmurar, “tomai todo cuidado comigo nesta minha última viagem.”

E quando empreendeu sua viagem, uma cidade inteira veio apresentar-lhe seu adeus. Tinham aprendido a cultuá-lo como um homem cheio de ódio e cheio amor. Um homem que odiava a injustiça e amava a humanidade.

 

 

(1) O autor usa aqui um jogo de palavras, ministress-mistress, impossível de reproduzir em português. (N. T.)

 

 

OBRAS IMPORTANTES DE SWIFT:

A batalha dos livros

História de um barril

As viagens Gulliver

Os filhos dos pobres

Instruções aos servos

Conservação polida

Numerosas sátiras em verso.