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moon_river's crib
Tuesday, 17 February 2004
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CAPÍTULO XXIII





RITA PARKER









Chovia torrencialmente naquela noite escura. As pesadas gotas cristalinas embatiam com toda a sua ferocidade sobre as frágeis folhas outonais, cujo amarelo se derretia sobre o verde outrora primaveril. Pertenciam a altas e fartas árvores que guardavam a entrada do enorme portão de ferro descascado . A ferrugem o degradava com o embalar das estações. Um muro alto protegia o interior repleto de ervas daninhas e folhas secas espalhadas sobre o terreno molhado. O jardim era vasto. Possuía vários hectares a perder de vista sobre a planície seca e horizontal.
Finalmente a carroça que transportava os cinco passageiros parou mesmo em frente ao velho casarão da herdade. O seu aspecto abandonado e fantasmagórico assustou a frágil Mary e paralisou os restantes. Até Sahab sempre brincalhão se escondeu por detrás da farta cabeleira da sua dona e o fitou fixa e receosamente com os grandes e redondos olhos castanhos.
- Hugh ! - exlamou a ex-noviça de respiração suspensa, quebrando-a apenas com o aconchego dos seus braços que a acolheram na descida pelas traseiras do transporte.
-Tens a certeza de que é o lugar certo, minha filha ? - perguntou Oscar a Mary, enquanto observava a enorme casa de cor acinzentada e de telhado apodrecido e sem luminosidade de qualquer espécie naquela noite fria e chuvosa.
-De qualquer maneira sempre é um abrigo . - alertou Aida com sensatez.
Dirigindo-se apressadamente para o portão que rangia ao sabor do vento, virou-se para trás e fez sinal com a mão para que a seguissem. Estava aberto . A tranca se quebrara.
A pressão da chuva espancava as escadas do velho alpendre de madeira apodrecida.
Oscar que vinha atrás de Mary e Hugh que abraçados subiam com cautela, escorregou nas mesmas e caiu sobre joelho doente para se amparar da queda. Um gemido alertou o jardineiro que logo se lançou em seu socorro.
-Tenha mais cuidado . Ainda fica para trás. - censurou o rapaz visivelmente preocupado com o estado de saúde precário do velho mendigo.
- Não te preocupes rapaz. O meu corpo esconde a verdadeira idade do meu espírito. - retorquiu, diminuindo a gravidade da situação. - Eu estou bem, podes-me largar. - resmungou, apoiando-se novamente na velha bengala de madeira, aborrecido por este o fazer sentir como um empecilho.
Aida e Mary os aguardavam em frente da porta coberta de um seco branco lamacento.
Gotas de água escorriam pelos seus cabelos em direcção ás tábuas molhadas. Estavam todos completamente ensopados e a tremelicar de frio, aguardando um sinal de vida do interior da mansão e que lhes pode-se dar abrigo e aconchego.
-Estás preparada ? - perguntou a orfã, olhando para a amiga com receio do que pudesse vir a acontecer caso ninguém morasse mais naquela velha casa.
Esta anuiu de queixo a tremelicar e olhou para o seu amado que lhe beijou a testa com carinho. Respirando fundo, abraçou-o com toda a força que tinha e aguardou por uma resposta aos pesados e apressados toques na porta.
Um longo silêncio antecedeu a aparição de uma figura espectral, cujo rosto cadavérico se entreviu por detrás das rendadas cortinas salpicadas de pó, da janela junto da porta.
Uma tímida luz amarelada, denunciou a sua presença. Aida encostou o nariz na janela embaciada para poder ver melhor o rosto da senhora já de idade avançada que a observava com olhar de cativa. A sua pele enrugada e amarelada, contrastava com o bege que cercava os seus olhos da cor do carvão.
-Boa noite, queríamos falar com a dona da casa . - pediu a jovem, em voz alta para que esta a pudesse escutar através dos trovões que raiavam o céu de azul claro.
Esta ergueu e retorceu o sobrolho com desconfiança e desapareceu por detrás da cortina tão suave e invisivelmente como havia surgido anteriormente.
-Quem era ? - perguntou Hugh, com uma molhada ruga de preocupação por entre os olhos esverdeados.
-Eu acho que era a tua avó, Mary . - anunciou com satisfação.
A amiga esboçou um tímido e nervoso sorriso, interrompido por um forte miar vindo da porta que se entreabria.
Subitamente ferozes latidos e rosnares abafaram a chuva . Um temível rottweiler de pêlo curto e negro os ameaçava da soleira da porta. Os seus dentes afiados reflectiam o tom avermelhado dos seus olhos de mutante. Pelos cantos da boca, viscosos fios de baba pingavam sobre o soalho tal era a sua raiva para com os intrusos.
O único obstáculo á sua intenção assassina, era a metálica e sólida corrente que o prendia pelo pescoço e que se encontrava fragilmente enrolada em redor do esquelético pulso da velha que esteve na janela.
-O que querem daqui ? Olhem que chamo a guarda seus ciganos invasores ! - ameaçou a mesma com ar irascível e destemido. O seu olhar os trespassava, enquanto lhes mirava os trajes da etnia que mais temia de cima a abaixo.
Amedrontados se entreolhavam, incrédulos com a situação.
-Nada tem a temer minha senhora. Nós não somos ciganos . Não lhe vamos fazer mal de modo algum. - arriscou Hugh, dando alguns passos em frente.
Porém o avançar do cão incentivado pela dona o abrandou e o fez recuar para junto dos seus companheiros.
-Não se atreva ! - avisou ela, parecendo ir soltar o seu cão a qualquer instante. - Fora da minha propriedade, já disse !
-Tenha calma . - interveio Aida com as mãos estendidas para o animal, tentando acalmá-lo sem resultado porém. O bicho não desistia do seu intento de lhes fazer mal. - Viemos á procura da senhora Parker...Rita Parker.
-Como é que sabe o meu nome ? - interrogou a velhota, com ar desconfiado. - Já sei...vieram da parte do juiz Coller ! Pois podem dizer a esse velho demente que as minhas terras não têm preço ! - retorquiu por entre um ranger de dentes.
-Não conheço tal homem, asseguro-lhe. - afirmou a orfã, olhando para Mary, que nesse instante se aproxima da soleira.
Os olhos de Rita Parker se contorceram num carregado esgar ao visualizar o rosto da jovem como que se a reconhecesse de algum lado.
-São meus amigos e vieram comigo á sua procura, avó . - revelou, engolindo em seco ao terminar a frase.
-Mas...será possível ? Com mil demónios ! E não é que o destino te trocou as voltas, meu velho ... - reflectiu, boquiaberta.
Ao momento de estupefacção seguiu-se uma alegre e acolhedora recepção. A velha de cabelos grisalhos presos num redemoinho sobre a cabeça, mandou o cão serenar com um simples gesto com a mão e os convidou a entrar. O animal resignado, foi-se deitar para junto da lareira da sala que ficava mesma á entrada, sobre um tapete felpudo. O seu lânguido olhar domesticado mas indomável, seguia o receoso macaquinho que empoleirado sobre o ombro de Aida, cobria os olhos com uma larga mecha dos seus cabelos como protecção.
-Entrem...entrem ! Estão todos ensopados. Venham para junto da lareira para se secarem. - convidou, completamente transfigurada. A doçura se havia sobressaído na sua personalidade e a acompanhava no olhar e nos gestos.
-Minha Mary !- exclamou, enquanto a abraçava com saudosismo . - Pensava que o velho teimoso te havia levado para todo o sempre . - desabafou, agarrando-lhe na cara com ambas as mãos ossudas, cujas unhas amareladas pareciam estar tão descascadas como lascas num pedaço de madeira.
Oscar sentara-se numa das duas poltronas cobertas por lençóis brancos, que rodeavam a mesa central adornada por um velho candelabro sem brilho e cerrando os olhos, sucumbiu ao cansaço.
Preocupada Aida foi-lhe remover as sandálias molhadas, enquanto que Hugh remexia a madeira da lareira para atiçar as chamas, já fracas com a ventania que provinha de algures da casa de três pisos.
-Nunca pensei que algum dia pudesse ver o seu rosto. - disse-lhe Mary, com a voz embargada e os olhos encharcados de emoção. - E a casa... - afirmou num suspiro profundo .
Os seus olhos amendoados percorreram os sofás cobertos por lençóis como se meros fantasmas habitassem aquela casa desde sempre. Passaram pelas inúmeras janelas altas e tapadas por velhas cortinas, detiveram-se nas lamparinas de gás nos cantos da larga sala, e foram mergulhar nas avermelhadas e crepitantes chamas da lareira. Porém, foram as inúmeras molduras dispostas sobre a lareira que lhe captaram a atenção.
-É a tua casa minha neta. Pedi tanto a Deus para que te libertasse do compromisso assumido pelo teu avô. - confidenciou a velhota, com um ar de extrema felicidade.
A jovem aborta nas imagens de pessoas familiares, deslocou-se até junto de Hugh e embalada pelo seu abraço reconfortante, observou a fotografia do seu avô que sentado sobre um tronco do jardim, sorria ao colocar o boné na cabeça.
-É tão estranho ... - murmurou Mary. Pequenas lágrimas de tristeza vazaram-lhe a alma e ameaçavam tombar pelas faces gélidas. Um lenço chegou-lhe ás mãos para onde as pôde lançar.
-Bons tempos. - soltou a velhota, que entretanto se aproximara. Havia colocado uns óculos de aro negro e fixava o rosto a preto e branco do homem que aparentava estar feliz.
-Gostava tanto de o poder conhecer também. Devia de ser uma pessoa muito boa. - desabafou a ex-noviça.
A sua avó anuiu com a cabeça em concordância e soltou um leve cerrar das pálpebras por detrás das lentes como que se estivesse incomodada com algo.
-Gostava muito que isso acontecesse. Mas infelizmente o meu velho já cá não se encontra. Mas de certeza que o seu espírito está por perto a nos olhar. - retorquiu.
Aida que os olhava do sofá aonde se instalara suspirou. Um lado de si estava triste e sentia uma cruel inveja por não poder voltar a casa, porque já não tinha ninguém para quem voltar .
Mordendo o lábio inferior num tique já habitual, procurou afastar esses sentimentos do seu coração e sim sentir-se feliz sem esperar retorno do destino, pela sua amiga.
Oscar a olhou com carinho e como que lendo os seus pensamentos mais profundos, piscou-lhe o olho.
-Estás triste, meu anjo ? - perguntou-lhe o velhote, mirando-a com preocupação. Os seus olhos azuis claros, espelhavam as agruras dos anos passados pelas ruas das cidades.
A sua barba roçava-lhe já o pescoço de tão grande que estava.
-Eu estou bem . - retorquiu ela, com determinação. Sorrindo-lhe, sentiu que tinha alguém que zelava por si e isso a deixou com uma sensação de conforto e de paz.
Subitamente a velhota removeu os óculos e olhou para os dois hóspedes que lhe retribuíam o mesmo olhar de embaraço.
-Ainda não me apresentaste os teus amigos . - constatou a mesma com interesse.
-Tem toda a razão, perdoem-me, esqueci-me de os apresentar . - retorquiu Mary com timidez.
Oscar e Aida logo se ergueram dos sofás e aproximaram-se para os formais cumprimentos da praxe.
-Esta é a Aida, uma grande amiga que conheci no convento.
-É um prazer conhecê-la . - disse a orfã, pregando logo de seguida um beijo repenicado em cada uma das duas faces.
-O prazer é todo meu, os amigos da minha neta, serão sempre bem vindos nesta casa. - retorquiu Rita Parker, enquanto a olhava com atenção.
-Oscar, amigo da Aida e meu amigo. - avançou Mary, sorrindo para o mendigo que de imediato beijou as costas da mão direita da sua avó que sorriu com agrado, para com o seu gesto tão gentil .
-E este é o meu noivo, Hugh . - revelou com um brilhozinho nos olhos.
Hugh, alinhavou as mechas de cabelo loiro que se haviam pregado sobre a testa molhada e esticou a mão .
A velhota torceu o nariz, após o breve trocar de tactos, mas rapidamente o seu rosto se encheu de alegria.
-Tens de me contar aonde arranjaste um noivo . - brincou ela.
Mary e Aida trocaram sorrisos de cumplicidade e acompanharam a velhota, seguida dos dois companheiros até á longa escadaria que dava acesso ao primeiro piso.
-Pobrezinhos ainda ficam doentes. Vamos até ao quarto de hóspedes. - observou a avó de Mary, enquanto subiam as escadas de madeira apodrecida . Um ensurdecedor e irritante chiar nos degraus os acompanhou até ao longo corredor, coberto de quadros em ambas as paredes. Enquanto subia as escadas, Aida temeu pelas suas vidas caso estas cedessem e desabassem no abismal piso inferior.
-Vem comigo Mary, vou levar-te a um lugar muito especial . Tenho a certeza de que irás gostar imenso. - pediu Rita, separando-a do grupo e conduzindo-a muito apressadamente até a uma pequena porta ao fundo do corredor.
Os três ficaram a olhá-las das entradas dos dois quartos de hóspedes, curiosos acerca dessa misteriosa surpresa.
A pequena porta pintada de branco que aparentava ser fresco, escancarou-se . As duas entraram e Rita Parker a encostou ao de leve. Aida e Hugh entreolharam-se .
-Oh! - murmurou a sua neta, enquanto as suas pupilas devoravam o pequeno quarto, que estava decorado como se de uma verdadeira casa de bonecas se tratasse.
Uma cama de dosel, apinhada de almofadas cor de rosa e lençóis a condizer, encontrava-se ao pé de uma janela alta de cortinas finas e transparentes rosadas, cuja bancada em baixo permitia longas horas de poesia á lua. As paredes eram de um branco puro e o cheiro ainda era fresco tal como a porta, como se lá morasse alguém, mas não, já ninguém dormia lá fazia muito tempo.
-Este é o quarto da tua mãe . - revelou com a voz embargada. Limpou os cantos dos olhos, e afagou os cabelos curtos de Mary.
Esta não conteve o peso que lhe ia no coração e a ansiedade que lhe ia na alma, e soltou algumas lágrimas de pesar.
-É tão lindo ... - disse com tristeza. Encaminhou-se para a penteadeira de espelho oval que se encontrava na parede este. Perfumes de várias tonalidades, uma escova de prata almofadada e uma caixinha de música de madeira com as iniciais do nome da sua mãe pintadas a dourado no topo, captaram-lhe a atenção.
Sentando-se na banquinha fofa e cor de rosa, em frente do móvel, sentiu os cheiros a rosas e a jasmins e por instantes pôde sentir a sua presença .
-A tua mãe era muito vaidosa . Gostava de andar sempre bonita e não lhe faltavam pretendentes . - contou-lhe a velhota, da soleira da porta. O chão de madeira encerado brilhava por debaixo dos seus velhos sapatos rasos de cor negra cuja sola estava já gasta.
-Consigo-a imaginar neste preciso momento . - retorquiu a jovem, enquanto abria a pequena caixinha de música de fundo vermelho aveludado. A bela melodia que dali saiu, evadiu-lhe a alma com uma sensação de tristeza extrema quase que de depressão ao mesmo tempo que uma bela e delicada bailarina rodopiava alegre e incessantemente.
