.
Ao trabalho!
ROMEO vinha de um local delle Marche, Casteldemilio, onde
a força de uma guilda* de artesãos
que trabalhavam o couro só fez atualizar-se quanto aos produtos.
Na estrutura interna
vigoravam os moldes medievais. Com seus discretíssimos três
graus.:
aprendiz, companheiro e mestre. A permanência na Itália
após a emigração
dos pais e irmãos mais novos pode ter a ver com a necessidade
de completamento
da formação ( o que implicava também em iniciações)
pois quando Romeo
chegou a Lençóis já era, aos 27 anos, maestro-artigiano.
Diz a Tradição das Guildas que cabe ao Mestre o maior
exemplo de humildade.
Este conceito vive, ainda hoje, no seio de Ordens Tradicionais que
nelas tiveram a sua origem.
A primeira coisa a fazer foi começar a trabalhar como sapateiro.
Em seguida,
cumpre os preceitos da guilda que o comprometem com a partilha dos
conhecimentos recebidos.
Começa a admitir aprendizes e com isso pode qualificar a
mão-de-obra local
para uma produção artesanal em escala comercial.
Do seu encontro logo nos primeiros tempos com o jovem Donato Ciccone,
seu coetâneo e
também imigrante, originário de Macchiagodena, no
Molise, nasce uma parceria
comercial que culminaria em vínculos de família na
geração seguinte.
Romeo, em sua pequena sapataria, produzia em série botinas
de trabalho,
os ditos borzeguins** e Donato, em suas andanças como
mascate a cavalo, os vendia.
Isto permitiu que em 1910 AMELIA e ROMEO viessem a comprar a casa
onde viveriam o resto de suas vidas, na esquina de rua XV de Novembro
com a
rua da Ponte Velha. O terreno inicial fazia limite com o da familia
Basso
no sentido do rio Lençóis e com a familia Nelli pela
XV de Novembro.
Uma visão sem escala dá uma idéia do tipo de
ocupação:
Assim chegamos a 1912 quando a Casa de Calçados Romeo oferecia
calçados de fabricação própria, serviços
de sapataria e sapatos e botas sob medida.
Os borzeguins continuavam a ser vendidos pela Casa Donato
do amigo Donato Ciccone
assim como um tipo de sapato masculino criado por Romeo para uso
em longas caminhadas e
terrenos difíceis. Eram bonitos, sólidos e duráveis,
graças ao tratamento dado ao couro após a modelagem.
Com um solado de camadas sobrepostas de couro de sola finas e flexíveis
numa espessura de 1,5 cm e cadarços para amarrar.
Os tamanhos atendiam de crianças de 10 anos até adultos.
Compravam-no os que viviam em locais afastados da cidade e vinham
até ela a pé.
Bastava passar um pano molhado e estava apresentável.
Esse modêlo foi produzido até o final dos anos '30
e distribuido na região.*
Maestra Amelia e um grupo
de seus alunos
Ao mesmo tempo, a Escola da Maestra Amelia funcionava no mesmo prédio,
com entrada independente. A alfabetização era feita
em italiano e alem das matérias
regulamentares como aritmética, geografia e história,
a grande ênfase eram
os conhecimentos gerais e cultura italiana. Ouvi, há muitos
anos do senhor Estrella,
um de seus ex-alunos, que as aulas de música eram tiradas
das óperas italianas.
A foto abaixo, do ano de 1912, mostra um momento de realização
familiar e
tranqüilidade que dificilmente voltaria a se repetir.
Da esquerda para a direita: Ignes, Amelia, Bruno, Archangelo
(centro, embaixo), Romeo e Bianca.
Curiosamente, é também a pré-foto de minha
mãe Lybia. Observe-se o volume da nonna Amelia.
* as Guildas eram as corporações
de ofício. Através delas, progredindo pelos seus Graus, o
indivíduo tinha
acesso ao conhecimento técnico pleno da sua profissão artesanal.
A tecnologia era passada
nos laços do sigilo.:
** borzeguim
- botina de uso popular para o trabalho diário. Aos tempos de Romeo
eram fechadas
com cadarços,
como um coturno. O uso do elástico de borracha só veio muito
mais tarde.
*** Em
1959 encontrei um par desses sapatos sem uso, embrulhados em papel pardo
atrás de caixas de botões
e
fivelas antigas numa das prateleiras da Casa Donato. Serviam-me embora
um pouco grandes.
Fascinado
pelo supersapato que aos nove anos de idade significava poder chutar canelas
em
jogo
de futebol de rua, imediatamente procurei meu pai e meu tio Attilio,
que
sucederam o nonno Donato na loja. Eles mesmos ficaram surpresos e me contaram
sobre
os sapatos que eram na cor marrom escura. Ato contínuo, corri a
mostrá-los aos tios Archangelo e Bruno
que
confirmaram a história e deram mais dados. Começando a usá-los
com jornal dobrado dentro porquê
eram
"ligeiramente maiores" duraram três anos de uso diário. Conservei-os
depois até mudar-me para
São
Paulo, aos 17 anos mas perderam-se na mudança.