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CONTOS


Escusas Negociações


Cristiana, da porta de casa, avisa para sua mãe que está indo para rua.

"Mãe, vou na padaria. Daqui a pouco eu volto."

Ela anda pela rua, entrando na padaria. Pega alguns chicletes, uma lata de refrigerante e um sorvete e vai para o caixa. A fila está grande. Cris vê o cara à sua frente segurando uma sacola e uma lata de cerveja na mão. Uma confusão se inicia no caixa. Cris tenta ver o que se passa. Ela vê um homem com uma arma apontada para a caixa.

"Aí, mocréia, vai passando o dinheiro!" - o ladrão brada furioso com a moça do caixa.

"Ai, de novo? Já é a décima vez neste mês!" - a caixa se desespera, catando rapidamente as notas.

"Ih, é um assalto." - Cris exclama, sem perceber o vulto ao lado do bandido, segurando uma enorme sacola. O bandido, após assaltar o caixa, vê o tal vulto segurando a sacola.

"Ei, você! Deixa eu ver o que você tem dentro dessa sua sacola aí!" - o bandido ordena o vulto.

"Ah, sim, claro..." - o vulto atende prontamente o pedido do bandido, revelando o conteúdo mortal de sua sacola. O golpe é tão rápido que mal se pode ver a arma que empunha: uma tonfa, que atinge certeira a mão do meliante. Segue-se um outro golpe que atinge violentamente o seu estômago.

Cris observa a cena. Saindo das sombras, o vulto se revela um rapaz de porte atlético em trajes militares. Seus cabelos são negros e compridos, presos por um elástico.

"Cuidado com o que você deseja; você pode conseguir!" - ameaça o rapaz, apontando sua tonfa na direção do bandido. - "Eu não tenho a menor piedade de pessoas como você! Me dê um motivo para eu não quebrar a tua cara!"

Cris se aproxima do rapaz, aparentando um misto de medo e fascínio: - "Ei! Vá com calma, acho que ele já aprendeu a lição!"

"Calma? Esse verme não tem amor pela própria vida, teria ainda menos pela sua. Ele poderia ter acabado com você sem nenhum remorso!" - retruca ferozmente o misterioso personagem, ainda segurando firmemente sua arma.

"Você não precisa agir que nem ele. Agora que a situação está controlada, vamos deixar o resto com a polícia." - responde Cris, tentando pacificar o sujeito.

"Ha, ha, ha, ha!" - ele gargalha repentinamente, de maneira escancarada, alterando por completo seu semblante. - "Tem razão! Não vou me rebaixar ao nível desse lixo!"

"Não se preocupem, a polícia já está a caminho!" - diz a moça do caixa para eles.

"Nossa, isso foi demais! Nunca vi ninguém lutar assim. Você salvou nossas vidas! Como posso te retribuir, er... Hã... Mas qual é o seu nome mesmo?" - pergunta Cristiana, com brilho nos olhos.

"Ah, tá tranqüilo, isso não foi nada!" - o rapaz prossegue com sua conversa, sorrindo para Cristiana.

Colégio FSH. Os alunos se divertem no pátio do colégio. Alguns metros dali, num local discreto e pouco movimentado, uma excusa negociação se desenrola.

"Aí, Turco, sabe aquela `parada boa´ que tu prometeu pra gente? Cadê ela? Tu 'tá enrolando, Turco, 'tá enrolando!" - fala Nelson em tom ameaçador, encostando o dedo no peito do tal do "Turco". A dupla que o acompanha trata de tornar ainda mais ameaçador seu questionamento.

"Relaxa aí, o 'play'! Eu prometi, e promessa pra mim é questão de honra! Eu estou trocando umas idéias com o chefe, ele consegue arrumar um preço bem especial para vocês!" - responde o Turco.

"Aí, rapá, dá teu jeito aí. Sabe que, com a gente, o pagamento é 'à vista', 'sá-coé'?" - diz Daniel, que está no grupo de Nelson. Pedro completa o grupo dos 'playboys'.

"'Xá comigo, 'xá comigo! Às coisas ficaram meio difíceis por aqui. Vocês sabem, né? Desde que a "olhinhos puxados" chegou, meu comércio aqui no colégio encrencou! Mas eu vou dar meu jeito, pode deixar!" - se justifica Turco.

