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FALANDO DE REGRESSÃO…

por Maria Luísa Albuquerque

Neste artigo pretendo explicar o que é uma “regressão”, o seu significado e interesse prático em psicoterapia. Há quem considere uma charlatanice enquanto outros a apresentam como panaceia para todos os problemas. Falaremos de técnicas de “regressão” e das suas implicações.

Podemos usar várias métodos: hipnose, ADI (abordagem directa do inconsciente), terapia sistémica (constelações familiares) ou pesquisa transderivacional (programação neuro-linguística - PNL).

Usando hipnose, o paciente pode ser levado pela força da sugestão a tempos passados, quer tenham sido vividos por ele ou não. Basta que acredite terem sido vividos para ser passível de tratamento. Não é uma verdadeira regressão, pois se se pedir a uma criança de 6 anos que desenhe uma árvore, ela fá-lo sem raízes e se se fizer o mesmo a um adulto numa "regressão" sob hipnose, ele desenha-as. A um paciente regressado aos 3 anos sob hipnose, por exemplo, perguntam-lhe as horas e ele olha instintivamente para o relógio. Percebemos que não é uma regressão real, mas um método para avivar a memória, fazer com que o paciente “mergulhe” no seu inconsciente e aí vá buscar factos que o traumatizaram.

Renate Jost de Moraes (1995), desenvolveu a partir da observação clínica de cerca de 20.000 casos, um método terapêutico a que deu o nome de ADI - Abordagem Directa do Inconsciente. Com esta vasta experiência, chegou à conclusão de que muitas doenças são causadas primeiramente por um estado de insatisfação interna - o desamor. Como tratamento, preconiza que os pacientes sejam atingidos no núcleo centralizado dos seus males e a terapia deve olhar simultaneamente os aspectos físico, psicológico e espiritual do ser humano, para que a cura seja possível. O próprio paciente é o co-autor da terapia, ajudado pelo psicoterapeuta, que não deve fazer interpretações, muitas vezes arbitrárias e subjectivas, mas sim interrogações que ajudem o paciente a encontrar as respostas que procura e que o seu inconsciente lhe pode dar.

Na psicanálise, leva-se o inconsciente ao consciente. Na hipnose, obnubila-se o consciente, para provocar uma descarga emocional do problema vivido. Na ADI leva-se conscientemente, o paciente ao inconsciente, procurando ali a causa do problema. Explicando que o inconsciente tem de estar ao serviço do consciente, leva-se o paciente a assumir directamente o inconsciente. Por vezes o paciente fica surpreendido ao “ouvir” que o seu inconsciente tem condições diferentes do que a razão pensa. Esta técnica faz entender melhor o poeta quando nos diz que ‘o coração tem razões que a razão desconhece’... Depois, devolve-se a pergunta ao inconsciente do paciente, até que tudo se esclareça sem contradições. Assim, é o próprio paciente, em estado consciente, que faz o seu diagnóstico sobre o inconsciente. E é ele quem descobre as soluções. O psicoterapeuta só faz perguntas, com orientação, levando o paciente a tirar conclusões.

Embora o trabalho (qualquer que seja o método) seja realizado no adulto, procura-se a criança ferida que se encontra dentro do adulto. Renate chegou à conclusão, depois de ouvir os seus pacientes, que por exemplo, os problemas do adolescente, não nasceram na hora em que o seu comportamento se alterou. Tudo, segundo a autora, terá começado na primeira infância, ou na fase da gestação e, principalmente, em torno do momento da concepção...

Prescindindo agora de mais explicações, vamos pressupor o seguinte: o inconsciente é de natureza imaterial e não é limitado pelo espaço nem pelo tempo. Ele existe desde a concepção e faz parte da dimensão humanística do que chamaremos de Eu-Pessoal. A ADI consegue identificar esse Eu-Pessoal, desde o momento da concepção, desde o momento em que os pais se unem. O paciente percebe-se a si mesmo como algo que surge de duas realidades simultâneas: a dimensão humanística dos pais, ou Eu-Pessoal deles, e uma “Luz” muito forte, vinda do Infinito. Quando essa luz se conjuga ao momento de união dos pais, surge um novo ser, com um Eu-Pessoal distinto, único, irrepetível. E o óvulo fecundado é apenas a evolução do que já foi gerado. No Eu-Pessoal encontra-se o ser humano completo, em potencial, da mesma forma que no zigoto já está todo o físico da pessoa em semente.