- Nocturne .... - suspirou a sua avó - Foi o teu pai que ofereceu essa caixinha á tua mãe no dia em que ficaram noivos, mesmo antes dele ser chamado para a guerra.- concluiu com pesar. Em passos vagarosos e incisivos dirigiu-se para a mesinha ao pé da cama, aonde uma lamparina iluminava muito fracamente o quarto e removeu uma moldura prateada da gaveta que abrira.
-Ele regressou ? - perguntou Mary com o coração nas mãos.
-Infelizmente pereceu durante o combate. A tua mãe nunca se recuperou. Os médicos arriscaram ter sido essa a causa da sua morte. - revelou - Se ao menos Deus lhe tivesse concedido a alegria de ter visto o teu rosto antes de cerrar os olhos...
A jovem suspirou profundamente e levou as palmas das mãos ao rosto para deter a vertente que jorrava por ele abaixo .
Atenta Rita Parker voltou a referir-se ao anel de noivado, enquanto que deslizava a moldura com a fotografia a preto e branco da sua mãe para as suas mãos geladas, com o frio que penetrava pela janela de vidro alta, parcialmente aberta.
-É um anel muito belo . - constatou a velhota, observando o ouro que resplandecia através da retina de seus olhos cerrados. - O vosso noivo não me parece ser um homem de muitas posses. Foi ele quem vos ofereceu ?
-Não. Foi Aida quem mo concedeu. Era um antigo anel de noivado seu.
-É muito tua amiga . - constatou.
-Somos como irmãs. Devo-lhe muito . - retorquiu, mas já em voz sumida e desinteressada . A sua atenção prendera-se no belo rosto de sua mãe.
O seu rosto se iluminava num sorriso para a foto e os seus olhos negros eram ainda mais belos que os seus.
Mary sorriu.
-São muito parecidas as minhas meninas . - afirmou a sua avó com orgulho.
-Posso guardá-la comigo ? - perguntou Mary timidamente, enquanto que mantinha a moldura colada ao peito.
-Claro, eu faço questão, mas coloca-a aqui em cima da mesinha ao pé da cama que fica melhor instalada. - pediu a velhota, pegando nela e ajeitando-a sobre a toalha de renda.
-Estou tão feliz. Parece que finalmente Deus fez as pazes comigo e mandou os anjos te trazerem de volta. Temos tanto que conversar, quero que me contes tudo, não me escondas nada, está bem ? - pediu ela eufórica, dirigindo-se a largos passos em direcção ao largo armário pintado de branco ao fundo .
Assim que rodou a pequena chave de cobre que o selava, este se escancarou e vários vestidos coloridos surgiram de imediato.
A antiga noviça sentou-se sobre a cama feita e a ficou a observar, enquanto que a mesma esticava o esquelético braço a custo, em direcção ás gavetas no cimo. Dali retirou uma toalha branca e uma camisa de noite leve e rosada, com folhos frisados na gola quadrada.
-Pronto.- suspirou, antes de lhe entregar . - Aqui está uma toalha para te secares e a camisa de noite preferida da tua mãe. - contou para euforia da jovem que delirava com tantas descobertas. - Vou ver como estão os teus amigos.
-Espere ! - exclamou Mary, correndo até á porta. - Eu vou consigo. Vou pedir para que venham ver .
-Minha filha . - disse-lhe a sua avó, assumindo um ar mais sério e pesado, distante do ar dócil e alegre de antes. - Não acho conveniente que chames o teu noivo para vir para o teu quarto . Entendes o que te digo, não entendes ? - perguntou, em tom paternalista.
-Acho que sim ... - retorquiu a jovem um pouco embaraçada.
-Pelo menos, enquanto não estiverem casados.
-Eu compreendo avó .
A velhota sorriu com a resposta obtida e beijou-lhe a face direita com meiguice.
-Mas...posso pedir a Aida para que venha dormir no meu quarto ? - perguntou antes que esta fechasse a porta.
-Claro ! Tens o meu consentimento . - retorquiu - Temos tanto que conversar. - insistiu com a alegria a cintilar em seus olhos, antecedidos por profundas covas acastanhadas.
-Estou ansiosa para lhe contar tudo, avó . - retorquiu a jovem, partilhando da sua felicidade. - Principalmente sobre a Aida, ela é uma pessoa fascinante .
Rita Parker sorriu com os seus dentes espaçados e podres de tão negligenciados que estavam . Ao fundo Aida as aguardava encostada á porta do seu quarto, de braços cruzados e de olhar perdido algures. Sahab fazia-lhe companhia, escondendo-se por detrás dos seus fartos cabelos soltos, assim que avistou a figura algo fantasmagórica da dona do casarão.
-Vem comigo Aida. - chamou Mary, pegando-lhe na mão e guiando-a até ao seu quarto.
-Senhora Parker ! - chamou Hugh, que saíra do seu quarto nesse momento, acompanhado do incansável Oscar.
-Tem mais camisas da noite, na prateleira superior do armário . - avisou, a velhota para as duas amigas que acenaram-lhe da porta .
-Precisamos de abrigar o nosso cavalo que ficou lá fora. O tempo parece que irá piorar novamente e o bicho poderá adoecer. - informou o mendigo, que limpava a barba molhada com ambas as mãos.
-Façam o favor de me acompanhar. - retorquiu ela, guiando-os pelo corredor afora.- Poderão abrigá-lo no meu celeiro, que fica aqui pertinho. É só seguirem-me até ás traseiras. Não se assustem com o Black, ele geralmente é mansinho quando se habitua á presença de estranhos.
-De quem é que ela está a falar ? - segredou Oscar para Hugh, antes de saírem pela porta da cozinha .
-Vejo que a chuva lhe fez mal, meu amigo . Então, fala daquele monstro que quase nos matou assim que chegámos aqui . - respondeu ele, mesmo antes de se depararem com o animal que assim que os avistou começou a rosnar novamente.
Estes recuaram para o interior de azulejos gastos da cozinha. Porém Rita Parker os descansou, ao apontar para a trela de aço que estava presa á casota pintada de vermelho.
Esta abriu uma pequena cancela de ferro, que deitava para o vasto descampado da fazenda.
-Sigam por este carreiro que irá dar até á rua e venham ter ao celeiro ali diante. - gritou a velhota, para se fazer ouvir através dos trovões que ecoavam no céu pintado de negro.
Assim que passaram pelo cão feroz, este ergueu-se e começou a pular no intuito de se soltar para os atacar . Sem perderem tempo, correram pelo caminho de terra que rodeava o muro da casa até á carroça que ficara parada defronte do portão. Guiando o cavalo pela grama seca, foram ter com a velhota minutos depois. Esta preparava o feno para o cavalo com um ancinho. Ali no velho celeiro, depararam-se com vários cavalos de raça lusitana que os fitaram curiosos.
-Obrigada, senhora Parker. Não será por muito tempo, não queremos incomodar . - disse-lhe Hugh, assim que fechou a porta de madeira do quartinho aonde o cavalo se instalara.
-Não é incomodo nenhum. O cavalo pode ficar aí o tempo que quiserem. São meus convidados...disponham . - retorquiu a velhota, enquanto afagava o braço do jardineiro, com uma simpatia atroz, para desconfiança do jovem.
-Nunca pensei que fosse um poço de simpatia . - comentou Hugh, assim que a velhota os deixou, afirmando estar muito cansada.
-Nem eu meu jovem, nem eu . - concordou o mendigo ainda com a imagem da baba do cão e do seu rosto implacável na memória.
Enquanto isso, do outro lado da enorme e assustadora mansão, alguém fechava o trinco de uma janela situada no segundo piso, da parte da frente da dita cuja. As cortinas brancas e desbotadas foram corridas ás pressas e as luzes das velas brancas repletas de cera liquida, que estavam espalhadas pelo quarto todo, foram apagadas de um só sopro.
Apenas a pequena vela sobre a mesinha junto á enorme cama de dosel foi mantida acesa para uma sessão de troca de ideias e sentimentos. A antiga noviça ajoelhou-se e rezou um breve terço antes de se ir deitar .
-Ainda penso que estou a sonhar e tenho receio de acordar e descobrir que nunca estive cá . - desabafou Mary, que se atirou sobre a cama tão levemente quanto uma pluma pode ser . De braços dobrados sobre a cabeça, ajeitou-se sobre o colchão e observou a amiga que acabara de vestir a camisa de noite. Esta era rosa e tinha pequenas rosas vermelhas bordadas por toda a parte. A gola era estreita e parecia asfixiar Aida que a tentava puxar para baixo.
-Tivemos muita sorte em escapar-nos do furioso cão da tua avó . - gozou a orfã, enfiando-se rapidamente por debaixo dos lençóis antes que o frio a congelasse.
Lá fora a chuva batia incessantemente sobre as vidraças embaciadas, antes de deslizar para os canteiros secos do jardim .
Mary riu-se e virou-se de lado para poder dialogar melhor.
-Tive receio de não a encontrar viva . - confessou a jovem de cabelos curtos.
-Parece-me ser uma senhora muito simpática, tens a quem sair . - retorquiu a amiga, alinhando os cabelos longos sobre os ombros.
-Estás a ver aquela foto ali ? - perguntou a ex noviça, apontando de imediato para a moldura com a foto da sua mãe, junto do castiçal com a vela trémula.
-É a tua mãe ? - perguntou Aida, como que adivinhando. Mary acenou afirmativamente com a cabeça. -Parece estar muito feliz na foto .
-Eu pressinto que ela foi muito feliz cá, nesta casa e neste quarto. Parece que estou junto dela sem no entanto a poder ver e sentir. - suspirou, voltando a deitar-se de barriga para o ar.
-Sei como te sentes . - retorquiu a orfã com pesar.
-Estás triste Aida ? - perguntou a amiga, pressentindo o seu mal estar.
-Não Mary estou só cansada . - respondeu, cerrando os olhos que se haviam pregado ao tecto, muito a o de leve.
-Estás a pensar nele ? - questionou, sem no entanto obter uma resposta. Pegando na mão da companheira, observou o anel cuja caveira a parecia devolver o mesmo olhar de desconfiança. Aida abriu os olhos novamente e o fixou também .
- Pressinto que este anel me traz uma mensagem .- contou a orfã, fazendo deslizar o indicador sobre o vidro verde dos olhos espectrais.
-Não sei porquê mas eu também... não é Sahab ? - perguntou Mary ao macaquito que já dormitava aos pés da cama . A sua respiração mantinha-se ritmada e inquebrável .
-Shiuuu não o acordes . - pediu a jovem de olhos cor de mel, também ensonada .
-Estou tão excitada que nem consigo fechar os olhos. Quero que amanheça bem depressa ! - disse a jovem com um sorriso de alegria .
-Já tenho saudades daquela rapariga que encontrei ajoelhada sobre os grãos de milho lá do convento . - zombou Aida, virando-se de costas para si.
-Aida ! - exclamou, estupefacta.
-Estou a brincar tontinha. Gosto de ti assim, toda espevitada mas é melhor dormirmos para amanhã acordamos bem cedo para conhecermos melhor a herdade. - aconselhou a orfã.
-Está bem . Mas só me apetece cantar e dançar ! - exclamou, lançando um novo suspiro de emoção.
-Se continuas assim eu e o Sahab vamos embora . - retorquiu, com o sono como rezingão. - Por falar nisso... não chamaste o Hugh para vir ter contigo ? - continuou, esboçando um sorriso escondido.
-Não é conveniente, a minha avó aconselhou a que nos casássemos primeiro. - contou, um bocado aborrecida.
-Isto é pior que o convento . Se a tua avó soubesse que já não es virgem ... - brincou Aida, soltando um risinho miudinho .
-Aida nem todos tem a tua mentalidade aberta ! Não quero desrespeitar a minha avó. Acabei de a conhecer e não quero criar atritos com ela. - respondeu, ainda aborrecida.
-Tens razão, em Roma sê romano . - retorquiu a orfã, apagando a vela com um longo sopro.
-Mas custa-me muito saber que ele está tão perto e tão longe ao mesmo tempo. - desabafou, cerrando os olhos resignada.
-A mim também ... - murmurou a amiga, com o olhar preso no rosto mascarado de Pedro através da escuridão do quarto .
-O que disseste Aida ? - perguntou Mary, em sussurro.
-Que espero não ter nenhum pesadelo esta noite . - respondeu, ao desviar a sua atenção para os olhos da caveira que brilhavam cada vez mais intensamente através do negro escuro.
-Dorme bem e sonha com o anjo que ele te protege. - brincou Mary o que lhe valeu uma valente cotovelada no braço .
-Seria um pesadelo de longe pior do que aquele que já tive. - resmungou a orfã aborrecida.
-Bons sonhos. Adoro-te muito .
- Eu também . - murmurou Mary, antes de adormecer profundamente.
Passaram-se algumas horas. A chuva continuou a sua teimosa melodia e o frio que provinha do exterior da habitação, penetrava por cada fenda da mesma, até aos pés enregelados das duas jovens que dormiam profundamente. Até Sahab tinha o seu farto pelo escuro, espetado no ar e tremelicava de vez em quando, até que subitamente reabre os seus arregalados olhos amendoados. As suas pupilas dilataram-se e através do seu espelho reflectia algo. A estranha luz verde voltara a atacar. Todo o tecto do quarto se inundara com a intensa cor que provinha do enigmático anel de caveira.
A profecia de Aida se cumpria, pois ao mesmo tempo que o tal estranho fenómeno ocorria, esta agitava-se sob o cobertor da cama. Leves gemidos e marcas de sofrimento no rosto, mostravam que sonhava com algo de terrível.
Assustado o rebelde macaquinho aproximou-se da sua dona que começava a suar através das têmporas.
-Não ! - murmurava com a respiração entrecortada - É muito alto... não consigo saltar . - continuou, á medida que pela sua mente, várias imagens passavam como que em slide.
O local era o mesmo. Encontrava-se na beira da mesma falésia com que já sonhara tempos atrás, e o seu avô a chamava do outro lado . De braços esticados a incentivava a continuar . O seu rosto sereno a reconfortava, porém o vazio da provável queda a petrificava.
-O anel é a chave, usa-o . - dizia-lhe vezes e vezes sem conta. Até que de repente como que um fantasma, eis que surge uma figura mascarada vinda de sua trás.
Era Pedro quem ladeava o seu avô agora.
-Vem, meu amor. - chamou. Os seus olhos azuis espelhavam confiança.
Á medida que escutava o som da sua voz, mais longe este parecia e maior a falésia se tornava por debaixo do seus pés.
No mundo da realidade, era reconfortada pelo seu pequeno animal de estimação que se colara ao seu peito num abraço.
O seu coração batia cada vez mais depressa, até que um bando de morcegos que escondeu os dois intervenientes do outro lado, a acordou.
Ofegante, ergeu-se e colou-se ao encosto de madeira da cama. Limpou o suor do rosto pálido e observou o anel que brilhava no seu dedo anelar. Um pequeno rastro de luz verde ainda era sugada pelos seus olhos vivos até desaparecer completamente .
Respirou fundo e olhou para o lado. Mary ainda dormia .
-O que se passa comigo ? - interrogou-se com os olhos arregalados de pânico.
Mordendo o lábio inferior, abraçou o pequenito Sahab que se aninhou no seu colo.
Foi então que decidiu retirar o anel do seu dedo. Algo hesitante, deu o puxão final que lhe livrou do seu fardo e colocou-o no interior da gaveta da mesinha ao lado da cama.
-Pronto. Agora já não me incomodas mais. - murmurou convicta. - Um dia descobrirei o teu segredo. Prometo-te avô, por ti e por mim.
E dizendo isto, cerrou os olhos novamente para voltar a um tranquilo sono profundo que se abateu sobre si, algum tempo depois.








































