Uma coisa é certa: nossos amigos são sempre cheios de defeitos. Passamos horas inteiras falando disso, sabemos exatamente onde estão errados. Por outro lado, nos seduzimos facilmente com o recém-chegado: só tem virtudes, toma as decisões certas e parece nos ensinar muita coisa.
Isso é uma armadilha. Na verdade, por conhecermos bem nosso amigo, o usamos para projetar nossos próprios defeitos. O julgamos com uma severidade que devíamos usar para nós mesmos. Nos acostumamos com a imagem que fazemos dele e terminamos fechados para o incrível universo que uma amizade oferece.
Respeite seus amigos. Ele são a maior bênção que o mundo pode dar. São eles que nos educam na prática de algo muito importante: a lealdade.
Muhammad ib Suqah conta a história de Abdulah e Mansur, dois fiéis muçulmanos. Certo dia, Abdulah pediu ajuda ao amigo.
O tempo foi passando, e nenhuma ajuda foi dada. Um dia, Mansur perguntou:
"Meu irmão, você me pediu ajuda, e eu não fiz nada. No entanto, você parece não ter se irritado com isto."
"Temos uma longa amizade. Aprendi a amar-te antes de precisar de um favor", disse Abdulah. "E consigo continuar te amando, não importa se tu me atendes ou não".
E Mansur respondeu: "Eu não fiz o que pediste porque queria saber a força de teu desejo. Vi que esta força é maior do que a discórdia; amanhã você terá o que pediu".
Um amigo meu, Bruno Saint-Cast, trabalha na implantação de alta tecnologia na Europa. Certa noite, sentiu-se forçado a escrever um texto sobre um velho amigo de adolescência, que havia encontrado no Taiti.
Mesmo sabendo que teria que acordar cedo no dia seguinte, sentou-se ao computador às oito horas da noite e só conseguiu sair às três da manhã -depois de haver escrito a história onde o tal amigo, John Salmon, fazia uma viagem da Patagônia à Austrália.
Enquanto escrevia, sentia uma sensação de liberdade, como se a inspiração brotasse.
Na manhã seguinte, recebeu um telefonema de sua mãe: ela acabava de saber que John Salmon havia morrido.
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