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Lençoes: 
                  - cidade e municipio do Estado de São Paulo, na comarca de Agudos, em terreno suavemente inclinado, ao lado direito do rio Lençoes. O município comprehende  a parochia de N.S. da Piedade de Lençoes, os districtos de paz de Lençoes, Bocayuva e Tupá, e os policiaes de Boreby e Santo Antonio do Tanquinho. As culturas principaes são a do café  (62:500 saccos annualmente) e a de assucar. A cidade fica situada na margem do rio, 305 km. 
 a ONO da capital. Possue bons engenhos de canna e machinas de beneficiar café. População do municipio, 18:000 hab.

                  - Rio do Estado de São Paulo, notavel pela fórma symetrica com que de degrau em degrau se despenha no Tieté. Nasce na Serra dos Agudos.

da " Encyclopedia e Diccionario Internacional ", W. M. Jackson, INC, edição 1910.

A cidade viria a ter o nome mudado, temporariamente, para Ubirama, por força de lei federal do
Estado Novo que proibia a duplicidade de nome em municípios brasileiros
(e Lençoes na Bahia era mais velha), retornando depois como Lençóis Paulista.

A vida em Lençoes

A Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) deixava os passageiros com destino a Lençoes
na estação da vizinha São Manoel. De lá, seguia-se a cavalo ou mula.
Como ponto final para Amelia e Romeo, o bairro  que chama-se, até hoje, Corvo Branco 
embora o local desse assentamento seja conhecido como Rocinha

A   ROCINHA

A explicação vem de Nélio(Anerio)Casagrande,86*:

"uma área do município, tendo ido parar nas mãos do
padre Giuseppe Magnani, foi por ele parcialmente dividida e cedida a razão de
dois alqueires (48.400 mq) por família. Os imigrantes podiam viver nela mas não eram
proprietários. Como era natural que cada lote, ao ser ocupado devesse prover
a subsistência familiar, a primeira preocupação era plantar uma roça. Aos poucos,
começou-se a falar nas "rocinhas" e daí a Rocinha."

A medida que melhoravam de vida, eram confrontados pelo padre Magnani com
as alternativas de comprar a terra (valorizada pelo amanho e benfeitorias do
ocupante) ou sair, deixando tudo para trás. Muitos preferiram deslocar-se para
outra área, as margens do rio Lençóis e começar de novo, criando
o que viria a ser o centro histórico da Lençóis Paulista de hoje.
O nome Rocinha acabou ligado principalmente a um desses lotes ocupado
pelo imigrante cremonês Mauro Chittò, originário de Isola Dovarese, provincia de Cremona.
Ali ele instalou uma osteria onde reuniam-se os imigrantes do entorno e outros
vindos da região. O local tornou-se uma espécie de "parlamento" e manteve
essa tradição depois de adquirida pela familia Casagrande. O local
manteve-se em atividade até os anos '60, já como ponto de reunião e festas
familiares, podendo ser apontado como o primeiro buffet da cidade.

O PRIMEIRO DIA DE AMELIA ...

Um relato do despertar naquela que seria a sua nova e definitiva vida sobreviveu
na memória da filha Libya: 

A viagem desde São Manoel ocupara boa parte do dia. Chegaram ao entardecer
e foram alojados em uma casa vazia pequena e de taipa. A iluminação precária de lamparinas
e velas somada ao cansaço da viagem fez com que fossem logo dormir.
Despertando na manhã seguinte, com o sol já brilhando, AMELIA toma um grande susto
ao descobrir-se observada, bem próximo do seu rosto, por um monstro
com enormes olhos e uma respiração forte...
ao acalmar-se percebe que uma vaca, aproveitando-se de um grande buraco
na parede de taipa, enfiara a cabeça por ali. 

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* Nélio (Anerio) Casagrande, 86 anos, mestre-vinicultor dedicou a sua vida a tradição da família.
 Trabalhou com os seus mais velhos nos tempos áureos da Rocinha e manteve viva
a produção de uvas viníferas e de mesa que faziam parte da fama da Rocinha.
Dominando todas as fases desde o plantio e enxertia, até a vinificação,
tem como hobby,ainda hoje a produção do próprio vinho. A mesma delicadeza
que usa no trato das vides, tem para com as pessoas. Vive em Lençóis Paulista, onde nasceu.

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Ao trabalho!
 

ROMEO vinha de um local delle Marche, Casteldemilio, onde a força de uma guilda* de artesãos
que trabalhavam o couro só fez atualizar-se quanto aos produtos. Na estrutura interna
vigoravam os moldes medievais. Com seus discretíssimos três graus.:
aprendiz, companheiro e mestre. A permanência na Itália após a emigração 
dos pais e irmãos mais novos pode ter a ver com a necessidade de completamento
da formação ( o que implicava também em iniciações) pois quando Romeo
chegou a Lençóis já era, aos 27 anos, maestro-artigiano.
Diz a Tradição das Guildas que cabe ao Mestre o maior exemplo de humildade.
Este conceito vive, ainda hoje, no seio de Ordens Tradicionais que nelas tiveram a sua origem.
A primeira coisa a fazer foi começar a trabalhar como sapateiro. Em seguida,
cumpre os preceitos da guilda que o comprometem com a partilha dos conhecimentos recebidos.
Começa a admitir aprendizes e com isso pode qualificar a mão-de-obra local
para uma produção artesanal em escala comercial.