CAPÍTULO XXIV





O TÚMULO DE ROBERT PARKER








Em breve, uma luz solar intensa e esmagadora lhe pressionava o rosto fatigado.
-Toca a acordar dorminhoca ! - dizia-lhe Mary, muito entusiasmada, á medida que ia abrindo as cortinas do pequeno quarto.
-Vais sair ? - perguntou Aida, ao vê-la de roupa nova e de chapéu na cabeça. O traje era muito elegante de cor rosada e justo ao peito e cintura, combinando com o chapéu de pequenas flores campestres.
-Acabei de chegar. - retorquiu a amiga, sorrindo-lhe de faces coradas . Toda ela transbordava energia e felicidade.
Sem mais demoras, chamou Sahab que pulou para o seu ombro e destapou a amiga que rezingona ia protestando.
-Tem calma, que já me vou levantar. - protestou a orfã, enquanto se erguia . Ensonada, esticou os braços sobre a cabeça despenteada e bocejou lentamente. - Que horas são ?
-Já é de tarde, eu vou descer agora. Vem ter comigo lá em baixo para nos ajudares a preparar o almoço. - informou, após colocar um vestido branco que tirara do guarda- fatos sobre a cama .
-Aonde foste tão cedo ? - perguntou, sentando-se na cama e alisando os longos cabelos com os longos dedos.
-Fui com a minha avô e o Hugh á cidade . Fomos fazer as compras. - respondeu, dirigindo-se ao toucador e emprestando-lhe o pente almofadado.
Aida sorriu-lhe com agrado.
-E o que será esse manjar dos deuses ? - interrogou-se a orfã muito contente por finalmente poderem dispor de uma refeição decente.
-O prato principal será galinha assada. - respondeu-lhe, enquanto desatava o laço do chapéu para o ir colocar sobre a mesa do toucador.
-Hum... até já sinto o cheirinho . - retorquiu Aida, sentindo o denunciar do seu estômago vazio que roncava cada vez mais alto .
-Só tem um senão e estou com medo . - contou Mary com cara de sofrimento.
-O que se passa ? - perguntou intrigada.
-A galinha ainda está viva . - rematou a amiga, com pena .
A nova iorquina desatou-se a rir. Sem mais demoras deslizou a camisa de noite pelos braços e vestiu o longo vestido liso e com pormenores rendados, desde a cintura até ao decote quadrado, através do qual os seios transbordavam de tão justo que lhe ficara o traje. Uns sapatos de salto raso, também eles justos que fora buscar ao armário aberto completaram a nova indumentária . Para o lixo foram os velhos vestidos ciganos que a avô de Mary fez questão de queimar, segundo lhe contou a mesma, alguns minutos depois assim que as encontrou na cozinha do casarão .
Esta ficava situada nas traseiras . Era ampla e disponha de vários balcões de madeira, um fogão a lenha, e uma mesa também ela ampla, cercada de quatro cadeiras.
O ruído dos saltos, ecoava pelo piso barulhento, á medida que era efectuada uma perseguição infernal á galinha fugitiva.
Esta aflita piava, e batia as asas, enquanto escapulia da obstinada velha de rosto avermelhado que a perseguia de machado numa das mãos esqueléticas.
-Por ali Mary ! - avisou esta á jovem que de mãos trémulas apanhava o bicho em pânico que passava por diante dos seus pés.
-Coloca-a aqui em cima da mesa, minha filha. - pediu Rita Parker, enquanto sorria de alívio por ver o seu repasto assegurado. -Apanhei-te minha diaba ! - murmurou para a galinha que sofria de faltas de ar .
-Pega neste avental Aida . - disse-lhe a amiga que também vestira um .
A orfã assim o fez e sacudindo a longa trança que fizera para trás das costas aproximou-se e apanhou com Sahab que lhe saltara da mesa para o ombro.
-Põe-te quieto, meu diabrete. - ralhou esta. Porém o macaquinho apenas tinhas olhos e olfacto para o galináceo cujo pescoço em risco o atraía.
-Segura-o bem . Não queremos falhar o alvo, não é ? - brincou a velha, já de machado em riste, pronto para golpear o animal que ficara paralizado de medo.
-Não convinha muito não é ? - brincou também Aida para desanuviar o ambiente, pois a palidez no rosto da amiga já a começava a preocupar.
-Eu não consigo ... - suspirou a medrosa jovem, sem no entanto largar o pescoço palpitante.
-Aguenta-te Mary . Não olhes . - sussurrou a orfã ao seu ouvido, incentivando-a a tomar coragem.
Seguindo o seu conselho, a jovem desviou o rosto, mesmo no preciso momento em que o metal golpeava a galinha, cujo sangue vivo salpicara para os aventais de ambas.
Sem um pingo de remorso no olhar, Rita Parker, agarrou no pescoço do animal e o jogou para o caixote do lixo.
-Podem remover as penas, enquanto preparo as batatas ? - perguntou para ambas que concordaram de imediato.
-Nunca pensei um dia vir a passar por isto . - desabafou a ex noviça, ainda nervosa com o assassinato do almoço. - Não te fez impressão ? - perguntou para a amiga, que se sentara na banquinha junto de si e removia já as penas do frio cadáver.
-Eu já estou habituada . Nem te passa pela cabeça, as coisas por que já passei no orfanato. - respondeu, sem no entanto deixar de demonstrar horror pelo sucedido.
-Ainda estou arrepiada. - disse-lhe Mary, antes de se quedar boquiaberta.
O pestinha do Sahab, de colete aberto ao sabor de vento, mergulhara no caixote aonde se encontrava a cabeça da ave e com as suas patinhas vasculhava o interior em busca de um pedaço de carne.
-Sahab ! - exclamou Aida, aflita.
-Deixem estar . - disse-lhes a velhota, com simpatia. - Eu não me importo. Deve de estar cheio de fome, o coitadinho. - afirmou, enquanto descascava as batatas .
Mary torceu o nariz e escondeu a cara, envergonhada com o acto tão astuto e pecaminoso, do macaquinho.
-Vem cá meu traquinas ! - chamou Aida num tom de voz ríspido. Este obedeceu de imediato, não sem no entanto largar o bico da ave, que colocara por entre os dentes. Uma bela refeição o fazia guinchar de satisfação sobre a mesa e sob o olhar reprovador das duas jovens que acabavam de preparar o resto do corpo .
Algum tempo depois já se escutava o tilintar das loiças de porcelana sobre a ampla mesa coberta por uma toalha de renda branca.
Aida e Mary arranjavam a mesa para a ceia que se adivinhava ser farta, ou pelo menos o seu magistral cheiro já atraíra os dois homens da casa que de imediato se sentaram lado a lado junto no centro da sala de jantar.
Amedrontado por tanta agitação estava Oscar, que se pões a observar o enorme e baço candelabro que se encontrava sobre a sua cabeça.
-Agora é que se vai desforrar, meu velho amigo . -brincou Hugh que beliscara o ventre da sua amada que passara por si, carregando a medo a oval travessa de arroz .
-Porta-te Hugh !- disse esta baixinho em jeito de reprimenda.
Rita os olhava com atenção.
Sentara-se na cabeça da mesa, perto da janela aberta da larga sala em abóbada e afiava a faca para trinchar a galinha. Antes viva, agora tostada.
-Está com um aspecto delicioso, senhora Parker . - elogiou o jardineiro, enquanto colocava o guardanapo por dentro da gola da sua camisa velha.
-Eu também concordo. Dou-lhe os meus sinceros parabéns . - disse o mendigo, sem tirar os olhos da comida que inundava a sua boca de água.
-Não me agradeçam apenas a mim. Tive umas ajudantes muito competentes. - respondeu a velhota, com um sorriso nos lábios finos e secos.
As duas amigas por entre risinhos, sentaram-se uma em frente da outra, junto dos seus companheiros .
-Diga-me uma coisa que estou curioso, não tem ninguém que a ajude com as tarefas domésticas ? - perguntou o audaz Hugh, enchendo o seu prato com carnes a vegetais.
-Não tenho. Achei por bem despedir os criados, não me fariam muita falta. Vivo sozinha e uma casa assim não se suja tanto. - retorquiu Rita por entre um pequeno suspiro . - Apenas o caseiro vem cá, uma vez por semana para me tratar dos campos e dos animais. - continuou, limpando as bordas da boca inundadas pela gordura da comida. A falta de dentes frontais era uma falta da idade já avançada.
-Isso é terrível ! A avó deve de se sentir muito sozinha . - exclamou a bondosa Mary de imediato, olhando-a com pena.
-Não te compadeças minha filha, os meus velhos ossos já se acostumaram ao descanso. No entanto não nego de que um grupo de crianças a correr pelos corredores me preencheriam os dias vazios.
-Então pode sossegar senhora Rita, porque acho que isso já está a ser tratado. - interveio Aida, escandalizando todos com a sua perspicaz audácia.
-Aida ! - murmurou a amiga enrubescida por entre dentes, oferecendo-lhe uma pisadela no dedo maior do seu pé.
No entanto a reacção da velhota, foi leve e dotada de uma gargalhada.
-Nem imaginas o quanto me alegra essa notícia . - disse-lhe a avó da ex noviça, enquanto passava a garrafa de vinho para Oscar que se ria também.
-Esta juventude ! - censurou o mendigo .
-Diga-me minha jovem... - disse Rita, interrompendo a amena cavaqueira que se sucedeu ao jantar, na sala de estar enquanto se sentava na cadeira de baloiço.
-Como conheceu a minha neta ?
-No convento minha senhora. - respondeu Aida, que se instalara no meio do casal de namorados no sofá junto da lareira extinguida.
-A Aida foi estagiar . - interrompeu Hugh, fazendo soltar alguns risos baixinhos.
-É mesmo ? - perguntou a velhota confusa . - Também era uma discípula de Deus?
-É uma longa história senhora Parker apenas posso dizer que foi um tempo de reflexão na minha vida. - respondeu, procurando desviar o assunto para não se comprometer.
-A Aida juntou-nos, avó . - informou Mary, beliscando a face da orfã com carinho.
-Se não fosse por esta menina determinada talvez nem estivessemos aqui a falar e a beber café consigo nesta casa . - acrescentou Hugh, enquanto beijava a testa da jovem embaraçada.
-E se não fosse pelo meu anjo ainda estaria a pedir esmolas pelas ruas. - interveio Oscar que dormitava no cadeirão junto do sofá.
-Por favor, parem com isso que me deixam sem palavras . - retorquiu Aida, levando a mão á boca sob o olhar investigador da velhota que levava a sua chávena á boca para sorver mais um bocado de café preto.
-Então também eu lhe estou grata minha jovem . - afirmou ela, com simpatia. - Pode ficar em minha casa o tempo que lhe convier e o seu amigo também. - informou, referindo-se ao velhote que a olhava por entre uns esgares de olhos. - O natal aproxima-se . - acrescentou, dando a entender, querer as suas presenças nesta época .
Os quatro entreolharam-se com embaraço.
Mais tarde desculparam-se perante a senhora do casarão e reuniram-se os quatro no quartinho de Mary no piso superior.
Esta espreitava por entre a porta entreaberta não fosse a sua avó aparecer e ouvir a conversa .
Fora Oscar quem insistira para terem uma reunião e andava de um lado para o outro em círculos, com um ar distante, pensativo e preocupado.
-Temos de falar . Precisamos de partir . - iniciou este.
-Não podemos deixar para amanhã ? Afinal só cá estamos há um dia. - pediu Hugh, que se estendera ao comprido sobre a cama e esfregava a cara .
-O Hugh tem razão . Não podemos deixar a minha avó sozinha numa altura destas, principalmente depois de todo o seu acolhimento para connosco. - disse Mary, respirando fundo e fechando a porta bem devagarinho. - Não achas Aida ? - perguntou para a amiga que sentada em frente do tocador se mirava ao espelho.
Alisando a longa trança ao longo do ventre, concordou e virou-se para o amigo das ruas que parecia ansioso por sair dali.
-Oscar tem calma. Iremos prosseguir com a nossa viagem. Mas tudo tem o seu tempo. A Mary não pode chegar aqui, pedir dinheiro á avó depois deste tempo todo sem a conhecer e depois ir-se embora ! - contestou, procurando chamar-lhe á razão.
-Meu anjo, estamos a adiar o nosso futuro. Se a Mary e o Hugh quiserem ficar aqui eu entendo, mas temos de continuar a nossa viagem. Esta não é a nossa casa. - ripostou, algo irritado.
-Nós não vamos ficar os dois aqui ! - exclamou Mary, escandalizada.
-Estão-se a esquecer de que sem dinheiro não há embarcação que vos leve em busca dessa suposta ilha do mapa. - avisou o rapaz de cabelos loiros.
-Calem-se ! Não digam semelhantes barbaridades. Estamos todos nisto ! Um por todos e todos por um ou já se esqueceram ? - censurou Aida, alteando o volume da sua voz, sem saber que no exterior daquele vestíbulo, Rita Parker os escutava por detrás da porta.
-Oscar ouve-me ... - pediu a orfã saindo da sua banquinha. Dirigindo-se ao amigo, agarrou-o pelos braços e manteve-o imóvel junto de si.
-Não sei porque estás tão nervoso ultimamente, apenas te peço que esperes mais uns dias .
-Não Aida . O Oscar tem razão . - interrompeu, Mary, parecendo ter cedido ao seus pedido. -Não posso continuar a iludir a minha avó. Quanto mais tempo eu ficar mais difícil será para mim deixá-la.
-Tens a certeza Mary ? A gente espera . - perguntou a orfã, mordiscando o lábio inferior.
-Sim, eu já me decidi. Amanhã lhe contarei tudo e pedirei o dinheiro do meu dote que o avó deixou para mim . - concluiu, para espanto dos restantes que nunca a viram tão decidida quanto estava naquele momento. - Só nunca pensei que isto fosse tão difícil . - desabafou com tristeza.
Num momento de silêncio todos se uniram num abraço circular e uniram as mãos no centro, uma sobre a outra, renovando assim o seu pacto de amizade eterna.
Porém no lado de fora, Rita levava a mão ao coração, ofegante. Os seus olhos pareciam explodir de angústia. Deambulando pelo corredor afora, trancou-se no quarto e não saiu mais de lá durante o resto do dia, para estranheza dos seus convidados que resolveram ir conhecer a herdade sob o acompanhamento do velho caseiro de nome Israel que surgira naquela tarde e que aceitou de bom grado ser o guia .
Rita apenas saiu do seu exílio pela madrugada. Ainda o galo da planície não havia cantado com todo o seu esplendor, e já se dirigia de chinelas e de roupão desbotado em direcção ao quarto do fundo, aonde as duas amigas ainda dormiam o sono dos deuses.
Abrindo a porta bem devagarinho, dirigiu-se em pontas dos pés para o lado da cama aonde Mary dormia. Tocando-lhe ao de leve, abanou-a suavemente enquanto a chamava pelo nome, baixinho, junto do seu ouvido.
Atordoada a jovem, entreabriu os grandes olhos negros e a olhou confusa.
Esta levando o dedo á boca fina e gretada, pediu-lhe silêncio e pediu-lhe para que a acompanhasse, pois lhe queria mostrar algo.
A jovem, ergueu-se com cuidado para não acordar Aida nem Sahab que dormia aos pés da sua dona, vestiu o roupão em tons de primavera e seguiu a sua avó pelo corredor até as traseiras da casa.
Lá se deteve perante o feroz rosnar do temível cão da herdade, porém Rita atirou-lhe um osso para o acalmar e este lá se calou dos seus latidos.
-Não queremos acordar os teus amigos. - disse-lhe esta, com um ar de mistério.
Foi com apreensão que Mary a seguiu pela planície de ervas secas e rasas, assim que atravessaram a cancela de ferro velho.
O frio matutino que se fazia sentir a enregelava por dentro e por fora e a suave brisa lhe elevava os curtos cabelos que já lhe cresciam pelas orelhas e pescoço abaixo.
-Estamos quase lá. - anunciou a velhota, que seguia sempre em frente sem se deixar deter pelo tempo impróprio para a sua idade. Parecia ter apenas vinte anos pois se distanciara da sua neta com uma destreza nunca antes vista.
Esta já a iria interpelar sobre o objectivo de tal viagem pelos campos da herdade quando esta lhe fez sinal com a mão para que se apressasse.
Depois disto desapareceu no meio das duas enormes árvores que ladedavam dois altos muros de pedra. Estes pareciam ter sido construídos com algum propósito que não o ornamento.
E para além desses muros, um estreito carreiro de pedra solta se encaminhava na direcção de uma pequena fonte ao fundo.
Assustada e frágil o atravessou com a sensação de estar a inavdir algum lugar sagrado pois não eram raras as vezes que pulava com o murmurar das folhas das árvores que dançavam ao sabor da ondulação dos seus pesados galhos.
-Mary...estou aqui ! - ecoou subitamente uma voz, que a jovem reconheceu como sendo a da sua ascendente.
Apressando o passo, ultrapassou a fonte de águas límpidas e borbulhantes e seguiu para a esquerda, tomando o caminho de terra esbatida, que a levaria até á fonte do eco.
-Pensei que te tinhas perdido. - disse-lhe Rita assim que esta se juntou a si.
-Nunca tinha visto este local antes. Israel o caseiro nos guiou pela herdade, mas não nos havia trazido até cá. - contou Mary, estupefacta, enquanto soltava um largo bocejo e apertava o roupão contra a sua pele para se proteger melhor do orvalho que caía com mais força agora, que eram oito da manhã.
-Nem podias está muito bem resguardado dos olhares alheios e além disso pedi a Israel para que não trouxesse cá ninguém. - replicou a velhota, tomando-lhe a mão contra a sua que estava muito fria e levando-a na direcção de um velho carvalho que habitava o interior daquele quadrado de terra, repleto de ervas secas.
Este altivo e imperial, contrastava com a paisagem que o rodeava de uma maneira muito impressionista.
Aos seus pés uma campa, feita de pedra e cujo nome lapidado se podia ler, « Robert Parker... 1799 - 1861 », o assombrava para toda a eternidade.
Mary se quedou boquiaberta. Levando as mãos á boca, engoliu em seco. Não queria acreditar que se encontrava perante o túmulo do seu falecido avô, « talvez fosse um sonho », soltou .
-Não é nenhum sonho, minha filha. Estás mesmo diante da campa do teu avô, que Deus o tenha. - disse-lhe Rita, com um sorriso de canto a canto da boca.
Pequenas lágrimas de emoção brotejaram e inundaram os seus olhos de água, tão límpida como a da fonte que tonificava aquele lugar tocado pela mão do senhor.
-Oh! - exclamou, deixando-se cair de imediato aos pés da mesma. Os seus joelhos enterravam-se sobre a terra seca, enquanto que os seus dedos delineavam o nome escrito na pedra e a sua dedicatória. -Porque não me havia dito antes...esperei tanto tempo por isto. Nem acreditava na sua morte. - desabafou a jovem, desviando a sua atenção de novo para a velhota que assumindo um ar mais sério e cordial, abanou a cabeça em afirmação de algo que só ela sabia.
-Quis esperar pelo momento certo, minha Mary. - replicou, ajeitando o xaile negro que pendia sobre os seus ombros magros.
-Pelo momento certo ? - interrogou-se a jovem, que se benzeu antes de se erguer novamente.
-Sim . - respondeu com uma certa hesitação - Eu sei de tudo Mary.
-De tudo ?
-Sei que irás partir de novo em breve. - contou, deixando-a desolada.
-Como foi que soube ? - perguntou, antes de lhe pegar na mão trémula.
-Isso agora não importa minha filha. Quaisquer que forem os teus motivos eu entendo. Não te vou obrigar a viver com uma velha rabugenta como eu. - retorquiu com a voz embargada e os olhos aguados. O seu sofrimento interior era visível.
-Não diga isso avó, eu gosto muito de si.
-Mas não podes ficar, não é ? - perguntou Rita ainda esperançada.
Mary suspirou bem fundo. Não podia prometer-lhe isso. A partida era um dado adquirido como mais que certo.
-Eu volto... - prometeu.
Porém o rosto de Rita continuou frio e inexpressivo perante tal promessa.
-Minha Mary, antes de partires quero oferecer-te algo. Foi por isso que te trouxe até junto da campa do Robert. Para que ele também testemunhe a felicidade de tal presente, pois é como se ele estivesse presente tambem. - disse-lhe, desviando a cara para a campa soltando um leve sorriso comprometido e voltando a olhar para si.
-Um presente ? - interrogou a ex noviça, curiosa .
-Permite-me que te ofereça a oficialização da tua união com o teu amado Hugh. - pediu esperançosa.
-Eu...eu... - balbucionou a jovem, sem saber o que dizer.
O choque fora muito grande. Não estava á espera de tal oferenda e por entre um misto de felicidade e de confusão, apenas se abraçou com força á sua avó que lhe retribuiu o gesto e a reconfortou com carinhos múltiplos.
-O que me dizes?- voltou a perguntar Rita, alguns minutos depois, afangando-lhe o rosto pálido para que se acalmasse um pouco .
-É tudo o que mais quero ! - respondeu, por entre um suspiro de felicidade tremenda. - Mas, tenho de lhes contar e de falar com Hugh para ver se aceita!
-Claro! Tens todo o tempo que precisares, minha filha. - replicou a sua avò, cerrando os olhos, enquanto vislumbrava o nome de Robert na campa, que nessa altura pareceu estremecer...mas não ! Fora apenas uma folha seca e amarelada que mergulhara sobre a mesma.
-Vou voltar. - informou a velhota, parecendo sucumbir finalmente aos inconvenientes de tão avançada idade. - Vens comigo para dentro ? - perguntou esta a Mary que voltara para junto do túmulo e rezava agora de mãos coladas uma á outra, a fazer lembrar os seus tempos de convento.
-Não avó. - retorquiu sem se virar para si de tão absorta que estava no seu terço invisível. - Ficarei algum tempo mais. Pedirei a benção ao avô e falarei com ele para que saiba que rezo por ele todas as noites.
-Não sabes o quanto isso me deixa feliz, minha filha. - replicou a sua avó, voltando-lhe costas e desaparecendo por entre os muros daquele local sagrado.
Assim ficou Mary, ajoelhada aos pés do nome inscrito, de rosto cabisbaixo, murmurando palavras levadas pelo vento até ao infinito do céu, daonde o seu ascendente a ouvia com atenção, sem no entanto lhe poder falar de volta os seus anseios e ansiedades.
Assim se passou uma semana de preparativos intensos para o tão esperado casamento que uniria tão apaixonadas almas.
Hugh aceitara de imediato o pedido, perante o testemunho de Aida e de Oscar que compartilharam efusivamente de tanta alegria . Gritos de alegria ecoaram pelos corredores vazios e nem o mendigo se lembrou da partida que apressara.
O mais importante agora era a união daqueles dois amigos, que levavam para a vida.






