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Sofrimento no Cristianismo

Porque os Santos sempre querem sofrer? Será que amor e sofrimento vão sempre juntos?

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nossa religião tem por sinal a Cruz, que traçamos sobre nós em sinal de nossa Fé em um Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. Traçamos esse sinal da Cruz sobre nós para significar que aceitamos a Cruz, isto é, o sofrimento que Deus quiser nos mandar em nossas vidas.

São Luís de Montfort mostra que, no Calvário, havia três cruzes: a de Cristo e as dos ladrões, para nos ensinar que todos os homens sofrem.

Sofrem os inocentes, como Cristo. Sofrem os pecadores arrependidos, como o bom ladrão. Sofrem os pecadores empedernidos e revoltados, como o mau ladrão.

Todos sofrem. Todos sofremos.

De fato, é impossível nesta vida não sofrer, porque se nossa vida é um grande bem e é muito boa, sofremos pelo fato de que sabemos que podemos perdê-la a qualquer momento, e que iremos perdê-la, sem dúvida, um dia.

A felicidade exige, para ser completa, absoluta segurança, que não existe nesse mundo.

Definindo a felicidade do céu em versos sublimes, Dante Alighieri -- que tem muita coisa má -- escreveu:

"Oh gioia ! Oh ineffabile allegrezza !

Oh vita integra d'amore e di pace !

Oh sanza brama sicura ricchezza !

("Oh júbilo ! Oh inefável alegria !

Oh vida íntegra de amor e paz !

Oh, sem desejos, segura riqueza ! ")

Repare no último verso: a felicidade absoluta exige a posse do bem absoluto - o que nos tira todo desejo novo -- e a posse desse bem absoluto deve ser com segurança perfeita e inexpugnável.

Ora, nesta vida não podemos ter isso. Logo, uma felicidade sem Cruz, nesta vida é impossível.

E vamos então ao âmago de sua pergunta: por que o sofrimento?

Deus criou o homem em estado de inocência e santidade, e o colocou no paraíso terrestre, no Éden de que fala a Sagrada Escritura, para uma prova.

Obedecendo, ele teria a felicidade absoluta "sanza brama, sicura ricchezza" como diz Dante.

Adão pecou, e com o pecado veio o sofrimento como castigo. O primeiro, e mais duro, a morte. Depois, todos os demais males: a doença, a ignorância, a pobreza, as contradições, etc.

Deus, porém, bondosamente, quis devolver ao homem o que ele havia perdido. Por isso prometeu um Salvador que pudesse pagar a dívida do homem.

Qual era essa dívida? Desobedecendo a Deus, Adão e Eva haviam cometido um grande mal.

Toda ofensa é proporcional à dignidade da pessoa ofendida. Se dou um tapa no rosto de um bebê, ele só chora pela dor, mas não compreende a ofensa. Se dou o mesmo tapa num adulto, ele sofre mais com a injustiça e o insulto do que com a dor física do golpe recebido. Se dou o mesmo tapa numa moça, porque ela normalmente é mais fraca, para evitar represálias, acrescento malícia ao meu ato. Se a mulher em que bato é uma velha, a culpa cresce. Se essa velha é minha própria mãe, a culpa cresce ainda mais. Portanto, a culpa cresce em proporção da pessoa ofendida.

A culpa de Adão era então proporcional a quem ele ofendera. Ora, o ofendido fora o próprio Deus infinito. Logo a culpa de Adão foi infinita e merecia um castigo infinito. A única coisa que podemos fazer de infinito é o pecado.

Todos os pecados que praticamos merecem castigo infinito. É por isso que, quem morre em pecado grave, vai para o inferno eterno, que é como um infinito no tempo.

Dir-me-á você que o pecado de Adão, comendo o furto proíbido, lhe parece uma coisa infantil.

Se dissesse isso você estaria se enganando totalmente.

