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"Tiros em Columbine":
um filme para todos
Confesso
que nunca tinha ouvido falar em Michael Moore até antes da cerimônia
do Oscar desse ano. Em um discurso cheio de ironia, raiva e, acima de
tudo, bom senso, o cineasta que levou a estatueta de melhor documentário
em "Tiros em Columbine" (Bowling for Columbine) desabafou:
"Vivemos em tempos de ficção com resultados fictícios
de uma eleição que elege um presidente fictício.
Vivemos num tempo no qual temos um homem que nos envia para uma guerra
por motivos fictícios". Ao escutar as palavras daquele homem
esquisito, embora surpreendente, não houve como deter a curiosidade
para assistir a "Tiros em Columbine".
Foram os R$ 6 mais bem gastos da minha
vida. O filme, dirigido e narrado por Moore, mostra de forma crítica
e engraçada o (triste) fato de os americanos serem fascinados
por armas de fogo. O cineasta argumenta, com competência, que
esse "amor" pelas armas é uma conseqüência
natural da cultura do medo que assola a terra do Tio Sam. Com base nesta
constatação, Moore questiona a origem desta cultura e
começa buscando respostas no interior dos Estados Unidos, onde
boa parte dos moradores tem armas em casa (o cineasta entrevista um
sujeito que chega a guarda uma Magnum 44 embaixo do travesseiro).
O documentário se inicia com a
exibição de imagens de uma manhã comum nos Estados
Unidos, onde pessoas calmamente se dirigem ao trabalho, intercaladas
com cenas de bombardeios norte-americanos. Em seguida, o diretor nos
faz descobrir que em uma cidade dos EUA, ao se abrir uma conta em um
banco, ganha-se uma arma de "brinde". A partir daí,
Moore nos mostra como vários americanos são ignorantes,
racistas, frios e medrosos. E o faz com exemplos "históricos".
Entre eles o caso de abril de 1995, no estado de Oklahoma, onde dois
jovens católicos de classe média explodiram uma bomba
dentro de um caminhão estacionado em um prédio, matando
169 pessoas. Outro exemplo narrado em "Tiros em Columbine"
é o do acidente que culminou na morte da menina Kayla, de 8 anos,
causado por um menino que encontrou uma arma na casa do tio com quem
havia passado a noite anterior, já que a mãe, por participar
do programa de governo "Welfare to Work", tinha que trabalhar
até tarde e não podia deixar o filho sozinho.
Esses casos são apenas uma espécie
de introdução para a história principal do filme,
que narra o caso do colégio Columbine, em Colorado, onde dois
adolescentes, depois de assassinar 13 colegas de escola e ferir outros
23, cometeram suicídio. Moore divide a responsabilidade pela
"chacina" entre a política dos EUA, a indústria
bélica, a NRA (Associação Nacional do Rifle) e,
evidentemente, a mídia, que aliada ao governo só faz com
que as pessoas não pensem e só se "divirtam".
Um exemplo disso foi a crítica, mostrada por Moore, ao cantor
Marilyn Manson, tido por muitos como uma má influência
sobre os jovens americanos. Brilhantemente, diz Manson, em sua defesa:
"Ninguém culpou o então Presidente dos EUA, Bill
Clinton, quando bombardeou países e pessoas indefesas. No dia
de Columbine, os EUA mataram muita gente em Kosovo e o que fez a mídia?
Nada. Os dois jovens que cometeram o massacre de Columbine jogaram boliche
antes do acontecido. E ao boliche, não é atribuída
a culpa? Preferem atacar a mim, que sou uma figura da qual vários
têm medo. E onde está a ética do jornalismo?".
A discussão entre Moore e o porta-voz da NRA, o ator Charlton
Heston, é outro ponto alto do filme. Heston, defensor do porte
livre de armas, é silenciado pela boa argumentação
de Moore e acaba se retirando de cena, irritado.
Entretanto, a melhor seqüência
de "Tiros em Columbine" é um histórico que Moore
faz das ações diretas e indiretas dos EUA em outros territórios,
começando com o golpe militar no Chile e terminando com a derrubada
das torres gêmeas do World Trade Center. Tudo isso ao som de "What
a wonderful world", de Louis Armstrong. Enfim, toda a genialidade
desse filme - que ainda conta com a participação especial
do premiado comediante Chris Rock - deveria ser contemplada por todos,
em especial aqueles que têm o hábito de ir ao cinema apenas
para "se divertir"
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Quero
meu dinheiro devolta !!! |
Nem Jason e James
Bond são tão indestrutíveis quanto as panteras
Começarei esta crônica com um silogismo
tosco. Cinema é arte. Arte é uma representação,
uma expressão da vida. Portanto, cinema é vida. Simples,
não? Bem, para a maioria, infelizmente, não é tão
simples assim. Para muitos, "cinema é a maior diversão".