CAPÍTULO XXV






O CASAMENTO





A cerimónia seria realizada de noitinha, no velho salão e tudo estava a postos, para o grande momento. A mobília fora afastada para que o pequeno altar do padre que iria realizar a união, pudesse ser posto no centro, junto da velha lareira, adornada por um grande vaso de malmequeres.
Este de batina branca imaculada, lia um pequeno livrinho preto, através das grossas lentes dos seus óculos e esperava pacientemente que a noiva decidisse aparecer. Junto de si, estava um Hugh bem nervoso e ansioso. Trajava um belo fato preto de laçarote da mesma cor ao pescoço, o qual estava sempre a alargar como se o fosse sufocar a qualquer momento. De tempos a tempos, a avó de Rita lhe tocava na mão como que para sossegá-lo da sua agonia.
Esta espalhava montes de pétalas de rosas vermelhas pelo chão e pelo largo tapete da mesma cor, que descia desde o pequeno altar do sacerdote, até ao hall de entrada.
-Ela está a demorar muito, meu amigo Oscar. - disse o jardineiro com a voz trémula, para o mendigo que seria o seu padrinho e que o ladeava.
-Não te preocupes meu rapaz, que ela não irá fugir de certeza. - retorquiu, o velhote, muito bem disposto, oferecendo logo de seguida, algumas pancadas de consolo nas suas costas .
O rapaz, respirou fundo e começou a andar de um lado para o outro, enquanto que verificava o relógio que marcava o ponteiro das duas da tarde, sobre a lareira apagada.
Oscar que se trajava de fato preto igualmente, pertencente ao marido de Rita, a quem ela emprestara de bom agrado, não o querendo ver mais naquela aflição, da qual ele já começava também a sentir os efeitos, decidiu subir até ao piso superior para ver os motivos de tal demora das duas raparigas.
Raparigas essas que conversavam alegremente em frente do largo espelho do toucador, sem se preocuparem minimamente com o passar do tempo.
Sahab o macaquinho traquinas as observava empoleirado sobre o armário ao fundo, também ele trajado a rigor com um casaquinho de brilhantes preto, que lhe haviam comprado pra tão especial ocasião, aquando das compras na cidade, ou não fosse ele o menino das alianças.
-Pareces uma fada ! - dizia Mary para Aida que lhe arranjava o cabelo para depois ser colocado o imenso véu branco que estava disposto em cima da cama.
Esta riu-se e fez-lhe uma careta de desagrado através do reflexo do vidro do espelho. A orfã que seria a sua madrinha de casamento, tinha o longo cabelo preso por um gancho de borboletas sobre a cabeça e vestia um longo vestido cor de pêssego justo ao corpo, feito de cetim, adornado por pequenas flores bordadas na região da cintura e peito. Rita Parker lhe havia cedido do armário de indumentárias da sua falecida filha para a cerimónia e havia ficado um pouco justo sobre o espartilho, facto que a incomodava.
-Uma fada sem asas ! - respondeu, levando um dos ganchos com motivos florais brancos á boca, para depois colocá-lo na região lateral do cabelo de Mary. -Sinto-me como se estivesse dentro de uma lata de conservas. - desabafou.
-Não há bela sem sacrifícios. - brincou a ex noviça, ajeitando a cauda do seu longo vestido de noiva de um branco imaculado, cuja cauda ficara presa por debaixo da banquinha .
-Não te mexas que estou a colocar o véu.... - advertiu Aida, enquanto ajeitava o mesmo . -Pronto já está ... - murmurou, afastando-se de seguida para dar espaço á amiga para que esta pudesse vislumbrar o resultado final .
Esta olhou com estranheza para o espelho, e soltou um suspiro de alívio.
-Parece que ainda estou a sonhar. - disse esta, enquanto olhava para a parte detrás do vestido de corte logo e direito, terminado fechado no pescoço .
-Estás tão linda, Mary ! Coloca uma coisa nessa tua cabeçinha, em breve serás a senhora Hugh collins. Tu mereces. - retorquiu, abraçando-a por detrás e colocando o seu queixo sobre o ombro sorriu-lhe com afecto. Porém uma nuvem de tristeza lhe assombrou o olhar cor de mel por instantes. Por fracções de segundos pareceu ver-se a si mesma vestida de branco, pronta para se entregar ao homem da sua vida com que viveria feliz para sempre.
-Queria tanto que cassássemos ao mesmo tempo Aida. - disse Mary de repente surpreendendo a orfã .
Nesse instante escutaram-se dois toques na porta que se entreabriu antes que alguém tivesse tempo de responder. Era Oscar que estava do lado de lá e que espreitou com a sua cabeça encaixada pela abertura da porta.
Quedava-se arregalado e sorridente com a beleza das suas meninas, quando algo o fez despertar e as começou a apressar para que descessem:
- Ou o Padre vai-se embora. - advertiu este, de barba feita e de cabelos brancos todos repuxados para trás, facto que lhe dava um ar completamente rejuvenescido.
-Já vamos. Tem calma Oscar . - retorquiu Aida, olhando para uma mary ainda mais enervada com o aproximar do acontecimento. Sem perder tempo, foi buscar o bouquet de orquídeas brancas para lho dar. Esta as agarrou com as mãos cobertas por compridas luvas de seda branca que iam até meio braço do vestido sem mangas.
-Vai dizer isso ao Hugh, que só falta subir pelas paredes. - disse-lhe o mendigo, resolvendo então entrar no quarto e oferecer-lhes ambos os braços para as acompanhar até ao rés do chão.
Nesse instante Sahab resolveu descer e a sua dona colocou-lhe o cestinho com as duas alianças pertencentes aos pais de Mary ao pescoço para que este as pudesse transportar sã e salvas até ao altar.
De seguida, Aida deixou-o subir para o seu ombro, e tomou o braço de Oscar ajeitou-lhe o laçarote sobre o pescoço. Este piscou o olho a ambas.
-Madames....acompanhem-me . - anunciou em tom afectado e com postura elegante, imitando os senhores da alta sociedade, como tantas vezes gostava de fazer quando dormia nas ruas e estes passavam por si com ar de desdém.
-Com todo o prazer, monsieur . - retorqiu a orfã, tão segura de si, como uma madame das cortes reais.
Mary riu-se das brincadeiras dos seus amigos que a procuravam acalmar, mas por dentro tremia, assustada, sem saber bem o porquê de tal receio.
Lentamente as pétalas de rosa, foram sendo calcadas uma a uma á medida que Oscar conduzia Mary pela passadeira vermelha, directamente ao coração pulante do seu amado que se deslumbrara ao vê-la tão bonita.
Mary acompanhada por Sahab ao ombro, segurava-lhe a longa cauda do vestido, para que não tropeçasse.
Em breve a ex noviça, daria a mão a Hugh que engolia em seco de tão nervoso que estava.
Oscar ficara do seu lado no altar e Rita receberia a Aida que ficaria junto de si, muito atenta ao seu amigo macaquinho não fosse este fugir com as alianças, pois já se apresentava curioso com o brilho das bandejas de comes e bebes, e com o esplêndido bolo de noivos, feito de chantilly e com duas figuras de união no topo, que estavam na larga mesa que havia sido colocada ao fundo da sala, junto da janela para a festa do copo de água, á qual a cerimónia se sucederia.
Seria uma festa pequena e reservada, pois a avó de Mary era uma pessoa muito solitária e não se relacionava com os seus parentes mais distantes. Porém havia convidado o padre, um seu conhecido de longa data e o caseiro Israel para que participassem da festa. Este chegaria mais logo para se juntar ao grupo.
Mary tremia á medida que o padre falava. De vez em quando olhava de soslaio para o seu amado, que lhe retribuia com um suave aperto na sua mão e pequenas gotas de emoção teimavam em cair pelo rosto da frágil moça. Era este o momento pelo qual esperaram a vida toda.
-As alianças por favor. -pediu o padre com toda a calma que lhe era característica.
Aida pediu a Sahab para que entregasse a Mary, porém este mais interessado, noutro assunto que não aquele, não lhe dava importância, apesar desta lhe ralhar com toda a convicção.
-Aida.... - resmungou Mary por entre dentes, ao ver o ar pouco satisfeito da sua avó.
-Tem calma, ele já vai dar . - prometeu, não muito segura do que dizia, mordendo o lábio inferior com toda a força que tinha. - acho .... - pensou .
Naquela altura de longa demora, já o virtuoso pároco se começava a impacientar e batia com os dedos na sua leve bíblia, olhando para Oscar que encolhia os ombros.
Aida estava a retirar o cestinho do seu pescoço, quando este endiabrado resolveu pular para o chão, apercendo ter escutado algo que lhe tivesse captado a atenção.
-Minha filha.... - dizia o padre, quando subitamente foi impedido de acabar a sua frase, levando de imediato a mão á boca com uma expressão de susto.
Rita ficou boquiarta com o que viu, enquanto que Aida levava a mão á boca.
Olhando para Oscar apercebeu-se de que este fazia um esforço para não se desmanchar a rir, enquanto que os noivos se entreolhavam embaraçados com a situação cómica.
O padre havia-se engasgado com a caixinha das alianças e agora completamente avermelhado e agoniado, parecia asfixiar.
Sem perder tempo, Oscar foi em seu auxílio e agarrando-o por detrás, aplicou-lhe um valente puxão na coluna para que cuspisse o pequeno objecto.
-Cuspa senhor padre, ou já não há casamento.
-Não pode engolir os anéis ! - exclamou Mary, assustada. - Ajuda-o Hugh !
O rapaz ainda atordoado com o acidente do macaco, pareceu despertar e foi de imediato auxiliar os dois.
Felizmente que passados alguns minutos a caixinha presa na garganta do agora aliviado homem, se soltara e fora ejaculada para as suas mãos, podendo assim a cerimónia prosseguir.
Embora não sem antes, o acidentado se recompor e de Rita Parker, chamar a atenção de Aida que se sentiu, culpada por ter querido fazer tal brincadeira.
-Sahab... Sahab. - só pensava para si.
Este que se ria da soleira da porta, soltou uma careta de superioridade e fugiu logo de seguida pela janela aberta, ao fundo do salão.
-Bem... - disse o padre finalmente, enquanto limpava o suor da testa. - Não nos preocupemos com este acidente de percurso. Deus escreve certo por linhas tortas. -Desculpe o sucedido, senhor Cross. - desculpou-se a velhota, embaraçada e muito séria.
-Esá tudo bem, senhora Parker. - retorquiu este, retomendo o seu ar controlado e ajeitando os óculos para prosseguir .
Aida reprimia o seu riso nervoso.
Mary soltou um longo suspiro de ânsia e segundos depois, finalmente, viraram-se de frente um para o outro e prometeram amar-se para toda a vida :
-Eu Mary, prometo amar-te e respeitar-te na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, para o resto da minha vida. - balbucionou esta com a voz embargadam enquanto lhe colocava uma das alianças de ouro, oferecidas pela sua avó.
Hugh repetiu a mesma frase e também lhe colocou o símbolo da união, enquanto que Rita tomada pela emoção limpava algumas lágrimas com um lençinho com que se munira, já a adivinhar o que sucederia. A sua neta voltara para si, finalmente, sentia que a sua filha estava de novo consigo.
Um longo beijo repenicado, seria antecedido, da benção do padre, que os consagrara então, marido e mulher.
Então uma explosão de aplausos, de gargalhadas e de arroz, guardado para a ocasião os arrebatou, enquanto se prolongavam sorridentes, num longo e feliz abraço terno.
Em breve Aida e Oscar os viriam abraçar aos dois, sob o olhar atento do pároco e de Rita, de seguida fora cumprimentar e agradecer ao seu amigo, enquanto que este removia a batina pra a pequena festa da boda.
-Os doces de canela, estão uma delícia, senhora Parker. - agradecia o senhor Collins, mais tarde já junto da mesa, enquanto se deliciava com os aperitivos.
-Receita caseira. Prove mais um, destes. - retorquiu a velhota, indo buscar uma bandeja aonde se encontravam uns minúsculos bolinhos de chocolate.
-Diga-me, Rita, a sua neta e o marido irão ficar a viver consigo ? Sinto-a tão sozinha neste velho casarão. - perguntou o pároco, enquanto ia comendo sem parar, torturado pelo pecado da gula. - Desde que o seu marido faleceu, naquela noite trágica em que se libertou da sua própria vida, que a senhora mal aparece nas missas de domingo, como o costumava fazer sempre antes de tal suceder.
-Sabe, meu caro amigo, sempre que eu entrava na igreja lembrava-me do meu esposo e custava-me muito. - desculpou-se a velhota, fitando Mary e Hugh que conversavam com os dois amigos junto da poncha rosada.
-Eu entendo, mas não deixe de aparecer por lá, agora que tem a familia a viver consigo, será mais fácil. Leve-os consigo, que se sentirá melhor. -aconselhou o senhor collins, coçando o comichoso nariz rosado, com as costas da mão direita. -É importante que se liberte dessa mágoa e que siga em frente. A Rita merece ser feliz.
-Muito obrigada senhor padre. Tem toda a razão. No domingo levarei a ambos comigo, para comungarmos em familia. - concordou a velhota, libertando um sorriso de contentamento e acenando a Mary e Aida que sorriam para si, como que em agradecimento pela pequena festa familiar.
-Pensava que o padre iria morrer engasgado . - relembrava Hugh, na outra ponta da mesa com o grupo.
-Já imaginaste se isso acontecesse ? Seríamos descobertos e levados para as masmorras daqueles crápulas da guarda. - interveio Oscar, em voz baixinha para que ninguem os escutasse, bebericando a sua poncha, por um pequeno copo de vidro, com deleite.
-Não levemos a nossa imaginação a tão longes paragens. - replicou Aida, rindo-se ao se relembrar da cara do senhor padre, tão avermelhada como um pimentão de mercado.
-Não se riam, que falamos de uma pessoa que serve a Deus. É pecado. - afirmou, Mary um bocado aborrecida por se rirem da situação.
-Não fiques chateada Mary, estamos só a brincar. - replicou, o jardineiro, oferecendo-lhe um pequeno beijo repenicado na face. - E por falar nisso onde se meteu o pequeno diabrete ? - perguntou referindo-se a Sahab que desaparecera.
-Penso que saiu para o jardim, atrás de algo. - respondeu Aida, procurando localizá-lo, olhando através da janela aberta que estava em frente de si. Porém nenhum sinal do seu amigo felpudo. Apenas se vislumbravam as sombras das folhas das árvores, que dançavam sobre o relvado, iluminado pela prata derretida da lua cheia e se escutavam o som dos grilos cantantes.
A orfã preparava-se para se ir sentar junto dos seus companheiros que se dirigiam aos sofás para se unirem a Rita e ao padre, quando de súbito, escuta uma alegre e ritmada melodia, de violas, de tambores e de gaitas, que se dirigia a pouco e pouco, em direcção ao velho casarão.