O vulgar conceito de ser humano, é proveniente dos antigos gregos, que estabeleciam uma separação entre corpo e alma. Mas o Eu-Pessoal é a essência de vida de todo o ser humano, é a vida do meu todo, sou eu toda! O Eu-Pessoal interfere na criança em fase de gestação. A falta de amor entre os progenitores, pode ser interpretada pela criança em fase de gestação de tal forma que a leve a “programar” a sua auto-destruição, ao sentir-se não amada, não desejada, somatizando mais tarde todo o tipo de doenças, incluindo doenças mentais. Desta forma se explicam problemas que vão surgindo no decorrer da vida.

Fazendo uma “regressão”, utilizando qualquer método já referido, o paciente, com a ajuda do psicoterapeuta, consegue “retornar” ao momento em que fez as opções negativas e reformulá-las. É preciso fazer a humanização integral da pessoa para que se quebre então toda a cadeia e se eliminem as ramificações ou sintomas que assentaram sobre aquelas bases.

Não é simplesmente investigar o porquê da doença, mas também o “para quê” da cura. Neste sentido, cada ser humano precisa descobrir a sua missão, a missão de amar, mas para isso, torna-se necessário que cada um descubra que foi amado primeiro. E o homem assim liberto para o amor, torna-se capaz de humanizar a sua existência e também, em cadeia, a existência dos outros. Quem tem capacidade de amar, tem capacidade de compreender. Não são os problemas em si que nos atingem, é a nossa atitude perante os mesmos (V. Frankl - 1976). O amor é fundamentalmente orgânico. Morre mais gente de fome de amor, que de fome biológica!

As fases mais importantes da vida do ser humano são as da concepção, da gestação e da primeira infância. De facto, pela programação inconsciente, quanto mais próximo estiver o trauma do momento da concepção, mais violentos serão os seus efeitos, pois nessa época em que a dimensão física ainda não está completamente formada, é mais fácil criarem-se os desequilíbrios, disfunções e anomalias. O segredo para se ter uma criança sadia e equilibrada, reside no amor: o amor dos pais entre si, para com ela e para com uma força superior, representada no inconsciente pelo que chamaremos “Núcleo de Luz”.

É preciso entender o verdadeiro processo da doença e da cura, para compreender a “regressão” e os seus efeitos curativos. Não é o chá que a mãe toma para abortar, que faz o maior mal à criança, mas o sentimento de rejeição que ela transmite. E o registo dá-se com o posicionamento da própria criança diante desses factos. A esse posicionamento está ligada, segundo a ADI, uma frase-registo (FR). Assim, o psicoterapeuta leva o paciente a descobrir a sua FR que sempre aparece à volta de cenas inconscientes que marcaram. A FR é única para cada pessoa e na terapia procura-se descodificar essa FR, conduzindo o paciente a reviver o momento em que a lançou no inconsciente, sob outra perspectiva, trabalhando-a positivamente.

Em programação neuro-linguística (PNL) a filosofia é a mesma com outro nome: sofremos “imprints” (impressão) negativos e, para que a cura se dê, precisamos fazer um “reimprinting” (reimpressão) positivo.

Na terapia sistémica, ao fazer-se uma constelação, procura-se o lugar certo de cada membro da família, restaurando assim a “alma da família”. Na “alma da família” há 3 forças principais:

1 – a força que promove a união. 2 – a força do equilíbrio entre o dar e receber 3 – a força da ordem, é preciso haver normas entre o grupo.

Comparamos a “alma da família” a um bando de pássaros ou de peixes, em que um influencia o outro dentro do sistema entrelaçado em que vivemos. Às vezes o passado está na frente e é preciso colocá-lo atrás, para que não impeça o futuro.

No entanto, por vezes, sofrer é mais fácil que agir. Incutiram-nos a ideia que para se entrar no céu é preciso sofrer. Cristo sofreu e então nós também teremos que sofrer… Estar bem é mais difícil, porque é preciso mudar o paradigma e tudo o que implica mudanças, implica trabalho.