Do seu encontro logo nos primeiros tempos com o jovem Donato Ciccone, seu coetâneo e
também imigrante, originário de Macchiagodena, no Molise, nasce uma parceria
comercial que culminaria em vínculos de família na geração seguinte.
Romeo, em sua pequena sapataria, produzia em série botinas de trabalho,
os ditos borzeguins** e Donato, em suas andanças como mascate a cavalo, os vendia.
Isto permitiu que em 1910 AMELIA e ROMEO viessem a comprar a casa
onde viveriam o resto de suas vidas, na esquina de rua XV de Novembro com a
rua da Ponte Velha. O terreno inicial fazia limite com o da familia Basso
no sentido do rio Lençóis e com a familia Nelli pela XV de Novembro.
Uma visão sem escala dá uma idéia do tipo de ocupação:

Assim chegamos a 1912 quando a Casa de Calçados Romeo oferecia
calçados de fabricação própria, serviços de sapataria e sapatos e botas sob medida.
Os borzeguins continuavam a ser vendidos pela Casa Donato do amigo Donato Ciccone
assim como um tipo de sapato masculino criado por Romeo para uso em longas caminhadas e
terrenos difíceis. Eram bonitos, sólidos e duráveis, graças ao tratamento dado ao couro após a modelagem.
Com um solado de camadas sobrepostas de couro de sola finas e flexíveis 
numa espessura de 1,5 cm e cadarços para amarrar.
Os tamanhos atendiam de crianças de 10 anos até adultos.
Compravam-no os que viviam em locais afastados da cidade e vinham até ela a pé.
Bastava passar um pano molhado e estava apresentável.
Esse modêlo foi produzido até o final dos anos '30 e distribuido na região.*


Maestra Amelia e um grupo de seus alunos

Ao mesmo tempo, a Escola da Maestra Amelia funcionava no mesmo prédio,
com entrada independente. A alfabetização era feita em italiano e alem das matérias
regulamentares como aritmética, geografia e história, a grande ênfase eram
os conhecimentos gerais e cultura italiana. Ouvi, há muitos anos do senhor Estrella,
um de seus ex-alunos, que as aulas de música eram tiradas das óperas italianas.

A foto abaixo, do ano de 1912, mostra um momento de realização familiar e
tranqüilidade que dificilmente voltaria a se repetir.

Da esquerda para a direita: Ignes, Amelia, Bruno, Archangelo (centro, embaixo), Romeo e Bianca.
Curiosamente, é também a pré-foto de minha mãe Lybia. Observe-se o volume da nonna Amelia.
 
 

* as Guildas eram as corporações de ofício. Através delas, progredindo pelos seus Graus, o
indivíduo tinha acesso ao conhecimento técnico pleno da sua profissão artesanal. 
A tecnologia era passada nos laços do sigilo.:

** borzeguim - botina de uso popular para o trabalho diário. Aos tempos de Romeo eram fechadas
com cadarços, como um coturno. O uso do elástico de borracha só veio muito mais tarde.

*** Em 1959 encontrei um par desses sapatos sem uso, embrulhados em papel pardo atrás de caixas de botões
e fivelas antigas numa das prateleiras da Casa Donato. Serviam-me embora um pouco grandes.
Fascinado pelo supersapato que aos nove anos de idade significava poder chutar canelas em
jogo de futebol de rua,  imediatamente procurei meu pai e meu tio Attilio,
que sucederam o nonno Donato na loja. Eles mesmos ficaram surpresos e me contaram 
sobre os sapatos que eram na cor marrom escura. Ato contínuo, corri a mostrá-los aos tios Archangelo e Bruno
que confirmaram a história e deram mais dados. Começando a usá-los com jornal dobrado dentro porquê
eram "ligeiramente maiores" duraram três anos de uso diário. Conservei-os depois até mudar-me para
São Paulo, aos 17 anos mas perderam-se na mudança.

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A morte de Amelia

AMELIA em estado terminal e desenganada pelos médicos em São Paulo,
para onde tinha sido levada pela família em busca de tratamento,
volta para Lençoes em um vagão especial da Estrada de Ferro Sorocabana.

A  moeda

Em casa, antes de morrer, entrega aos filhos, uma para cada um, moedas de um "shilling"
que haviam sido guardadas, simbólicamente, para lembrá-los sempre
de que o dinheiro que ela e Romeo tinham trazido da Itália em Libras esterlinas
e que foi trocado aos poucos para o início de vida, não tinha terminado
antes que eles conseguissem, com os frutos do seu trabalho, afirmar-se na nova terra.
O que restara foi investido na Casa de Calçados. Disso sobraram 6 shillings.
Das outras moedas não tenho notícia.  Esta é o que coube a sua filha Libya:

O local de seu sepultamento permanece igual até hoje e aqui é visto em foto
que registra a construção do jazigo da familia em 1937.

Em 1958 a família adquiriu também o lote a esquerda de quem olha a foto,
assinalado aqui por uma coroa de flores, onde foi sepultado Romeo.

Uma curiosidade:

Há 50 anos atrás, a filha Libia, já casada e com filho fez, de acordo com as suas
convicções religiosas, uma doação as missões dos frades capuchinhos para
obtenção dos benefícios garantidos pelo documento acima em nome de sua mãe Amelia.
A curiosidade está em ver como certos procedimentos medievais
permanecem nas confissões religiosas.

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