Quase que desfazendo o seu pentado, após um virar brusco de pescoço em direcção a Mary que também o escutara, precipitou-se para a porta de entrada e foi então que viu Israel que trazia uma viola nos braços, acompanhado por um pequeno grupo de musicos.
-Venham ver ! - exclamou a orfã, enquanto que ia cumprimentando os convidados que chegavam com energicos apertos de mão.
-É israel que vem com alguns músicos ! - exclamou Mary, que se havia juntado á amiga na soleira da porta.
No salão, Rita e o padre se entreolhavam com largos sorrisos. Hugh interpelou a sua sogra :
-Já sabia disto ? - perguntou, admirado.
-Claro meu jovem. Eu não lhes podia deixar de oferecer uma festa como deve de ser pois não ? - respondeu ela, agarrando-lhe na mão, de longos dedos, e dando-lhe algumas palmadinhas ao de leve.
-Nem sei o que dizer ... - murmurou o jardineiro, fascinado com os sons de musica típica da região que escutava.
-Mais logo após cortarem o bolo, tenho um presente de casamento para os meus dois netos. - anunciou, perante os três homens que estavam sentados diante de si.
Oscar coçou a barba rarefeita, desconfiado.
O som da música, em breve invadiria todos os corredores do casarão e o barulho dos passos pelo soalho, faria estremecer a sua antiga estrutura.
Israel sentara-se numa cadeira junto da lareira e enquanto ia tocando, batia o pé alegremente, enquanto que por de trás de si, os seus companheiros o acompanhavam nesse compasso frenético.
Hugh e Mary dançavam alegremente, trocando de par com Aida e Oscar frequentemente. Esta último embora cambaleante ainda tinha muio para dar. Também o padre fora metido ao barulho. Aida o fora buscar e este sem recusar, dançou até não mais parar. Algumas ponchas a mais, ajudaram á festa, deva-se de dizer.
De fora da confusão, estava Rita Parker, que ia bebendo um chá de limão, através de uma chávena de porcelana. Atenta, permanecia impávida e com o seu ar sério, até que mandou o seu caseiro parar de tocar e dirigiu-se até Mary e Hugh.
-Vamos cortar o bolo ?
Todos concordaram e por entre suores, lá se cortou o magnífico bolo de três andares que a velhota, mandara fazer na cidade.
Hugh agarrou na mão de Mary e juntos cortaram a primeira fatia. Israel que trouxera uma câmara fotográfica tirou-lhes uma fotografia para a prosperidade.
Um novo flash, por detrás da capa da máquina, captou um beijo apaixonado. Em breve todos queriam tirar uma foto, e assim o foi.
Um abraço de amigas, as tréguas de Hugh e Oscar, a neta e a avó, o padre e os noivos, aida e o seu amigo, e em breve todos juntos. Apenas faltava Sahab, com o qual Aida se preocupava cada vez mais, pois já devia de ter voltado.
No final da sessão, Rita disse que iria fazer um quadro com a fotografia conjunta ao que todos concordaram .
Sentaram-se todos no conjunto de sofás. A velhota removeu algo da sua bolsinha preta que a acompanhava e colocou sobre o colo do seu vestido longo.
Tatava-se de um saquinho de veludo negro e parecia conter grande fortuna no seu interior, pois Oscar sentira o tilintar das moedas e sussurrara a Aida tal facto.
Mary que se sentara junto de Rita, olhou para o saquinho com curiosidade. Uma franga por entre os olhos, demonstrava a sua ansiedade.
-Toma Mary . - disse-lhe finalmente - É o meu presente para ti e para os teus amigos. Foi uma honra ter-vos recebido em minha casa. Trouxeram-me a minha neta e eu agradeço-vos do fundo do coração. - afirmou, tomando a mão da ex noviça e colocando-lhe o objecto sobre a palma aberta.
Por alguns instantes, Mary quedou-se muda e quieta, e sem saber o que dizer, abriu o saquinho, constatando que no seu interior encontrava-se uma pequena fortuna em moedas de ouro. Arregalada removeu um punhado delas e mostrou aos presentes, que se admiraram com tamanha fortuna.
Oscar cotovelou Aida e esta fitou Rita com admiração.
-É o dote que o teu avô deixou para a sua adorada neta, antes de partir. - contou esta, ajeitando o chapéu de laço, negro, sobre a cabeça.
-Oh ! - exclamou o senhor Collins, enquanto comia mais uns bolinhos. - Bendita seja a alma do senhor seu avô . - disse com a boca cheia, lançando alguns pedaçinhos incómodos para cima de Hugh que o olhou aborrecido.
-Agora tu e os teus amigos já podem partir. - afirmou a velhota, olhando para Aida que dava a mão a Oscar, sem conseguir esconder a sua felicidade.
O mendigo acenava com a cabeça afirmativamente, para Mary, que parecia querer renegar a tal fortuna.
-Eu..eu....não posso aceitar. É muito dinheiro. - balbucionou a jovem de olhos negros.
-Aceita Mary. O teu avô juntou para ti, para o caso de vires a deixar o convento algum dia. Ele queria que servisses a Deus, mas também sabia que uma jovem tão parecida com a mãe, haveria de encantar alguém.
-Achas que sabe do nosso segredo ? - sussurrou Oscar ao ouvido de Aida. - Achas que escutou por detrás da porta ?
Esta encolheu os ombros e recebeu a amiga, que já aceitando a oferenda, abraçou-a feliz.
Passados alguns instantes, Rita desculpou-se e foi-se deitar. O cansaço típico da idade, a afectava dissera.
Aproveitando a deixa, Mary e Hugh também se retiraram em núpcias para o quarto cor de rosa. Aida insistira para que ficassem no quarto da ex noviça, que ela iria para o de hóspedes.
-Aonde é que vais meu anjo ? - perguntou-lhe Oscar alguns minutos depois, enquanto bebia mais um bocado de poncha e conversava com o padre.
Esta saía da sala, após mais uma ida á janela para chamar o macaquinho e deteve-se.
-Vou ao jardim. - retorquiu, ajeitando o vestido apertado no peito, com irritação para com o mesmo. - Sahab não pode estar muito longe e vou trazer aquela pestinha de volta, por uma orelha. - assegurou, com um misto de aborrecimento e preocupação .
-Que Deus a acompanhe, minha filha. - desejou o padre, enquanto ajeitava os óculos sobre o nariz.
Acho que prefiro a sorte neste caso. - replicou a orfã, que não era muito dada a religiões.
Sem perder tempo a orfã os deixou. Estes ficariam a discutir politica e religião, por mais algum tempo, socorridos pela ajuda dos comes e bebes. Israel e os seus amigos, viriam a sair alguns minutos após.
Aida, atravessou o alpendre e debruçou-se sobre as suas vigas de apoio, levando a mão á testa franzida. Esforçando o olhar, procurou detectar alguma sombra que indicasse o paradeiro do seu fiel companheiro de todos os dias. Porém nada se passou, nem um rato de campo se atravessou na sua linha de objectiva.
Determinada a trazer Sahab pela orelha, desceu as escadas de madeira apodrecida e deteve-se no centro do jardim semi-infértil.
Ajeitando a linha esguia do seu vestido justo, libertou um suspiro de impaciencia. O espartilho a incomodava e só pensava em ir para o quarto descansar da festança.
-Sahab... - chamou de mãos em concha perto dos lábios pintados de rosa claro. - Vem cá imediatamente ou vou-me chatear ! Ouviste-me pequeno diabrete ? - disse em voz alta e num tom ríspido. Cessando os chamamentos, aguardou algum sinal.
Os minutos passavam, até que escutou alguns guinchos vindos da parte lateral do casarão, que deitava para as traseiras.
Em passo, firme e acelerado, deixou-se guiar pela cortina encadescente da lua cheia e virou a esquina, calcando o piso de pedrinhas afiadas, com os seus sapatos de salto raso.
Ao fundo, pôde confirmar a origem dos barulhos que escutara alguns momentos antes.
Sahab havia-se enfiado no parapeito de uma pequena janela, colada ao nível do solo, e que medida perto de uns quarenta centímetros de altura e de largura.
O macaquito, alertado pela sua presença, olhou-a com os seus grandes olhos castanhos escuros, e começou a agitar as grades de ferro que bloqueavam o acesso ao interior do edíficio.
-Aí estás tu ! - ralhou a jovem, colocando-se de cócoras e apertando uma das orelhas do pequeno animal, que com cara de culpado lhe fez beiçinho. - Nem penses que me compras com esses mimos. - afirmou, com ar sério.
Este levou as mãos felpudas á face e cobriu os olhos com as mesmas, como que se temesse pela própria vida.
Aida sorriu e deu-lhe um beijinho nos lábios para o tranquilizar.
-Vamos agora ? Temos de ir dormir. - murmurou a sua dona, afagando-lhe o pêlo da cabeça.
Todavia quando se iria erguer, o macaco lhe agarra na mão e aponta com o dedo indicador para o interior da janela, selada.
Aida dobra-se sobre os joelhos novamente e espreita para o seu interior. Com os olhos bem abertos, e de respiraçao suspensa, procurou adquirir visão felina, que lhe seria bem útil, pois o interior do que quer que fosse aquele lugar, estava completamente ás escuras.
-Não vejo nada ... - disse a orfã, verificando a soldadura das minúsculas grades de protecção. - Sólidas como rochas. - constatou, voltando a colocar o macaquito no seu campo de visão.
Este continuava a olhar para dentro como que se lhe quisesse transmitir algo.
Enrugando a testa, recordou-se da perspicácia do seu amigo primata e procurou sondar o interior do lugar novamente.
-Não te entendo, Sahab. Deve de ser alguma cave. Mas não vejo nada. - pensou, erguendo-se alguns segundos depois, um pedaço aflita pela rigidez do seu vestido que a asfixiava naquela posiçao.
-Se me fizeste esta partida, só por um roedor ... - queixou-se, á medida que limpava o fráfil tecido do mesmo, que ficara sujo de ervas e de poeiras na região dos joelhos.
Subitamente um sonoro latido raivoso a alerta.
Era Black, o feroz cão de Rita, que habitava nas traseiras. O rotweiller, parecia ter despertado com a sua presença e arrastava pelo chão, a forte corrente de metal, que o aprisionava, provocando arrepios em Aida que mesmo estando longe da fera, não queria sentir-se em contacto com a mesma.
Sem perder tempo, chamou Sahab para o seu ombro. Este um pouco contrafeito lá obedeceu e voltaram para o interior da velha habitação.
Antes de se dirigir para a larga escadaria ao fundo do corredor da entrada, espreitou para o interior da grande sala de estar.
O padre e Oscar ainda comemoravam, fazendo incessantes brindes. Nessa ocasião, o mendigo a avistou e chamou-a para se juntar ao convívio tardio, porém a jovem, recusou e subiu para o quarto.
Ali, deixou Sahab descer para o chão de madeira sólida e atirou-se para cima da cama, esticando os braços ao longo dos compridos cabelos desmaiados sobre a coberta de lã, da pequena cama de vigas.
Levou as mãos dobradas aos olhos e esfregou-os, deixando-as cair abertas sobre o colo do seu vestido. Uma sensação de calor a invadia.
Sem perder tempo removeu o longo vestido pelos pés, desenlaçou o espartilho frontal e vestiu a leve camisa de noite branca, que trouxera aquando da sua passagem para o quarto de hóspedes.
Então decidiu abrir a alta janela envidraçada que deitava para o lado dos campos.
Trepando para cima do seu apoio, sentou-se no parapeito, deixando as pernas cairem para o vazio, num doce e ritmado embalar, ao sabor da suave brisa fria de outono.
Apoiou as mãos na madeira horizontal e cerrou os olhos com ar sonhador, tal como costumava fazer no orfanato quando sentia necessidade de se sentir livre como um passarinho.
Sahab juntou-se-lhe ao lado e também ele observou o infinito nocturno. O céu era um manto estrelar. Todas as suas estrelas brilhavam no seu máximo esplendor.
-Lembras-te meu traquinas ? - perguntou-lhe a orfã, sem abrir os olhos de mel. - Livre como um passarinho que não tem ninho.
O macaquito esboçou um sorriso símio, deixando entrever os afiados dentes incisivos frontais, como que em resposta.
Mas Aida não lhe prestou atenção. A sua mente voava para outras paragens.
Recordava-se de Enrique e de como a tomara por entre os seus braços másculos. Um percorrer suave de mão ao longo do seu pescoço, deu-lhe a ilusão da sua presença.
Porém a imagem do enigmático rosto de Pedro que seria o lado obscuro da personalidade de Enrique, assaltava-a constantemente e isso a assustava, porque esse era a faceta que mais a fascinava.
-Como amar alguém assim ? - interrogava-se no meio dos conturbados pensamentos. - Sou mesmo burra . - lamentou-se, abrindo os olhos e elevando os joelhos até que os seus pés desnudos alcançaram o poiso firme da tábua de madeira lascada.
Soltando um profundo suspiro, enrolou os braços em redor dos joelhos despidos de tecido e deixou o rosto tombar para cima dos mesmos.
De súbito a porta do seu quarto abre-se de mansinho. Alguém entra sem ser visto .
A jovem, absorta que estava nos seus tormentos amorosos, não deu pela sua presença.
Sem fazer o menor barulho, uma figura esguia aproximou-se por detrás e esticou as mãos, suspendendo-as a poucos centímetros da sua coluna vertebral, com o intuito de a empurrar da janela abaixo.
Alertado Sahab olha-a com pânico e salta para o chão em fuga, atingindo o corredor a alta velocidade, por onde vinha Oscar aos tropecções. Inteligentemente pula para as suas calças negras e começa a puxá-las com vigor.
-Ei ! - briga o velho de cabelos aprumados, olhando-o com ar de reprovação. - Ainda me estragas as calças.
Assustado o macaquito larga-o e começa a andar para a frente e para a trás, na direcção da porta do quarto da dona .
Atordoado pelo excesso de alcoól consumido, o mendigo, coça a barba com intriga, enquanto que procura manter-se acordado.
-O que foi meu amigo ? A Aida quer falar comigo ? - interrogou-se, seguindo o animal de imediato.
Chegando á soleira escancara a porta entreaberta e dirige-se para a jovem que despertando, olha-o com espanto.
-Chamaste-me, meu anjo ? - perguntou o velhote, oferecendo-lhe a mão para a ajudar a descer da janela.
-Que ideia mais disparatada ! - censurou a orfã, ajeitando a camisa e fechando as vidraças.
Sahab trepou agilmente para o ombro do velhote que o fitou com ar dormente.
-São dois ? - interrogou-se de voz arrastada.
-O Oscar já bebeu demais. Venha comigo que o vou deitar. - afirmou Aida, com preocupação.
Cansado o seu amigo, obedeceu, e apoiado no seu ombro, acompanhou-a até ao seu quarto que ficava na porta ao lado.
Um ranger de porta, deixou a descoberto a figura que se havia escondido por detrás da mesma.
Espalmada contra a parede de tinta lascada, soltou um grunhido de raiva e contorceu os nós dos dedos esqueléticos, antes de se dirigir até á vela de cera branca, que estava acesa sobre a penteadeira.
Ali perto da chama de reflexo alaranjado, pôde-se vislumbrar o rosto de Rita Parker, que se encontrava completamente desfigurado de ódio.
Com um intenso sopro, apagou-a e deixou-se abafar pelo imponente manto de escuridão .






