Qualquer que seja a técnica utilizada (hipnose, ADI, PNL, constelação familiar), ao ser encontrado o facto que marcou a criança negativamente, o adulto que hoje é, pode, com a ajuda do psicoterapeuta, ressignificar esse momento, ou seja, transformar o negativo em positivo, fazer uma caminhada do lado escuro da lua para o lado iluminado…

II -CASOS

Sabemos que a infidelidade conjugal, é uma das causas de desunião entre o casal com consequentes efeitos na criança. Um jovem noivo procurou ajuda, pois amava a noiva, mas sentia-se sem coragem para casar. Algo o impedia, sentia-se inseguro e indeciso sob outros aspectos, com falta de concentração e dificuldade de aprendizagem e com conflitos internos contínuos. Andava nervoso e fracassado no trabalho. Tinha ardência no estômago e vómitos esporádicos. Gostaria de casar (consciente), mas achava que não seria capaz, porque sentia que iria ser infiel e destruir a sua felicidade.

Durante uma “regressão”, o paciente diz: - “Sinto que vou ser infiel, eu tenho de ser infiel como o meu pai... e eu vou destruir a minha mulher e os meus filhos, como fez o meu pai”. O paciente fez uma terapia intensiva e descodificou todos estes registos, na medida em que foi também despertado para a vivência do seu próprio Eu-Pessoal, que é livre.

Este é um dos muitos casos resultantes de traumas causados pela infidelidade do pai ou da mãe: a identificação e a revolta contra os pais é um conflito que se gera com este comportamento. A criança sente em si uma revolta contra o progenitor faltoso. Neste caso a revolta era contra o pai pela traição à mãe, como se essa fosse ao mesmo tempo uma traição a ele, ou à mãe que faz parte do psiquismo dele. Mas ao mesmo tempo surgia no menino uma necessidade de se identificar com o pai, pois todo o pai é modelo natural de identificação do filho. Nos casos em que a infidelidade é da mãe, o filho desde cedo a desrespeita e tende a vingar-se nas mulheres e na sua futura esposa, a atitude da mãe. A filha, muitas vezes identificada com a mãe, tende a desculpá-la, porque se a condenar, ficará com sentimento de culpa e partirá para a auto-agressão.

Há casos de transferência repetitiva das consequências de conflito e comportamento. A uma paciente que através duma técnica de “regressão” se colocou nos três anos de idade, aconteceu este diálogo:

- “A mãe está a brigar com o pai, dizendo que ele não presta, que é trapalhão e preguiçoso, que não faz nada, que não nos liga”. O psicoterapeuta pediu à paciente que investigasse a situação em nível mais profundo, e esta disse:

- “O que a mãe diz não é verdade. Ela é que é dominadora. Ela é que o anulou. Ela quer o domínio total e afastou-nos dele... Nós temos medo do pai!... Mas a mãe é que nos fez ter medo dele!” O psicoterapeuta tem então de fazer a paciente entender a mãe: - “Vamos ver o que leva a sua mãe a agir deste modo. Veja donde lhe veio esta atitude de querer dominar e afirmar que o seu pai não presta”. - “Na verdade, não vem dela, não! Este era o comportamento da minha avó, que estava sempre a dizer que os homens não prestam e que as mulheres têm de ser fortes para os dominarem... A minha avó era igual a minha mãe. Eu não a conheci, mas estou a vê-la”. Procurou-se neste caso a infância da avó, sempre pelo trabalho da memória inconsciente, que se estende tranquilamente a várias gerações. A avó foi localizada aos 13 anos, à porta de casa a olhar para um rapaz. Chega a bisavó que a puxa violentamente para dentro e lhe prega um sermão negativo sobre os homens. A paciente lembrou-se da frase final desse discurso: - “Não estás a ver como é com o teu pai? Aprende comigo como se deve lidar com os homens, para que não abusem”.

Esta reacção em cadeia, estava a reflectir-se na paciente e no seu comportamento com os namorados de desconfiança e domínio, cortando assim desde o princípio um bom entendimento, mesmo que houvesse sentimento de amor. No entanto, o ser humano é dotado de liberdade, pelo que ninguém é determinado fatalisticamente a comportar-se de determinada maneira, só porque recebeu influências negativas do passado e do ambiente. As influências podem agir, mas de modo algum impedem a liberdade de mudar, de corrigir e reeducar uma maneira de ser negativa. Este pode ser um belo trabalho para o psicoterapeuta!