Se examinar de mais perto o pecado de Adão verá o quanto ele foi grave, porque cheio de malícia.

Em primeiro lugar, Adão desobedeceu conscientemente, e não como uma criança. Ele sabia que devia o ser, a vida e tudo a Deus, e apesar disso, como ingrato e rebelde desobedeceu. Em segundo lugar, é preciso analisar qual a razão dele para desobedecer. E a razão é que ele acreditou no demônio que lhe dissera ser Deus mentiroso, e que comendo o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ele se tornaria como Deus, auto suficiente. Portanto, ao aceitar o que lhe disse o demônio sob a forma de serpente, Adão chamou Deus de mentiroso, cometendo uma blasfêmia. Querendo tornar-se como Deus -- de certa forma igual a Deus -- Adão pecou por um orgulho quase que infinito.

Ademais, Adão sabia que comendo aquele fruto ele apenas o digeriria. Como podia esperar então obter um efeito infinito - tornar-se como Deus - apenas comendo um fruto ? Adão sabia que todo efeito tem que ser inferior à sua causa.

Como então esperava alcançar um efeito infinito de uma causa -- o fruto proibido -- finita? Adão cometeu portanto um ato de magia, que consiste exatamente em querer alcançar efeito maior de causa menor. Ora, Adão sabia que isto era impossível. Ele confiou então que o demônio o tornaria Deus, ao lhe dar o sinal que aceitava o seu auxílio, e o sinal foi comer o fruto proibido.

Portanto, o pecado de Adão foi de satanismo, por pedir e rogar a Lúcifer uma coisa, em vez de pedí-la a Deus, nosso Senhor.

Haveria que explicar ainda que o pecado de Adão foi de praticar a Gnose, mas isto levaria a explicação longe demais e não sei se lhe seria útil.

De todo modo, Adão mereceu um castigo infinito que não podia pagar, porque o mérito do homem, ao contrário da culpa, é sempre finito, já que depende apenas de nós que somos finitos.

Para pagar a dívida de Adão era preciso um mérito infinito que só Deus pode ter.

Portanto, o homem jamais poderia se salvar e jamais poderia recuperar a felicidade absoluta que perdera.

Deus, então, por sua infinita bondade, solucionou o problema. Determinou que seu Filho, o Verbo de Deus, se tornasse homem. Este foi Jesus Cristo, Filho de Deus, Sabedoria de Deus encarnada. Jesus é Deus e homem. Ele tem duas naturezas numa só Pessoa, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho.

Sendo Deus, Ele tem Inteligência e Vontade divinas. Sendo homem perfeito, Ele tem corpo e alma como nós. Sua alma humana tem inteligência humana (por isso aprendeu a falar), vontade humana, e sensibilidade. Ele também tem corpo como o nosso. E tem só uma Pessoa em duas naturezas.

Sendo Deus, tudo o que Ele fazia tinha valor infinito. Sendo homem, assumindo a culpa de todos os nossos pecados, Ele pagava nossas culpas. Por isso Deus se encarnou, para sofrer o castigo que devia cair sobre nós. Ele tomou a responsabilidade de meus pecados e dos seus pecados, meu caro H.. Quando somos batizados, aceitamos que os sofrimentos e o sangue dEle paguem nossas culpas.

Ele nos deu assim o exemplo de um amor infinito, que devemos imitar.

Se compreendemos o quanto somos maus, e o quanto merecemos ser punidos, aceitamos todos os sofrimentos que Deus nos dá. Se compreendemos como Deus nos ama, querendo sofrer em nosso lugar, quereremos imitá-lo, sofrendo também no lugar dos outros, para que Deus os perdoe.

Na verdade, todo bem que recebemos, só o recebemos porque alguém sofre por

nossos pecados.

Assim é nosso Deus. Assim também devem ser seus filhos.

A felicidade, mais do que no gozo dos bens, consiste em amar tanto os outros que aceitemos sofrer para que eles sejam felizes.

