O mais novo dos filhos de Amelia
e Romeu, Alfredo, foi "uma
grande figura na vida de quem o
conheceu".
A frase, dita nos anos '90 é
do amigo, já falecido, Silvio Capoani.
Seu apelido em família, dado pela mãe, Amelia,
era "Cànepa"
por ser, dos seis filhos, o mais claro, lembra a irmã
Libia.
No dizer dos irmãos, habituados a fonética
da lingua portuguesa, virou "Canépa".
Era como ser chamado de "branquinho"
Nesses tempos, o tecido branco com o mesmo nome da planta
da qual era feito,
a cânepa
mais resistente e durável que o algodão, ainda era parte
do dia-a-dia
dos italianos do Adriático, quase sempre provinda
da Romênia.
A forma de humor do jovem Alfredo poderia ser considerada
performática,
embora não existisse esse uso da palavra. Uma
das características
desse humor era a total inexistência de qualquer
forma de
imposição do ridículo a terceiros,
coisa comum num tempo
em que se valorizava o "pregar peças".
De certa forma, antecipa a figura do juiz-penitente enunciada
muito depois
por Albert Camus numa vertente de reflexão oposta
a do humor.
Um dia, conhece Elvira, que viria a ser a esposa e companheira
por toda a vida.
Trabalhavam no mesmo prédio em São Paulo,
em andares e empresas diferentes.
Ele num escritório e ela em um laboratório
farmacêutico.
Ela, então com 13 anos ia, conforme seu relato
"pedir emprestado papel-carbono
ao seu Alfredo (22 anos)". Começaram a namorar
só depois que Elvira
completou 18 anos e daí ao casamento passaram-se
4 anos.
Casaram-se em 8 de maio de 1948,
no trigésimo primeiro aniversário de Alfredo.
Olhando a foto abaixo, como estavam um ano depois de casados,
pode-se imaginar
que a "descoberta" mútua deve ter sido algo como
um espetáculo de fogos-de-artifício.
Segundo Alfredo, a sorte de ter encontrado Elvira devia-se
ao sogro Frederico Bellinato,
maestro, arranjador e instrumentista, que não
quis ir para os Estados Unidos
apesar da insistência de seus amigos do "Bando
da Lua" e do empresário deles.
O primeiro contrato exigia que fossem sozinhos e ele
não queria deixar a família.
E Alfredo explicava: eles, ou não voltaram ou
só voltaram muitos anos depois.
Refletindo meio século depois sobre o que Da. Zuleica,
mãe de tia Elvira, significou
na minha infância, nos poucos contatos que tivemos,
acho que ela passava
uma sensação de ser o arquétipo
das avós e eu sempre
saia da casa deles pensado que gostaria de te-la como
avó.
Era, com a sua doçura, o contraponto da figura
gentil, mas austera do Seo Frederico,
a quem meu pai devotava profundo respeito e admiração
como músico.
O ano de 1957 foi o momento da grande mudança na
vida de Alfredo, Elvira e seus três filhos.
Após repetidos chamados de uma tia-avó de
Elvira, decidem partir para a Itália
para morar em Veneza. A viagem em navio iniciada em 31
outubro durou 15 dias.
Junto com eles foi também o sogro Frederico, que
viria a falecer exatamente dois anos
depois da chegada, em 31 de outubro de 1959 em consequência
de
um tumor hepático. Pouco antes do fim, disse para
a neta mais nova:
"...- o vovô vai pro Bracéu" (Brasil+Céu),
tanta era a sua saudade do Brasil.
O apartamento onde foram residir, além da bela
localização,
dava-lhes a possibilidade de uma verdadeira imersão
na cultura vêneta
- Campo delle Beccherie, próximo a Ponte de Rialto
- uma
das mais antigas e características áreas
de Veneza.
Os primeiros anos foram de adaptação, aprendizado
metódico da lingua - o
italiano que era falado em Lençóis e São
Paulo, nas ruas - tinha uma forte
participação multidialetal - adaptar-se
e decidir o que fazer.
Alfredo aproveita para conhecer o novo contexto percorrendo
Veneza com a
camera fotográfica e produz, entre os passeios
familiares e as suas
andanças solitárias, um registro metódico
e completo da cidade nas várias
estações do ano em centenas de fotogramas.
Um de seus cuidados foi o de coletar imagens das multiplas
etnias
que por lá passavam como turistas.
Em fevereiro de 1992 esse acervo foi encaminhado em Mestre,
VE,
para impressão integral. Após a sua morte,
o material foi dividido
entre a esposa, Elvira e os três filhos.
O fato é que trata-se de um documento de grande
valor histórico.
O terreno em frente a estação ferroviária
Mestre Venezia atrai a atenção e
a intuição de Elvira. Tomam juntos a decisão
de instalar ali
um estacionamento. A escolha mostrou-se acertada. Com
o passar do tempo,
mais e mais turistas europeus vinham com seus carros
até Mestre, último ponto
de terra firme antes de Veneza e ali tomavam o trem.
E também motos e bicicletas eram guardadas para
aqueles que iam para lá trabalhar.
A familia em 14/2/1960, em frente ao Palácio
Ducal, Veneza.
Ali, Alfredo trabalhou todos os dias, até o fim
de sua vida.
Sua esposa, Elvira, ainda vive em Mestre.
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