Este perigoso e absurdo slogan inserido na mente das pessoas tem sido
o argumento usado pelos produtores (seja de Hollywood ou seja da programação
da tv brasileira) para se produzir somente filmes (programas, no caso
do Brasil) que sejam "divertidos". Nada de história,
nada de filmes que mostrem a realidade da vida, nada que estimule o
pensamento. Até porque isso leva tempo e afinal, "tempo
é dinheiro".
É o caso do filme "As Panteras 2:
Detonando" (Charlie's Angels 2). Os produtores preocuparam-se apenas
com mulheres bonitas (que nem são tão bonitas assim -
não se enganem quanto à maquiagem e as falsas curvas de
Cameron Diaz. Já Drew Barrymore só está no filme
porque é uma das produtoras. Apenas Lucy Liu é realmente
linda) Preocuparam-se também com efeitos especiais (usados excessivamente)
e piadas (sem graça). E não nos esqueçamos do marketing
em torno desse produto, digo, filme. É lógico que houve
preocupação quanto a isso, pois somente por influência
da mídia (tv, propaganda, rádio, jornal e etc.) e por
falta de bom senso, é que alguém pode ir assistir a um
filme desses e, pior: ainda achá-lo bom.
Logo nos primeiros minutos de As Panteras 2,
percebi que tinha gastado R$ 3 (mais a passagem) da pior forma possível.
Mas como tinha que fazer a crítica para o Arte Carioca, não
poderia deixar de ter visto esses 120 minutos de idiotice. O filme começa
em um bar onde as detetives arrumam uma confusão com cerca de
50 homens e, obviamente, saem ilesas. Eles as perseguem com um tanque
e, "do nada", aparecem do outro lado de uma ponte de onde
atiram com uma bazuca no caminhão das meninas. Elas jogam o caminhão
- que carrega um helicóptero - contra a ponte, cuja altura é
semelhante a da Rio-Niterói. Antes de serem atingidas e ao caírem,
elas voam em direção ao helicóptero (isso mesmo:
elas voam! E olha que não é nenhuma crítica à
realidade como em Matrix) conseguindo ligá-lo e direcioná-lo
para casa, tudo em apenas alguns segundos.
Por aí, dava para perceber o que o filme
traria. Um pouco depois o trio resolve ir à praia (a magreza
de Cameron dá aflição) para um campeonato de motocross
(do qual o personagem de Rodrigo Santoro participa e também voa
- exatamente, Rodrigo Santoro voa!). Desse insólito campeonato,
a ação passa para uma reunião de ex-estudantes
onde, "do nada", o personagem de Cameron (junto com os demais
ex-alunos que não se viam há anos) começam a dançar
de forma totalmente coreográfica. Depois saem, nuas, de dentro
de uma pedra (isso mesmo que você leu) antes de lutarem com 15
homens tão fortes quanto Schwarzenegger e pular, depois, sãs
e salvas, para uma pré-estréia de cinema. Tudo muito rápido
como um clip - a melhor definição de As Panteras 2. Aliás,
o desejo de se vender a trilha do filme é nítido. Embora
tenha boas canções, estas nada têm a ver com a história
(até o tema de "Flashdance" é executado).
Mas o filme, que abusa de participações
especiais (Bruce Willis, as gêmeas Olsen, a rapper Eve e a cantora
Pink, entre outras) tem duas coisas boas. Primeiro, Demi Moore que,
acreditem, está bem no filme. A atriz que já teve boas
atuações como em "Ghost", "Assédio
Sexual" e "O preço de uma escolha", faz uma ex-Pantera
de técnica superior a das atuais que se virou para o "mal"
não se sabe porquê. O personagem de Diaz fala somente que
era porque a outra não "tinha amigas", mas acredito
que o personagem de Moore possuía uma complexidade maior que
não foi explorada, uma vez que o roteiro já estava repleto
de efeitos, bundas e peitos. E finalmente, a aparição
mais que especial de Jaclyn Smith interpretando a Angel original Kelly
Barrett da (ótima) série dos anos 80, que deu origem a
esse filme (série esta que ainda tinha Kate Jackson e a deusa
Farrah Fawcett-Majors). Ao contrário de Moore, Jaclyn Smith mostra
que a velhice só lhe fez bem: continua linda e mostra, em três
minutos de cena, a sensualidade que sempre teve e que as atuais Panteras
não conseguiram mostrar nos dois filmes.
Não pretendo contar o final do filme
(mesmo porque não há final, nem início ou meio),
mas a não tenho como não comentar a tão esperada
luta do personagem de Demi Moore contra as Panteras. O personagem de
Moore tem a possibilidade de matá-las, mas, infelizmente não
chega a fazê-lo. Ela consegue até torcer o pé do
personagem de Barrymore, mas esta sai andando, sem sequer mancar, como
se nada tivesse acontecido. Enfim, isso é a tal diversão
que os produtores tanto queriam e conseguiram. Muitos adolescentes apaixonados
por lutas e/ou Rodrigo Santoro (será que isso aconteceu só
na sessão em que estava ou as meninas gritaram desesperadamente
e pateticamente em todas as sessões?) deram aos produtores, atores
e o diretor, tudo o que eles queriam: dinheiro.
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