CAPÍTULO XXVI





O CADÁVER









Largas horas após o sucedido, um lago de sol, inundava o velho soalho do mesmo quarto. Nessa altura já Aida havia acordado e abotoava o corpete do seu longo vestido rosado que comprara numa ida á cidade. Era o único ornamentado por uma grande laço vermelho na região do colo, e encantara-se perdidamente por aquele vestido que lhe assentava que nem uma luva, evidenciando-lhe a curvílinea escultura do seu corpo .
Repuxava os longos cabelos de avelâ sobre a nuca, quando Mary irrompe-lhe pelo quarto adentro, aparentando uma extrema boa disposição:
-Acabei de chegar da cidade ! - exclamou, removendo o chapéu de flores da cabeça, cujos cabelos que embora ainda curtos, cresciam a uma ambição desmedida pelos ombros.
-Acho que deixei-me adormecer até tarde novamente. - observou Aida, soltando um bocejo e abaixando-se de seguida, para enlaçar as botas que calçara.
-Oh! Aida foi tão bom devias te ter ido connosco . - disse-lhe a ex noviça, dirigindo-se para janela e abrindo-a com energia.
De imediato o ameaçador astro do céu, lançou-se pela janela adentro e salpicou as paredes de luz.
Ao escutar aquelas palavras, Aida pareceu despertar e quedou-se admirada, olhando-a da cama.
Mary que se embeirara na janela, não notara o seu espanto e observava deliciada, a linha do horizonte, pintada em tons azuis claros, mesclada de vez em quando com tinta branca.
A orfã ergueu-se e juntou-se-lhe . Colocou a mão em redor da sua cintura e sorriu-lhe.
-Mary, não deverias de estar em lua de mel com o Hugh ? - perguntou, cerrando os olhos cor de mel, que pareciam derreter com a forte luminosidade que aquele dia transmitia.
-Eu sei que devia, mas está um dia tão belo que seria um desperdício, não o aproveitar. -retorquiu a sua amiga, com convicção.
-Sim, de facto tens razão, mas ...
-Comprámos um pinheiro, se visses Aida ! É enorme!
-Um pinheiro ?
-Sim e era o mais belo que o vendedor possuía. Eu e a minha avô insistamos tanto, que Hugh acabou por o trazer. - contou, rindo-se com a recordação que tinha dessa altura.
-Rita ? - perguntou.
-Sim, ela veio chamar-mos de manhã e disse que tinha uma surpresa. Não é fantástico ? - replicou entusiasmada. Tão entusiasmada que parecia uma pequena criança a quem a mãe acabara de comprar uma bela casinha de bonecas.
-Mary...- disse-lhe Aida, lembrando-se de que não poderiam ficar tanto tempo em casa de Rita Parker.
-Vem Aida ! - interrompeu esta, pegando-lhe na mão e arrastando-a pelo quarto afora. -Quero mostrar-te o pinheiro. Temos muito trabalho pela frente.
Iam a descer as escadas, quando a orfã deteve-a com um puxão de braço.
-Sabes que não podemos ficar para o natal . E além disso a época de nevão aproxima-se . - disse-lhe com cautela e pesar. Ambas sabiam que ninguém aceitaria por dinheiro nenhum deste mundo, fazer-se ao mar com o mau tempo característico dessa altura.
-Não sejas chata Aida. - censurou a amiga - Temos todo o tempo do mundo ! Agora vem, que iremos ter muito trabalho pela frente ! - disse-lhe, completamente transformada pela euforia.
Sem saber o que dizer, a jovem aceitou o facto e deixou-se levar pela escadaria, até ao salão de estar, aonde a gigantesca árvore estaria instalada. Assim o dissera Mary, após passarem por Rita Parker se encontrava de avental em redor da cintura. Esta cumprimentou a orfã com um largo sorriso e apontou para o local para onde seguiriam.
Ao chegarem lá, depararam-se com Hugh que carregava uns caixotes, com rapidez e eficácia. As mangas da sua camisa branca de gola aberta, estavam enroladas até á altura do cotovelo. Este parecia suar com o esforço.
Descarregava-os sobre o sofá do salão ainda por arrumar do dia anterior, quando as viu a olhar para si com ar entretido.
-O que te deixa tão atarefado, Hugh ? - perguntou Aida, com curiosidade.
-São os caixotes com os enfeites para a árvore. - respondeu Mary com prontidão.
-Trouxe-os desde o sotão, uns três andares acima, para cá para baixo . - acrescentou o loiro rapaz, aproveitando a pausa para secar a testa com as costas da mão - Por duas vezes já .
-E quem te obrigou ? - perguntou a orfã, cruzando os braços sobre o peito ostentado pelo vestido justo.
-Quem achas que foi ? - contrapôs, olhando para a sua mulher, que lhe respondeu com um beijinho na face.
-Hugh, adoro-te ! - elogiou esta com meiguice. Apoiando-se no seu ombro, encostou a cabeça e olhou para a gigantesca árvore com ar sonhador. - Já sinto que esta é a nossa casa...
Aida fixou igualmente o olhar no belo pinheiro e depois no casal com um sentimento de culpa, « se calhar eles pertencem a esta herdade », pensou, sentindo o seu peito a pesar cada vez mais .
-E é a vossa casa ! - disse uma voz vinda da entrada.
Era Rita Parker quem chegara. Estava com um ar radiante. A sua cara perdia a palidez e recuperava os tons rosáceos da juventude. Trazia uma toalhinha com a qual limpava as mãos, enquanto fixava o casal com alegria.
-O almoço está quase pronto. - informou, desviando o olhar para Aida - O seu amigo não desce ?
-Está a descansar. Digamos que exagerou um bocado na noite de ontem . - retorquiu .
-Ah! Entendo... - replicou Rita .
-O que aconteceu com o Oscar ? -perguntou Mary com preocupação .
-Deve de estar a ressacar . - interveio o jardineiro com ar divertido - depois do que ele e o pároco entornaram ontem....
-Hugh! - censurou a sua esposa, por entre dentes.
-Disse algo de mal ? - replicou, com ironia.
-Pobrezinho! - exclamou Rita - Vou lá em cima então, levar-lhe um café bem forte . - disse, engachando a toalha por entre o avental que usava em redor da cintura.
-Não é preciso . - disse-lhe Aida de imediato . - Deve de estar a dormir ainda.
-Disparates ! Eu levo-lhe o café agora. Não pode deixar de almoçar connosco . - insistiu a velhota, ajeitando um cabelo esbranquiçado, que saíra da rede capilar com rebeldia.
-Desculpe senhora Rita, mas não é preciso dar-se ao trabalho. Sahab está com ele e se houver algum problema descerá para me avisar. - impôs-se a orfã.
-Aida tem razão, avó. - concordou a sua neta, juntando-se á amiga - Deixemos o Oscar descansar mais um bocado.
-Está na idade para isso e para ter juízo também . - disse Hugh, que nessa altura arrastava os sofás para o seu local original.
-Bem...se acha que esse animalzinho irá dar conta do recado, então confio em si . - afirmou, aparentemente resignada, porém por debaixo da protecção metálica dos seus óculos de dia, os olhos negros chispavam. - Mary, vens ajudar-me a pôr a mesa ?
-Claro ! Aida vens ?
-Estava a pensar em ajudar o Hugh . - retorquiu esta.
-Está bem, juntamo-nos mais logo . - concordou a amiga, deixando-os a sós.
-Acho que Rita não gostou do que lhe disseste. - comentou o rapaz, enquanto esta vislumbrava o interior de um dos caixotes de papelão. O interior deste, estava recheado com bolas de várias cores e feitios.
Aida não lhe respondeu. Removeu uma das bolas de cor vermelha e fixou o olhar nesta como que em busca da sua própria imagem.
Depois abriu outro caixote e começou a escolhar as espiguilhas em tons dourados que combinaria para a decoração da árvore.
E assim, o tempo decorreu até á altura da reunião em redor da grande mesa, do salão de jantar.
As loiças tilintavam sobre a mesa, enquanto que as cadeiras eram arrastadas pelo velho soalho de mau trato.
Velas acesas iluminavam o espaço, mas de que brilho extra, precisaria um dia já tão iluminado.
Rita como de costume, encabeçava a mesa e aguardava que todos se restabelecessem para começar a servir a servir a sopa, diposta numa bandeja de prata perto de si, « a criada virá amanhã, para arrumar o casarão », disse por entre os múmurios instalados naquele local espaçoso e repleto de janelas altas, de cortinas abertas.
Mary que nesse momento entrava no salão, trazendo um jarrão com limonada fresca, escutou o que disse e mostrou-se satisfeita.
-Fico feliz por escutar a novidade avó. Estava a pensar em arrumar a casa, caso não viesse ninguém.
-Não é preciso, May jane, trata das coisas, como de costume. Já cá trabalhava nos tempos em que o teu avô ainda era vivo. - replicou, erguendo-se e abrindo a tampa do recipiente que continha o precioso alimento.
De imediato um delicioso cheiro percorreu cada recanto e cada nariz, abrindo o apetite de uma só assentada.
-Pode-me passar o prato, meu genro . - pediu a velhota, com gentileza.
Este cedeu-lhe o mesmo e esta entornou o liquido de cor alaranjada, através de uma reluzente colher em forma de concha.
-Hum... - murmurou Hugh, sentindo o cheiro de olhos fechados, assim que recebeu a sua dose bem generosa. - Estou cheio de fome e agora ainda fiquei com mais . - disse o jovem.
Mary que se sentara á sua frente perto de Aida, censurou as suas maneiras.
-Não faz mal, minha Mary, aqui não há desses requintes, como já disse, a casa é vossa. - retorquiu, sentando-se e olhando para Aida, que lhe sorriu com agrado após provar um bocado da borda rescaldada do prato de porcelana adornado com motivos florais.
-Hugh tem razão senhora Parker. A sopa está divinal. - elogiou, levando mais um bocado á boca com apetite. Um consolo para a sua alma perturbada pela tristeza outonal.
-Nuvem de cenoura . - informou , referindo-se ao nome do prato.
-Não há melhor cozinheira que a minha avó . - afirmou a ex noviça, com orgulho.
-De mão cheia ! - confirmou Hugh, que devorava a nuvem como se fora um alimento dos Deuses.
-Mas esta ceia também tem a mão da minha Mary, que me ajudou . - replicou a velhota, como forma de retribuição.
-Já é de família então. Sou um homem muito afortunado. - concluiu o jardineiro, que já raspava o prato, nunca esqueçendo as suas humildes origens de que não se desperdiça nem uma centéssima de alimento, pois fora da boca fora da alma.
-Parabéns Hugh . - brincou Aida, oferecendo-lhe uma palmadinha nas costas.
Mary riu-se, a sua face estava cada vez mais morena e corada, fruto das longas sessões de bronzeado que ambas passavam juntas a conversar no alpendre.
-Tenho tanta pena que o Oscar não possa estar aqui connosco a conviver. - lamentou Rita, levando de seguida uma colherada que provou pelo canto da boca com ar afectado. - É um homem tão simpático e eloquente.
-Deixe estar, aquilo passa e em breve já está aqui a brindar-nos com as suas histórias . - interveio o jovem de fartos cabelos loiros, que tombavam sobre as sobrancelhas como uma flor a cerrar-se de noite.
-Eu também, não pensem que não, mas foi melhor assim, porque descansa um pouco mais. - advertiu Aida.
-De facto não se manteria em pé, por muito tempo. - afirmou Hugh, sempre divertido por poder descascar no pobre mendigo .
-Mas Aida conta-me como foi que Sahab ficou no quarto com Oscar ? - perguntou Mary, que ajeitava o lenço branco sobre o vestido, caso fosse o destino pregar-lhe uma partida e o arruinar. E logo esse vestido branco que pertencera a sua mãe, e estava inclusive incluído numa das fotografias que vislumbrara, uns dias atrás.
-Ontem de noite, Oscar veio ter ao meu quarto. Disse-me que o traquinas, lhe tinha chamado para que lá fosse. E assim o fez pensando ser eu a mandatária. Porém não o fiz e achei muito estranho, mas como já estava a delirar, levei-o ao quarto e resolvi deixar Sahab com ele, não fosse precisar de algo durante a noite. Além do mais dizia que não queria ficar sozinho e assim o foi. - contou, com ar pensativo, enquanto que ia brincando com a colher de prata pela borda do prato.