O Turco possui uma fala com sotaque pesado, denunciando uma decendência estrangeira. Apesar de tratar de "negócios excusos" às escondidas ali no Colégio, sua aparência é de um garoto metido a conquistador barato. Utiliza uniformes em jeans, como jaqueta e bermudas, com alguns rasgos estéticos para dar um ar rebelde. Seus cabelos são negros em estilo "dread".

Os playboys e Turco saem do canto onde se esconderam. Andando em direção ao campinho, eles observam Roberto e Vinicius conversando.

"Ih, olha lá! Aqueles dois babacas lá da boate!" - diz Pedro, apontando na direção deles.

"Podicrê, maluco! Aí, que que vocês acham da gente trocar umas idéias com eles lá?" - diz Nelson, com seu jeito marrento.

"Psiu, psiu, aí, disfarça, disfarça! Olhaí, aqueles caras lá da boate que não pegaram ninguém!" - diz Pedro junto de seu grupo, aproximando-se de nossos heróis.

"Podicrê, maluco! Aí, "sangue-bão", chega junto, queremo' trocar uma idéia com vocês!" - continua Nelson.

Roberto e Vinicius vêem os playboys se aproximando deles, e decidem acelerar o passo, tentando evitar um conflito.

"Psiu, Roberto! Disfarça, finge que não está ouvindo!" - sussurra Vinicius, acelerando o passo.

Os playboys decidem acelerar o passo também para alcançar os dois.

"Aí, vocês não desgrudam um do outro? 'Tão sempre juntinhos" - provoca Daniel.

"Podicrê, maluco! Deve ser por isso que nunca pegam ninguém" - instiga Pedro.

Roberto se irrita e tenta se virar para responder ao grupinho, mas é impedido por Vinicius. Enquanto seguem seu rumo, o trio insiste com as provocações.

"Côé, camarada! Cheguem mais aí, a gente quer falar com vocês! 'Tão com medinho, é?" - diz Nelson, desta vez, em um tom ameaçador.

"Ih, caramba! As mocinhas tão com medinho da gente...." - continua Daniel.

"Aí, Vini! Esses caras tão abusando. Na próxima, eu não vou me segurar!"

"Côé, cumpadí, 'tá bolado por causa da surra que levou da gente?"

Sentindo a mão de Nelson em seu ombro, desta vez, é Vinicius quem perde a paciência com a provocação.

"Agora chega! Vocês tão abusando! Eu não queria arrumar confusão com vocês de novo, mas vocês estão pedindo" - Vinicius aplica uma torção no pulso de Nelson, e vira na direção deles. O trio fica surpreso com a reação inesperada de Vinícius.

"Coé, cara? Tá maluco?! - grita Nelson. Os playboys cerram os punhos e envolvem a dupla prontos para o confronto. Pedro toma a iniciativa de ajudar Nelson a se livrar de Vinícius aplicando-lhe uma gravata. Era o sinal de que Roberto precisava para finalmente extravasar sua raiva. Em um movimento rápido, ele desfere um potente soco no rosto de Nelson, o que provoca uma reação em cadeia que termina por incluir Daniel na briga. Roberto é atingido por trás inesperadamente e vai ao chão.

A desvantagem numérica de nossos heróis começa a se mostrar problemática. Vinícius devencilha-se de seu agressor com uma cotovelada no estômago e parte pra socorrer Roberto. Valendo-se de golpes rápidos e certeiros, o rapaz acerta Daniel desequilibrando-o. Nelson aproveita-se da vulnerabilidade de Vinícius para levá-lo ao solo e sufocá-lo. Roberto vê-se então acuado pelos outros dois. Parece não haver saída para a dupla. A confusão começa a chamar a atenção ao seu entorno. Quando parece tudo perdido, surge um terceiro combatente para equilibrar a luta. É Sérgio, que parte com tudo acertando golpes em seqüência nos seus três adversários. De súbito, fica evidente que a vantagem do combate inverte-se. Os alunos do FSH jamais haviam assistido a evolução mais violenta e eficiente de chutes e socos. Nem alunos nem professores...

"Desculpem eu acabar com o recreio de vocês, crianças", anuncia a habitualmente impassível professora Shen. O silêncio se instaura no pátio do colégio ante aquela presença austera. Simultaneamente, a agitação da luta cede lugar à imobilidade de todos os brigões, sem exceção.

