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Introdução aos Estudos Literários

                                      por Erich Auerbach

                                                          Tradução de José Paulo Paes

 

 

D. A EXPLICAÇÃO DE TEXTOS

 

A explicação de textos se impôs desde que existe a Filologia (ver p. 18); quando nos encontramos diante de um texto difícil de compreender, cumpre tratar de aclará-lo. As dificuldades de compreensão podem ser de várias espécies: ou bem puramente lingüísticas, quando se trate de uma língua pouco conhecida, ou em sentido novo, de construções peremptas, arbitrárias ou artificiais; ou então dificuldades que digam respeito ao conteúdo do texto; este contém, por exemplo, alusões que não compreendemos ou pensamentos difíceis de interpretar, cuja compreensão exige conhecimentos especiais; o autor pode, outrossim, ter ocultado o verdadeiro sentido de seu texto sob uma aparência enganosa; isso concerne sobretudo (mas não exclusivamente) à literatura religiosa: os livros sagrados das diferentes religiões, os tratados místicos e de liturgia contêm, quase todos, ou presume-se que contenham, um sentido oculto, e é pela explicação alegórica ou figurativa que cumpre interpretá-lo.

A explicação de textos, denominada também “comentário”, quando se trata de uma explicação continuada de uma obra inteira, foi praticada desde a Antiguidade e adquiriu importância particularmente grande na Idade Média e na Renascença; uma grande parte da atividade intelectual da Idade Média se exerceu sob a forma de comentário. Se abrirmos um manuscrito ou uma edição antiga impressa de livros religiosos do Cristianismo ou de Aristóteles, ou mesmo de um poeta, não encontraremos amiúde, em cada página, senão umas poucas linhas de texto, em caracteres graúdos; e essas poucas linhas são rodeadas, à direita, à esquerda, acima e abaixo da página por um comentário abundante, escrito ou impresso, na maior parte dos casos, em caracteres menores. Existem também muitos manuscritos e livros que contêm somente o comentário sem o texto, ou que inserem as frases deste, sucessivamente, como títulos de parágrafos no comentário. O comentário pode conter toda sorte de coisas: explicações de termos difíceis; resumo ou paráfrases do pensamento do autor; remissões a outras passagens onde o autor diga algo parecido; referências a outros autores que falaram do mesmo problema ou empregaram um torneio de estilo semelhante; desenvolvimento do pensamento, em que o comentador faz entrar suas próprias idéias ao explicar as do autor; exposição do sentido oculto, se o texto for, mesmo presumidamente, simbólico. A partir da Renascença, o comentário alegórico cai pouco a pouco em desuso, e o desenvolvimento que dá as idéias próprias do comentador desaparece; doravante, os eruditos preferem outras formas para enunciar suas próprias idéias. O comentário se torna mais claramente filológico, e assim permanece até hoje. Um comentador moderno das cartas de Cícero ou da Comédia de Dante, fornece, em primeiro lugar, explicações lingüísticas das passagens em que uma palavra ou uma construção as exijam; discute as passagens cujo teor seja duvidoso (ver A); dá esclarecimentos sobre os fatos e personalidades mencionadas no texto; tenta facilitar a compreensão das idéias filosóficas, políticas, religiosas, assim como das formas estéticas que a obra contém. É bem de ver que um comentador moderno se servirá do trabalho daqueles que o precederam no mesmo afã, e os citará amiúde textualmente.