-Coitado do animal . - troçou Hugh, escondendo um sorriso de malícia por entre os lábios, sujos de sopa, limpos após uma advertência da sua esposa que não gostava da implicância contra o mendigo.
-E a porta ficou fechada ? - inquiriu a velhota.
-Claro .
-Então como abrirá em caso de querer sair ?
-Ele sabe. Sahab é muito ardilhoso e inteligente. Ao minimo problema transformsa-se num guerreiro. - concluiu a jovem, sorrindo para Rita que a olhava com o seu ar sério.
-Subscrevo. - disseram Mary e Hugh ao mesmo tempo, facto que provocou uma gargalhada geral entre os três jovens.
-Mesmo assim...
-Além do mais, logo após acabar a refeição irei ao seu quarto ver como passa . - afirmou a orfã, que devido ao passado do seu amigo, não acreditava que este não recuperasse do seu estado menos saudável.
-Faz bem . - concordou a velhota - Eu própria irei vê-lo mais tarde. - acrescentou com preocupação.
Aida e Mary entreolharam-se. Achavam estranha tanta preocupação e começaram ambas a sorrir com suspeitas de paixão não assumida.
-Ai ! - suspirou Rita, por entre um gole de limonada, sorvida com lentidão - Estes dias tem sido uma lufada de ar fresco na minha solitária vida. Gostava de ter vos ter comigo para sempre . Estou tão feliz ...- desabafou esta, com a voz embargada e lágrima fácil ao canto do olho, cujos pés de galinha ficavam bem fundo a sua posição.
-Para nós também é assim acredite nisso avó . - disse-lhe a jovem de cabelos negros, tocando-lhe na mão como qye em reconforto para o seu pesar.
-Digo o mesmo que a Mary . - concordou Hugh.
-É tão dificil dizermos adeus não é mesmo ? - concluiu esta, olhando para Aida que se manteve cabisbaixa.
-Mas a avó sabe que não é adeus .
-Sim...mas não é o mesmo... bem, mudemos de assunto. - propôs esta, engolindo em seco.
Todavia o ambiente se havia quedado muito tenso entre os três amigos que não falavam . E assim foi durante alguns minutos, até que Rita quebrou o gelo com um pedido a Hugh e de seguida á sua neta.
-Sim claro ! Com todo o gosto. - responderam ambos, entusiasmados.
-Plantarei uma horta no seu jardim com todo o prazer. Aliás é essa uma das minhas funções . - afirmou o jardineiro, entusiasmado por poder voltar a exercer a seu antigo trabalho.
-E eu, aliás nós iremos consigo á missa do domingo . - disse Mary, igualmente entusiasmada por poder voltar a pisar uma igreja, um solo sagrado e um local de entrega para si.
-Não sabem o quanto aliviam a alma de uma pobre mulher . - assegurou-lhes a viúva, removendo o lenço bordado, do seu colo e levando-o á boca.
-Aida, estás bem ? - perguntou Mary por vê-la tão silenciosa e introspectiva.
-Sim...claro Mary .
-Podemos ficar mais uns dias por cá, não achas ? - perguntou-lhe em surdina. Hugh e Rita conversavam, animadamente .
-Podemos . - respondeu a orfã .
Um ranger de cadeiras se fez sentir. Rita e Hugh ergueram-se e sairam em direcção ao átrio, « irei mostrar a área de plantação ao meu novo neto », foi a informação que a velhota deu.
Mary e Aida decidiram levantar a mesa. Um frenesim de loiças, invadiu a bancada de madeira da velha cozinha que cheirava a mofo e a hortelã.
Lavavam e conversavam sobre as lojas que Mary visitara na cidade, quando Rita voltou a aparecer, silênciosa como um vulto misterioso.
-O Hugh ? - perguntou Mary, por entre uma ensaboadela.
-Já está a plantar . - retorquiu a velhota com ar satisfeito.
Dizendo isto, dirigiu-se para a porta das traseiras e saiu tão silenciosamente como surgira pela outra.
-Que rapidez. - observou a ex noviça, com admiração.
-As saudades apertavam .- comentou Aida, soltando um suspiro .
Removeu o avental e dirigiu-se para o velho fogão a lenha, que estava situado na parede lateral, junto da porta de acesso aos campos. Um intenso cheiro a queimado a fez tossir, assim que abriu a portinhola. Repuxou a beira do vestido para cima dos joelhos e agachou-se para colocar mais lenha. Faria um café para Oscar.
Nesse instante Mary deixou-a sozinha. Iria ver o seu marido ao jardim. Este lhe fizera sinal para a janela, diante da qual se encontrava.
Alguns minutos se passaram. A chaleira apitava e a lenha crepitava, quando Rita volta a surgir. Olhou através da janela que deitava para os campos e abriu a porta rangente.
-Senhora Rita, ainda bem que apareceu . - disse-lhe a orfã, com dificuldades em encontrar o pote dos grãos, por entre as gavetas das bancadas.
Porém a velhota nada disse. Em vez de uma resposta sua, uns sonoros latidos soaram da entrada, como que em anúncio de algo de terrível que estaria para acontecer.
Aida atordoada, engoliu em seco e dirigiu-se para junto do fogão, para poder espreitar pela abertura da mesma.
A visão que teve de seguida, foi um choque para si. O temível Black, cão guarda da fazenda a olhava, com raiva.
A baba escorria por entre as filas de dentes afiados e cerrados. Os olhos pareciam querer sair das órbitas e o pêlo negro estava eriçado no ar. Um ataque era iminente.
Conteve a respiração e elevou a mão trémula muito devagarinho até junto de um pano perto da chaleira. Agarrou neste e retirou a mesma do local de ebulição . Feito isto deu inicio a um conjunto de passos curtos para trás.
Mas o cão esperto, avançava á medida que esta tentava fugir, até que se quedaram ambos no centro da cozinha, num frente a frente.
-Não te atrevas ! - avisou Aida, apontando a chaleira de água escaldante em ameaça para com o canino, que inconsciente das consequências a fixava com um rosnar cada vez mais pesado.
As patas traseiras, munidas de garras afiadas, raspavam no soalho, riscando-o como uma agulheta sobre um disco .
Parecia hesitar entre um salto de ataque e uma fuga amedrontada pelo objecto.
Todavia esperou.
Esperou que a jovem se fatigasse, pois as suas faces começavam a se avermelhar, com o esforço por segurar no pesado e quente objecto. Transpirava. Mas num espírito combativo não cedia, até que vê Rita a surgir pela porta, colocando-se por detrás do seu cão.
Com ar de alívio por a ver, pousou a chaleira sobre a mesa, á qual se ladeava e procurou recuperar o fôlego:
-Ainda bem que apareceu.... - disse-lhe com a voz tão trémula quanto o resto do seu corpo.
Esta elevou as mãos como que a dizer para ter calma, quando de súbito o cão se lança para si, derrubando-a ao chão.
Em pânico a orfã, começou a gritar com todas as suas forças. Black, apanhara-lhe a bota e começara a enterrar os caninos cada vez mais fundo, até que esta os pôde sentir sobre a sua pele. A dor era insuportável.
Rita assitia a tudo com ar calmo e aguardava de braços cruzados por debaixo do peito chato.
-Socorro ! - berrava a orfã, sentindo-se a desfalecer, até que ao sentir que o cão largava a sua bota para se lançar ao seu vestido, arranja forças e o pontapeia mesmo no meio do seu focinho. Este atordoado, começa a ganir de dor e cambaleia pela cozinha .
-O que aconteceu ?! - perguntou a voz ofegante de Hugh, que escutando a gritaria havia vindo de rompante para o interior do casarão.
-Black! Já para a rua ! Isso não se faz ! - brigou Rita, com ar de quem estava revoltado.
O cão, com medo, soltou um ganido de cachorrinho, meteu o rabo por entre as pernas e saiu a correr porta afora, antes que o diabo esfregasse o olho.
-Hugh! Ainda bem que vieste tive tanto medo . - disse-lhe Aida, de mão na cintura a tentar recuperar do choque que sofrera.
Este preocupado, abraçou-a e reconfortou-a, esfregando a mão pelas suas costas.
Mary vinda de sua trás, abraçou-a também com uma tremenda angústia. A sua cara havia ficado pálida com o susto e os olhos bem abertos davam a sensação de ter sido ela a passar pela situação.
Aida, acariciou-lhe os cabelos negros, e disse-lhe estar bem . Esta respirou fundo e olhou para a sua avó que tremia de mão no peito.
-Está bem avó ? - perguntou, abraçando-a com afecto .
-Sim... isto já passa ... - replicou a velhota, cambaleando e com ar de quem iria desfalecer a qualquer momento.
Hugh de prontidão, arrastou uma banca para si e esta sentou-se lançando lamentos e lágrimas .
Aida agarrada á parede junto da porta do corredor, olhou-a com suspeita, mas um sentimento de benevolência a levou a tentar acalmar a velhota que parecia estar em estado crítico.
-Tenha calma . Não teve culpa. - pediu a orfã, passando a mão pela cara, para remover os cabelos desalinhados numa só assentada para detrás da nuca. Depois uma sensação de dor aguda a fez levar a mão á perna.
O jardineiro, a ergeu sobre a mesa para ver como estava o local, sob alguns protestos seus que não queria que se preocupassem consigo.
-Temos de ver como estás, não sejas teimosa . - aconselhou Hugh, procurando por algum sinal de corte pela sua perna morena.
-É no pé . - informou a orfã, cerrando os dentes de dor, assim que este deslizando os dedos pelos gémeos lhe chegou junto da bota e a removeu de uma assentada.
Imediatamente, um grande corte profundo surgiu na zona do calcanhar. Um fio de sangue jorrava através da abertura da ferida e molhava a mão do jovem, suja da terra que trabalhava na altura.
-Deve de ter atingido algum nervo . - observou preocupado - É preciso estancarmos para não perderes mais sangue.
-Eu vou buscar os remédios. - afirmou Mary com prontidão. Ergueu-se do chão, aonde se havia ajoelhado junto da avó para a reconfortar e saiu da cozinha.
Rita ainda se lamentava de olhos cerrados, não ousando enfrentar o olhar da jovem que a olhava intrigada.
-Mas como foi que isto aconteceu ? - perguntou o jovem de cabelos doirados, enquanto pesquisava o resto do pé da sua amiga, em busca de mais algum corte ou contusão.
-Não sei .... - replicou a jovem, mordendo o lábio inferior enquanto procurava relembrar o ocurrido. -Num momento eu estava a procurar por algo numa das gavetas e no outro o cão surge pela porta adentro e atira-se a mim.
-Deixaram a porta das traseiras aberta ? - interrogou Hugh, em tom de censura.
-Fui eu ...fui eu que deixei. Saí para ir buscar uma enxada e esquecime dela aberta. Perdoem-me.. tive toda a culpa. - afirmou a velhota, soltando sucessivos ais de penalização.
-Aonde está a enxada ? - perguntou o jovem .
-Eu... esqueci-a na rua com toda esta situação. - retorquiu, desviando o olhar para o chão.
Alguns minutos de silêncio os envolveram até que a ex noviça, voltou a surgir pela porta, já com os remédios para os curativos.
-Ainda não percebi como foi que o cão se soltou ! - dizia o jardineiro aparentemente ainda abalado pelo estranho ataque. Andava de lá para cá, de mão envolta sob os cabelos lisos, parando de vez em quando para observar os curativos que a sua esposa fazia a Aida.
-A corrente deve de se ter quebrado . - hipotetizou a velhota.
Este pareceu concordar com um aceno de cabeça e dirigiu-se para a porta das traseiras.
-Não faça isso ! - alertou Rita Parker com ar assustado - Black ainda está solto ! Eu mais logo quando estiver melhor irei ver o sucedido. - aconselhou.
-Sim... talvez seja melhor. - concordou, afastando-se da porta para ir ter com as duas jovens junto da mesa. - Vou voltar para o jardim . - informou, soltando um suspiro - alguma coisa chamem-me está bem ? É melhor ires descansar Aida .
-Eu vou levá-la para o quarto . - afirmou a sua esposa.
-Não, deixem estar. Eu vou para o sala de estar, não há motivos para me ir deitar. Eu vou ficar bem, isto não foi nada. - replicou a jovem de olhos cor de mel, com um sorriso leve no rosto semi pálido .
Hugh e Mary entreolharam-se com um sorriso, admirados com a sua força .




































































