O inconsciente funciona como um computador dos mais perfeitos que, por si só correlaciona os factos, quando correctamente questionado. Outro exemplo dum caso:

Paciente a sofrer de forte enxaqueca. Usando uma técnica de ADI, foi pedindo que desse (sem pensar) um número relacionado com o caso, a senhora responde “05”. Sem o saber, ela revelou que possivelmente a origem do seu problema, estaria no quinto mês de gestação. Imediatamente começou a dar mostras de sofrimento, com mal-estar, e tonturas, que bloquearam a “visualização da cena”. Aqui o psicoterapeuta utiliza a qualidade de computador do inconsciente, para contornar o problema:

- “Diga (sem pensar), um número da sua vida, onde aconteceu exactamente o contrário do que não consegue identificar no 5º mês de gestação”. A ideia é ter algo de positivo para contrabalançar o negativo acontecido, segundo o paciente, ao 5º mês de gestação. A paciente dá o número sete. Pediu-se-lhe para ser mais explícita: dia de semana, hora, minutos e segundos desse “contrário”. Sem identificar qualquer facto, ela responde: - “Domingo, às 10 horas, 30 minutos e 10 segundos”. Neste momento o psicoterapeuta pede à paciente que “veja” a cena e a descreva. E ela diz que vê o pai a olhar para o caderno escolar e a elogiar-lhe o trabalho. Perguntada à paciente porque é que esta cena é contrária à que lhe causou sofrimento, ela responde: - “Porque aqui o meu pai acha-me inteligente”. Reforçada a frase “eu sou inteligente”, volta-se ao número 05, que lhe tinha causado sofrimento. - “O que aconteceu no 5º mês de gestação, que é o contrário desse contrário, do número 7 e que apesar de não conseguir ver, lhe estava a causar desconforto?” A paciente, já fortificada pelo positivo, consegue ver uma discussão entre os pais, quando a mãe estava no quinto mês de gestação e que terminou quando o pai lhe chamou “burra”. Como a paciente também era mulher como a mãe, identificou-se como “burra” e bloqueou a sua inteligência. Volta a perguntar o psicoterapeuta : - “Porque é que a burrice vem acompanhada de enxaqueca?”

E a paciente vizualizou-se noutra cena, aos dois anos de idade, onde a mãe é chamada novamente “burra” e onde chora magoada, gerando em si uma violenta dor de cabeça. A criança, interliga assim no seu inconsciente, a sua “feminilidade” com a “burrice” e com a “enxaqueca”. Todas as vezes em que se sente “mulher”, acciona em si o registo de ser “burra” e quando se sente “burra”, passa a ter enxaqueca!

A paciente, terminada a sessão diz que quase esteve para não vir naquele dia, pois quando tem a enxaqueca fica três dias de cama, no escuro. O psicoterapeuta perguntou-lhe “que enxaqueca?”. De repente a paciente verifica que não tem mais enxaqueca!

Evidentemente que a cura não estava completa. Porque o problema não era a enxaqueca em si. Foi preciso trabalhar através duma terapia sistémica usando o método das constelações familiares, o desajustamento dos pais, até a paciente perceber que os pais, apesar de algumas discussões, continuavam a amar-se e a partir desta nova constatação, já não se justificava para o inconsciente a auto-agressão por “burrice” e pela “dor de cabeça”. Estas programações foram geradas não só pela sua identificação com a mãe, mas também para “destruir” a sua própria capacidade de “sentir” e “pensar”. Ela tinha feito isto, porque lhe era por demais doloroso admitir que os pais não estavam unidos. A desunião dos pais lança a criança num vazio existencial de grande sofrimento e divide-a na sua interioridade mais profunda... A desunião conjugal dos pais é frequentemente responsável por problemas psicológicos nos filhos e que podem chegar ao extremo da esquizofrenia. O psicoterapeuta, ao fazer o trabalho sobre o inconsciente, procura recuperar os pais aos olhos do paciente, por pior que eles tenham procedido.

A criança no útero materno, é especialmente sensível aos sentimentos de aceitação ou rejeição dos seus pais para com ela e responde activamente, por meio de manifestações psicossomáticas.

A percepção inconsciente de uma criança, inicia-se desde o momento da concepção. E esta percepção não é menor que nas idades posteriores... Desde o momento inicial no útero materno, a criança entende-se como pessoa completa e distinta dos pais e já vivência as suas primeiras experiências de alegria e dor em relação a eles e ao ambiente. Neste momento, já se identifica o “Eu-Pessoal”, a dimensão livre e da consciência de si e do ser humano.

