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Dois



Daniel na cova dos leões


Aquele gosto amargo do seu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo então salgado ficou doce
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa dos meus braços e aida leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa ser o meu instante
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.

Quase sem querer


Tenho andado distaído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Estou tão tranquilo
E tão contente.

Quantas chances disperdicei
Quando que eu mais queria
Era provar pra todo mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Me fiz em mil pedaços
Pra voçê juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que sentia
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.

Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.

Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que as vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

Acrilic on canvas


- É saudade então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras
Quase nunca são.

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Qua não chegamos a sujar
A armação fiz com madeira
Da janela do teu quarto
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não bricaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois ponto de fuga
E rabisquei meu horizonte.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez
E era sempre, sempre o mesmo novamente
A mesma traição.

Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.

Mas então porque eu finjo que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim não foi desse jeito
Ninguém sofreu e é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueça-de-mim".

Eduardo e Monica


Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Monica tomava um conhaque
Noutro lado da cidade como eles disseram.

Eduardo e Monica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
Festa estranha com gente esquisita:
- Eu não etou legal. Não aguanto mais birita.
E a Monica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa:
- É quase duas, eu vou me ferrar.

Eduardo e Monica trocaram telefone
Depois telefonaram e dicidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Monica queria ver o filme do Godard
Se encontraram então no parque da cidade
A Monica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo
Eduardo e Monica eram nada parecidos
Ela era de leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglêis
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes
De Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol de botão com seu avô.

Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola, cinema, clube, televisão".

E, mesmo com tudo diferente
Veio mesmo de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha que ser.

Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar
A Monica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar
Ele aprendeu a beber, deixou cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa
que nem feijão com arroz
Construíram uma casa uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmios vieram
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.

Eduardo e Monica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade da saudade no verão
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filinho do Eduardo
Tá de recuperação.

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Tempo perdido


Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi um dia:
"Sempre em frente, Não temos tempo a perder".

Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos
Então me abraça forte
E me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acessas agora
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi rpometido
Ninguém me prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens.

Central do Brasil


Instrumental.

Metrópole


"É sangue mesmo, não é mertiolate"
E todos querem ver
E comentar a novidade
"É tão emocionante um acidente de verdade"
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre
Vai passar na televisão.

"Por gentileza, aguarde um momento
Sem carteirinha, não tem atendimento
Carteira de trabalho assinada, sim senhor
Olha o tumulto, façam fila por favor
Todos com a documentação
Quem não tem senha, não tem lugar marcado
Eu sinto muito, mas já passa do horário
Entendo seu problema mas não posso resolver
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver
Ordens são ordens.
Em todo caso, já temos sua ficha
Só falta o recibo comprovando residência
Prá limpar todo esse sangue, chamei a faxineira
E agora eu já vou indo senão eu perco a novela
E eu não quero ficar na mão".

Plantas embaixo do aquário


Aceite o desafio e provoque o desempate
Desarme a armadilha e desmonte o desfarce
Se afaste do abismo
Faça do bom-senso anova ordem
Não deixe a guerra começar.

Pense só um pouco
Não há nada de novo
Você vive insatisfeito e não confia em niguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade
Mas, faça do bom-senso a nova ordem
Não deixe a guerra começar.

Música urbana 2


Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
Cantam música urbana
Motocicletas querendo atenção às três da manhã
É só música urbana

Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana

O vento forte seco e sujo em cantos de concreto
Parece música urbana
E a matilha de crianças sujas no meio da rua
Música urbana
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana

Os uniformes
Os cartazes
Os cinemas e os lares
Nas favelas
Coberturas
Quase todos os lugares.

E mais uma criança nasceu
Não há mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana.

Andrea Doria


Às vezes parecia que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro.

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir.

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto
Até chegar o dia em que tentamos ter demais
Vendendo fácil o que não tinha preço.

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém com quem conversar
Alguém que depois não use o que eu disse contra mim.

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
E com a minha própria lei
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também.

Fábrica


Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão.

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
E o que era verde aqui, já não existe mais
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar com o fogo
Que venha o fogo então.

Esse ar deixou minha vista cansada
Nada demais.

Índios


Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda assim pude trazer você de volta para mim
Quando descobrir que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda nãi vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Com a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda assim pude trazer você de volta para mim
Quando descobrir que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda nãi vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.


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