Se você tem filhos, compreenderá perfeitamente isso. Se tem ainda seus pais, comprenederá que a sua felicidade será maior quando der felicidade a eles, mesmo -- e principalmente -- com o seu sofrimento.

Mais ainda. Os bens que podemos ter neste mundo são de três tipos:

1) Bens materiais: riquezas, prazeres;

2) Bens imateriais, como prêmio de nossas ações valorosas e de nossos trabalhos, como as honras, o prestígio e a consideração;

3) Bens intelectuais, como o saber.

Ora, nenhum desses bens nos dá felicidade perfeita, porque eles passam.

Dinheiro e riquezas não nos dão felicidade completa, mas só inquietações, porque são bens que embriagam como vinho, e caixão, meu caro H., não tem gaveta nem cofre. (Uma vez ouvi uma canção que dizia que duas pessoas muito pobres eram tão felizes que faziam brindes com os copos cheios de água! O "vinho" da felicidade está na taça de nosso coração. Certamente, o senhor não é a pessoa mais rica do mundo, e já teve momentos de felicidade. Estes não lhe vieram da riqueza).

Os prazeres são fugacíssimos e frustrantes para quem neles põe o fim de sua vida. Veja, tantos artista de cinema, astros de qualquer tolice moderna, cheios de dinheiro e de prazer, que se matam de desespero e de infelicidade (Marilyn Monroe e Elvis Presley são dois exemplos bem conhecidos).

Honra, glória e prestígio de pouco valem neste mundo. Quando Napoleão -- um homem que recebeu honras, prestigío e glória como ninguém neste mundo) -- certa vez era ovacionado pela multidão num desfile, o embaixador da Dinamarca -- lugar que nunca teve grande prestígio -- comentou para o Imperador francês: "Majestade, isso é que é glória!"

Ao que Napoleão respondeu: "Excelência, os homens se vingam dos aplausos que nos dão". E Napoleão morreu no exílio, numa ilha perdida no Atântico...

O saber, embora permaneça em nós enquanto não ficamos esclerosados e caquéticos, só vale se é transmitido aos outros. O saber é como uma canção: só vale se é dada aos outros, se é cantada para os outros. De que nos vale saber muito, se não praticamos o que sabemos que é certo, e se vivemos, por isso em contradição, condenados por nosso próprio saber? O saber só vale com a caridade, com o amor a Deus e ao próximo. A felicidade consiste em dar e não em receber.

Por isso, neste momento em que lhe escrevo, sou feliz porque estou lhe passando o pouco que sei e que tenho.

Maior seria a felicidade, se, para lhe fazer bem, tivesse que fazer algum sacrifício. Porque então seria como Cristo, que por amor de nós sofreu tanto.

Todos os bens terrenos são pouco - que digo! - são nada, quando comparados com o bem infinito que é a posse de Deus. Só temos felicidade no dever cumprido, e cumprido com sacrifício.

A carta vai longa, e creio estar parecendo fazer sermão. E haveria tanto a lhe dizer ainda sobre isso. Mas, para dizer-lhe mais, seria preciso conhecê-lo e conhecer seus sofrimentos. Isso exigiria uma confiança que só o conhecimento direto e pessoal permitiriam e que a Internet não dá.

Quem sabe, um dia nos encontremos e conversaremos.

Entrementes, lhe recomendo ler uma excelente obra sobre esse tema: "A carta circular aos amigos da Cruz", de São Luís de Montfort.

Para encerrar, cito uns versos lindos de Camões:

"Tu, que descanso buscas com cuidado,

no mar desta vida, tempestuoso,

não esperes achar nenhum repouso,

senão em Cristo jesus crucificado "

Como o vê, foi impossível falar da cruz e do sofrimento sem falar do crucificado, "Gesu dolce, Gesu amore..." como dizia Santa Catarina de Siena. E più non dicco...

In Corde Jesu, semper,




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