Para a educação ser efectiva, importa muito mais “ser” do que “saber” ou “fazer”. Se a educação ficasse limitada ao conhecimento de Pedagogia ou de Psicologia, que seria dos filhos de povos sem cultura? A norma máxima em educação é muito simples, mas por vezes difícil de ser praticada: chama-se “AMOR”, palavrinha “mágica” muitas vezes pobremente vivida.

Só o amor em todos os seus aspectos é capaz de gerar crianças normais, alegres, sadias, espiritualizadas, cheias de ideal e força para reconstruir uma humanidade com menos sofrimento. O problema é que na nossa sociedade consumista, a noção de amor, está um bocado adulterada. Pais há que confundem “dar” amor, com “dar “ coisas. E assim os filhos se vão habituando a ter direitos, mas sem a noção do dever: é considerado natural a TV no quarto, o computador cujo único proveito são os jogos, a moto renovada cada ano, o dinheiro para ir à discoteca... Que pais darão estes jovens assim educados no “ter”? Quando há desajustes, ao procurar o psicoterapeuta, os pais têm uma certa tendência para perguntar: - “porque me faz ele (ela) isto?”. É importante o psicoterapeuta devolver a pergunta: em vez de aceitar que lhe perguntem “o porquê”, perguntar-lhes o “para quê”. Enquanto não se trabalhar sobre a gestação, estamos simplesmente a trabalhar sintomas. Há que trabalhar agora, os futuros pais. É no amor e no desamor que sinteticamente tudo se define. Mais do que a mãe sabe, importa o que a mãe é. Se a mãe é uma por fora e outra por dentro, a criança pode vir a sofrer de dupla personalidade.

Freud apresentou o inconsciente como um conjunto de processos dinâmicos, formado por desejos recalcados e pela libido. É matéria psicológica que só pode ser conhecida pelo afloramento simbólico ao consciente, onde deve ser analisada e interpretada por um terapeuta experimentado. Jung, discípulo de Freud, modifica e amplia esse conceito de inconsciente, acrescentando-lhe outros componentes e, especialmente, fazendo a diferença entre consciente pessoal e colectivo. Este é formado por “arquétipos”, as características arcaicas resultantes da experiência dos nossos antepassados e afirmava que os nossos inconscientes se comunicam entre si. Para Jung e Freud, o inconsciente precisa ser aflorado ao consciente, onde chega precisando interpretação.

Assim fica mais fácil entender que, já que os filhos reflectem a condição conjugal dos pais, é possível tratar um filho através da mãe. Na realidade, as chamadas crianças difíceis, são mais vítimas que culpados. Desde pequeninos, são autênticos gravadores de alta-fidelidade. Vão gravando tudo o que vêem e ouvem, como o gravador faz com a música. Depois... vão tocar a música que gravaram, à medida que cresceram. (Pe. Manuel António, «Gaiato» de 27 de Maio de 1995).

III -VIDAS PASSADAS ?

Pacientes há que, sem qualquer espírito crítico, pedem uma “regressão a vidas passadas”, como que a deitarem para outros tempos a causa dos seus problemas. No entanto, a experiência mostra-me que é nesta vida que temos de procurar a causa dos problemas e respectiva solução. Cada um tem de aceitar a responsabilidade dos actos que pratica e o falar em vidas passadas, mais parece uma fuga de si mesmo.

Percebemos ao estudar os conteúdos inconscientes, que existem dimensões humanas a partir do inconsciente, que são capazes de agir sobre os registos do passado no indivíduo, de compreender os códigos inconscientes já programados e comportamentos e reacções daí resultantes, podendo reformular a programação inconsciente. Sobre vidas passadas apenas podemos dizer que são uma crença sem comprovação. Guilherme de Occam, mestre de epistemologia (ou raciocínio lógico) que viveu de 1300 a 1350, formulou o princípio que “entre duas hipóteses igualmente possíveis se deve escolher a mais simples”. Na realidade, uma análise sem preconceitos mostra que a maioria das chamadas “provas de reencarnação” não resiste à crítica da análise científica. Então, antes de se procurar a causa dos problemas em supostas vidas passadas, é importante analisar a vida presente, resistindo à tentação da explicação fácil e descartar todas as hipóteses negativas nesta vida que todos conhecemos.