Entretanto, conforme acabo de dizer no parágrafo precedente, a explicação de textos, há já algum tempo, vale-se de outros procedimentos e visa a outros fins. Quanto aos procedimentos, sua origem deve ser procurada, ao que me parece, na prática pedagógica nas escolas. Um pouco por toda parte, e sobretudo em França, fazia-se com que os alunos procedessem à análise de algumas passagens dos escritores lidos em classe; analisavam eles poemas ou passagens escolhidas, raramente uma obra inteira. A análise servia, em primeiro lugar, para propiciar a compreensão gramatical; depois, para o estudo da versificação ou do ritmo da prosa; a seguir, o aluno devia compreender o exprimir, com suas próprias palavras, a estrutura do pensamento, do sentimento ou do acontecimento que a passagem continha; por fim, fazia-se com que ele descobrisse, dessa maneira, o que havia no texto de particularmente característico do autor ou de sua época, tanto no que concerne ao conteúdo como no que concerne à forma. Pedagogos inteligentes logravam até mesmo fazer compreender aos seus alunos a unidade de fundo e forma, quer dizer, como, nos grandes escritores, o fundo cria necessariamente a forma que lhe convém, e como amiúde, com alterar um pouco que seja a forma lingüística, arruína-se o conjunto do fundo. Tal procedimento tinha a vantagem de substituir o estudo puramente passivo dos manuais e das lições do professor pela espontaneidade do aluno, que descobria por conta própria o que faz o interesse e a beleza das obras literárias. Ora, esse método foi consideravelmente desenvolvido e enriquecido por alguns filólogos modernos (entre os romanistas, é preciso citar sobretudo o Sr. L. Spitzer) e serve-lhes para finalidades que ultrapassam a prática escolar; serve para uma compreensão imediata e essencial das obras; não se trata mais, como nas escolas, de um método de averiguar e ver confirmado o que já se sabia de antemão, mas de um instrumento de pesquisas e de novas descobertas. Várias correntes do pensamento moderno contribuíram para favorecer-lhe o desenvolvimento científico: a estética “como ciência da expressão e lingüística geral”, do Sr. B. Croce; a filosofia “fenomenológica” de E. Husserl (1859-1936), com o seu método de partir da descrição do fenômeno específico para chegar à intuição de sua essência; o exemplo de análises da história da arte conforme as levou a cabo um dos mestres universitários de maior prestígio da última geração, H. Wölfflin (1864-1945); e muitas outras correntes, outrossim. A explicação literária se aplica de preferência a um texto de extensão limitada, e parte de uma análise por assim dizer microscópica de suas formas lingüísticas e artísticas, dos motivos do conteúdo e de sua composição; no curso dessa análise, que deve servir-se de todos os métodos semânticos, sintáticos e psicológicos atuais, é mister fazer abstração de todos os conhecimentos anteriores que possuímos ou acreditamos possuir acerca do texto e do escritor em questão, de sua biografia, dos julgamentos e das opiniões correntes a seu respeito, das influências que ele pode ter sofrido, etc.; cumpre considerar somente o texto propriamente dito e observá-lo com uma atenção intensa, sustentada, de modo que nenhum dos movimentos da língua e do fundo de escape – o que é muito mais difícil do que poderiam imaginar aqueles que nunca tenham praticado o método; observar bem e distinguir bem as observações feitas, estabelecer-lhes as relações e combiná-las num todo coerente, constitui quase uma arte e seu desenvolvimento natural é entravado, outrossim, pelo grande número de concepções já formuladas que temos em nosso cérebro e que introduzimos em nossas pesquisas. Todo o valor da explicação de textos está nisso: é preciso ler com atenção fresca, espontânea e sustentada, e é preciso guardar-se escrupulosamente de classificações prematuras. Somente quando o texto em exame estiver inteiramente reconstruído, em todos os seus pormenores e no conjunto, é que se deve proceder às comparações, às considerações históricas, biográficas e gerais; nisso, o método se opõe francamente à prática dos estudiosos que despojam um grande número de texto para neles buscar uma particularidade que lhes interesse, por exemplo, “a metáfora no lirismo francês do século XVI” ou “o motivo do marido enganado nos contos de Boccaccio”. Através de uma boa análise de um texto bem escolhido, chegar-se-á quase sempre a resultados interessantes, por vezes a descobertas inteiramente novas; e quase sempre, os resultados e descobertas terão um alcance geral que poderá ultrapassar o texto e propiciar informações sobre o escritor que o escreveu, sobre sua época, sobre desenvolvimento de um pensamento, de uma forma artística e de uma forma de vida. Não há dúvida de que se a primeira parte da tarefa, a análise do texto propriamente dito, é assaz difícil, a de situar o texto no desenvolvimento histórico e bem avaliar o alcance das observações feitas, o é ainda mais. É possível adestrar um principiante na análise de textos, ensiná-lo a ler, a desenvolver sua faculdade de observação; isso lhe dará até prazer, pois o método lhe permite desenvolver desde o começo de seus estudos, antes de ter colhido nos manuais, a duras penas, grande número de conhecimentos teóricos, uma atividade espontânea e pessoal. Mas desde que se trate de situar e avaliar o texto e as observações feitas sobre ele, será mister, evidentemente, uma erudição muito vasta e um faro que só raramente se encontra, para fazê-lo sem cometer numerosos erros. Como as explicações de texto fornecem muito amiúde novos resultados e novas maneiras de formular um problema – é precisamente por isso que elas são preciosas –, o filólogo desejoso de bem discernir e de fazer ressaltar o alcance de suas observações só de raro em raro encontra, nos trabalhos anteriormente realizados, pontos de apoio para auxiliá-lo em sua tarefa, e vê-se então obrigado a levar a cabo uma série de novas análises de textos para comprovar o valor histórico de suas observações; quando ele parte de um único texto, os erros de perspectiva são quase que inevitáveis, assim como freqüentes.

A explicação de textos, malgrado seu método muito claramente circunscrito, pode servir a intenções as mais diversas, segundo o gênero de textos que escolhamos e a atenção que prestemos às diferentes observações que neles podemos fazer. Ela pode visar unicamente ao valor artístico do texto e à psicologia peculiar de seu autor; pode-se propor a aprofundar o conhecimento que temos de toda uma época literária; pode também ter como objetivo final o estudo de um problema específico (semântico, sintático, estético, sociológico etc.); neste último caso, distingue-se dos antigos processos pelo fato de que não começa por isolar os fenômenos que lhe interessam de tudo quanto os rodeia, isolamento que dá a tantas investigações antigas um ar de compilação mecânica, grosseira, destituída de vida, mas os considera antes do meio real em que se encontram envolvidos, só os destacando a pouco e pouco e sem lhes destruir o aspecto peculiar. No conjunto, a análise de textos me parece o método mais sadio e mais fértil entre os processos de investigação literária atualmente em uso, tanto do ponto de vista pedagógico quanto do das investigações científicas.


Questões para Facilitar a Compreensão do Texto

Incluir na pasta sob a forma de respostas ou texto explicativo em prosa.

 

 

1)    Relacione filologia e explicação de textos. (p. 38, principalmente)

2)    Fale sobre o que vem a ser comentário. (p. 38-39, principalmente)

3)    O que deve a explicação de textos à prática pedagógica? (p. 39-40)

4)    Do que devemos nos abster para fazermos uma primeira explicação textual? (p. 40-41)

5)    Quando é possível partir para as comparações, para as considerações históricas e biográficas gerais? (p. 40-41)

6)    Para que pode servir a explicação de textos?