"Vocês cinco, voltem pras suas salas imediatamente. Conversarei com vocês mais tarde. O cabeludo vem comigo até meu gabinete". Quem antes via seis ferozes leões, agora enxerga apenas seis mansos vira-latas com seu rabinhos entre as pernas.

A sala da coordenadora pedagógica tem uma decoração de estilo oriental, com lanternas de papel coloridas com ideogramas, que projetam luzes suaves pelo ambiente. O perfume tênue de incenso preenche o recinto. Estatuetas de motivo chinês decoram a mesa e algumas prateleiras recheadas de livros. Dentre várias plantas, um botão de lótus se destaca perto de duas poltronas confortáveis.

Sérgio segue a senhorita Shen e senta-se na poltrona tomado pelo aroma exótico. Shen entrega-lhe uma xícara de chá e toma outra para si. Sérgio olha para o chá com desconfiança, sentindo o aroma pungente eexcêntrico. Aproveitando enquanto Shen se vira para sua poltrona, Sérgio esvazia sua xícara no vaso do botão de lótus.

Pois bem, meu rapaz. Qual é o seu nome mesmo?” - questiona Shen.

Ãhn... Sérgio.” - responde Sérgio, apreensivo.

Vamos falar sobre o ocorrido no pátio do Colégio?” - Shen pergunta, de maneira austera.

O que aconteceu é que eles começaram e eu fui o único a vir parar aqui neste templo para ser punido.” - Sérgio demonstra sua indignação com o ocorrido.

Em primeiro lugar, não vim punir você!” - Shen explica, sem remover sua expressão impassível de seu rosto. - “Trouxe para fazer algumas perguntas. Por exemplo: o quê o levou a entrar na briga?”

O que você acha? Fui defender meus amigos! Vou deixar eles apanhando?” - Sérgio se justifica com seu jeito costumeiro de resolver as coisas.

Com que freqüência você entra em brigas?” - Shen prossegue com suas perguntas.

Brigo só quando é necessário.” - Sérgio responde com firmeza.

E por que acha que era necessário?”

Porque eu era o único que podia ajudar.”

As melhores intenções nem sempre tem as melhores direções. Por que você acha que foi o único a ser chamado em meu gabinete?”

Não sei. Porque eu era o mais bunitinho?” - Sérgio ironiza, tentando manter firmemente sua razão.

A professora ignora friamente e prossegue imediatamente: “Soube da confusão que você participou já no seu primeiro dia de aula, quando se envolveu sozinho com um criminoso. Ouvi relatos sobre a violência que usou contra ele, como se houvesse um brilho furioso em seus olhos.

Shen fica pensativa, enquanto Sérgio começa a ficar nervoso de verdade, com o último discurso da professora.

Hm... Aquela energia que eu senti vindo das árvores...” - Shen pensa, observando o cenário de sua janela. - “Será que podia ser ele? Não sei, apesar de tudo, ainda sinto uma certa inocência da parte dele.”

Pois bem, vamos terminar por aqui. Mas você vai voltar semana que vem, certo, rapaz?” - Shen conclui sua conversa.

Er... Shi-shin, shenhorita Shen!” - Sérgio responde, ainda apreensivo com a presença e os questionamentos da professora. Mesmo assim, consegue encontrar espaço para suas piadinhas debochadas.

Que bom! Ah, e mantenha-se longe das brigas, viu?” - completa Shen, antes do Sérgio sair da sala, a professora, finalmente esboçando um sorriso amigável.

Fim de tarde no colégio FSH. O mesmo canto discreto e pouco movimentado onde os playboys haviam se reunido com o Turco anteriormente, agora bem mais obscurecido, volta a ser palco de um novo encontro.

Aí, Turco, o negócio é o seguinte!” - Nelson se dirige à Turco, seus amigos todos atrás dele. - “Tu presenciou o que aconteceu aqui, sa'coé? Então, acho que tu já sabe que aqueles camaradas tão pedindo!”

Sim. E aí, o que vocês querem?” - pergunta Turco para eles, seu sorriso no rosto já antecipa a resposta.

Chama teus colegas aí. Podem dar um trato 'bunito' neles!” - responde Nelson. Os playboys todos sorriem nefastamente.

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