IV – EXCERTOS DE DIÁLOGOS DE CASOS DO CONSULTÓRIO

1º - Paciente deprimido com forte sensação de solidão

Paciente – “Eu estou só na rua” (“regressado” aos 2 anos). Psicoterapeuta – “Onde estão os seus pais?” Paciente – “Aqui, um a segurar na minha mão esquerda e outro na direita”. Psicoterapeuta – “Então porque diz que está só?” Paciente – “Eles estão amuados, não falam um com o outro, só se comunicam através de mim” (conectar com as crianças que fazem perrices, para chamar a atenção). Paciente – “Sinto-me como uma estátua num jardim.” Psicoterapeuta – “E que mais?” Paciente – “Não tenho pés.” As crianças sem o amor dos pais, sentem-se sem base de sustentação. Amor é luz que irradia sobre as pessoas.

2º - Caso de paralisia aos 2 anos.

Pai – “Aproveita o colo da tua mãe, que já dura pouco. Já vem outro a caminho, que não sabe andar.” Paciente – “Então, se eu não caminhar, a mãe vai ter que andar comigo ao colo…”

3º - Paciente com crises de pânico havia alguns anos

A.T., 23 anos, estudante universitária tinha perdido o pai, piloto aviador, quando ela tinha cerca de 3 anos. Dois irmãos mais velhos, embora com pouca diferença de idades. Desde os 18 anos que tinha crises de pânico e andava em tratamento psiquiátrico sem grandes resultados. Depois de algumas sessões de relaxamento neuro-muscular tentando por diversas técnicas avivar a memória inconsciente, A.T. disse que tinha a sensação que as suas crises estavam ligadas a rejeição e o número 1 fazia-se sentir-se incómoda. Novamente usando uma técnica de ADI, A.T. diz que visualiza a mãe, grávida dela de sete meses.

- “A minha mãe está sentada na borda da cama, tem roupinhas de bebé espalhadas. O meu pai acaba de entrar e ela mostra-lhe um casaquinho. Ele não disse nada e saiu, batendo com a porta. A minha mãe está a chorar…” Nesta altura a paciente abre os olhos e diz que não quer continuar. Sente-se agitada e pede explicações sobre a cena que visualizou. Foi-lhe dito que a contasse à mãe.

Voltou no dia seguinte acompanhada da mãe que se mostrava surpreendida, pois nunca tinha contado à filha aquela cena. E contou que quando se sentiu grávida e comunicou ao marido, este reagiu mal, pois já tinham dois filhos, o último com pouco mais de um ano. Tudo isto aconteceu no primeiro mês de gestação e justamente A.T. sentia que os seus problemas estavam relacionados com rejeição e o número 1. No entanto, quando A.T. nasceu, o pai ficou muito feliz, pois desejava uma menina e cuidava muito dela, já que o irmão imediatamente a seguir adoeceu e a mãe dedicava-lhe mais atenção (rejeição!). Quando a menina tinha cerca de 3 anos, o pai faleceu e A.T. não entendeu muito bem esta súbita ausência (rejeição!).

Aos 16 anos, arranjou um namorado que algum tempo depois, sem coragem para terminar o relacionamento, fez tudo para que fosse ela a terminar (rejeição!). O mesmo voltou a acontecer dois anos mais tarde com novo namorado e A.T. começou a ter a síndrome do pânico cada vez que, consciente ou inconscientemente se sentia rejeitada.

Nestes e noutros casos, a causa dos problemas estava bem situada nesta vida. Através de técnicas diversas foi possível ao psicoterapeuta chegar ao momento do trauma e ressignificá-lo.

BIBLIOGRAFIA:

MORAES, Renate Jost - As Chaves do Inconsciente, ed. AGIR, Rio de Janeiro 1995

- O Inconsciente sem Fronteiras, ed. Santuário, Aparecida 1995 QUEVEDO, Óscar G- - A Face Oculta da Mente, ed. APPACDM, Braga 1996

HELLINGER, Bert - A Simetria Oculta do Amor, ed. Cultrix, São Paulo 1998

ANDREAS, Connirae e Tâmara - Transformação Essencial, ed. Summus, São Paulo 1996

BANDLER, Richard e GRINDER, John - Atravessando – Passagens em Psicoterapia, ed. Summus, São Paulo 1991 BANDLER, Richard e GRINDER, John - Sapos em Príncipes, ed. Summus, São Paulo 1990

JUNG, Carl Gustav - Sincronicidade, ed. Vozes, Petrópolis 1984

FRANKL, Viktor - A psicoterapia na prática, ed. EPU, São Paulo, 1976

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