Continua.... ( rita parker, leva mary ate á supultura do avô e diz-lhe que ira oferecer-lhe o casamento e copo de água e sonda em relaçao a aida e oscar, entao eles ficam o resto da semana enquanto que rita tenta matar aida, entao um dia aida ve o avo no espelho e tem de partir pois a ilha ira desaparecer durante um ano do mapa da terra e fala com mary sobre o mapa do tesouro, rita ouve e nesse dia os
Teanca na cave e diz a mary que eles partiram e disse que lhes deu dinheiro. Devastados os dois ficam la até, sahab libertar aida e oscar, mas o cao com peste ira envenenar mary e hugh, pk eles decidem ir-se embora ?? ou a rita tb é envenenada sem saber .... whatever depois ver ....









Continua.... ( algum tempo depois o anel volta a atacar mas sob a forma fantasmagorica, o seu avo reaparece algum tempo depois, um dia antes de partir, para a avisar que chegou a hora e para o perigo de rita parker... porem a velha escuta e pensa que aida é uma bruxa e bla bla bla .. o cao que sahab encontra doente com peste, chama-se black )


Continua.. ( da-se o pesadelo, mary casa-se la e aida enfeita a arvore de natal, as tentativas de assasinato sucedem-se, ate que uma semana depois, qd hugh e mary foram a cidade ou whatever lol, ela tenta trancar aida na cave e bate em oscar que tb fica la preso, so sabah os ira salvar ! lol )






Continua..... ( Mary fecha a janela por a tempestade voltou, enquanto aida se enxuga e se veste, irao conversar na cama como boa amigas que são, e o anel de caveira volta a fazer das suas, um novo pesadelo e desta vez pedro entra nele ou enrique .... lol )







Novo capitulo ..... continuar mas neste tb esta tudo muito cor de rosa. No terceiro é que a velha demonstra a sua esquizofrenia ..... mas neste já começa a dar indicios de tal paranoia.












Continua...( aida dorme com mary e tem um novo pesadelo com o seu avó que a chama para a ilha perdida . Mas o mais estranho é que Pedro ou enrique aparecem no mesmo sonho e na mesma ilha ! .. e salome envia-lhe uma mensagem ? maybe , oscar e hugh dormem no mesmo quarto, vao ficar mais amigos que nunca )





Continua.... ( bla bla e aida dorme com ela e so anel de caveira volta a funcionar em forma de pesadelo. )







Continua... mary apresenta os seus amigos arita e ela os acompanha até aos quartos de hóspedes e até ao quarto da sua mãe !lá encontra uma caixinha de música, aonde deixa o seu anel de noivado e pede para que fique com o anjo no final )


Continua.... ( o avô a levou pk a avô ficou esquizofrénica e a poderia por em prrigo e ele temia um dia qd falecesse. Mas ela não sabe.. pk ela tem períodos de boa lucidez..aida e os restantes virão a provar os momentos menos bons... ela os acolhe e no dia seguinte mary e hugh revelam estarem noivos... então ela oferece a festa e o casamento uma semana depois, esperando que eles fiquem a viver consigo, porém qd sabe da história do tesouro e que vieram pedir dinheiro, tranca aida na cave para os impedir de partir e trata de oscar tb.... mary e hugh permanecem com ela, até que sahab lhe leva a chave e esta se liberta então a velha os tenta matar com a peste do seu cão que morreu com ela e mary adoece..... end off chapter para o casalinho.. oscar e aida e sahab partem sozinhos para cape que já está tão próximo.... SABER A CIDADE EM QUE ESTÃO ! )

Continua.... ( mary revela a rita parker que é sua neta !!! dá-se o reencontro ! e a estadia que se virá a tornar num autêntico inferno para todos !!! yesssssss yeahhhh !! )



Continua...( mary olha pra tudo maravilhada, ao entrar em sua casa, como se fosse a primeira vez, a velha a olha com alegria ..«avó ! ..m-mary ?? diz esta incrédula . o seu ar fanatsmag´rotico se enche de vida novamente)




















































Posted by hero/moon_river at 12:08 PM EST
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