| O governo está falando
muito, mas não cumpre: comandantes do EZLN Hermann
Bellinghausen. La Jornada, 5 de fevereiro de 2001.
Acompanham David, outros quatro comandantes tzotziles do CCRI: Javier, Amalia,
Moisés e Daniel. O primeiro deles (Javier) sublinhou: "O Exército federal não
está saindo das nossas comunidades. O governo tira um acampamento de um lugar e o
Exército coloca mais um em outro lugar. Tiram postos de controle e logo em seguida ficam
simplesmente à beira do caminho. O governo fala muito, mas não está cumprindo nem com
os sinais que pedimos e nem com a sua palavra".
Os comandantes David e Javier integram a delegação de 24 zapatistas que sairá de
San Cristóbal de las Casas no próximo dia 24 rumo à capital da república para
apresentar-se diante do Congresso da União. Durante o percurso, os chefes rebeldes
atravessarão dez Estados e participarão do Terceiro Congresso Nacional Indígena, no
povoado de Nurio, Michoacán.
"Nós zapatistas queremos a união, num encontro direto com os povos",
afirma o comandante David diante de um casebre nos arredores do Aguascalientes de Oventic,
antes de expressar que o EZLN vê "com admiração a luta do Congresso Nacional
Indígena, por isso respeitamos todos os seus membros e vamos nos encontrar com
eles". - O que esperam os
zapatistas da viagem de uma sua delegação à Cidade do México?
"Temos a esperança de que será de muita serventia para a nossa luta e para
todos os povos indígenas do México. Com ela podemos conseguir alguma coisa. A razão
principal não é outra a não ser exigir o cumprimento dos Acordos de San Andrés,
presentes no projeto de lei da COCOPA. Sabe-se que Vicente Fox já o mandou ao Congresso
da União, mas ainda não foi aprovado. Vamos pedir ao governo e ao Congresso que cumpram
com o seu dever com os povos". "Estamos demonstrando vontade política, pois
queremos que os nossos problemas sejam resolvidos de verdade. O povo espera
resultados" - acrescenta.
O comandante David, que foi o coordenador da delegação do CCRI-CG do EZLN ao
longo de todas as negociações em San Andrés com os enviados do governo de Zedillo
(1995-1996), aponta com simplicidade: "Vamos ver se é possível pela via
política". E pondera: "A situação
do país continua bastante complexa. O fato de ter um novo governo, não quer dizer que
tenham sido solucionados os problemas que deram origem ao nosso levante como zapatistas.
Os povos indígenas não vêem solução, sua vida continua cada vez pior. Pobreza, fome,
doenças. É disso que também estão sofrendo outros que não são indígenas".
"Pensamos que a viagem de uma delegação zapatista poderia ajudar em alguma
coisa, levar forças aos nossos companheiros de outros Estados. O que reivindicamos não
é só para nós, é para todos. Com este esforço queremos animar os povos, muitas
pessoas. Arriscamos a nossa própria segurança pela nossa decisão de que isso sirva para
os povos. Sobretudo os indígenas que vivem em condições tão precárias. Procuramos uma
mudança e uma melhora. Acreditamos que vale a pena arriscar".
"Não temos total segurança de que a sociedade vai atender ao nosso chamado -
diz com cautela -, mas a nossa esperança é que o povo já entendeu que nossas
reivindicações são justas".
A receita foxista de "fusca, teve e mercearia", David - vestido como um
camponês, sem o tradicional chuj, o rosto coberto por um lenço e não pelo habitual
passamontanhas - retruca: "É isso que Vicente Fox vem dizendo desde a sua campanha,
mas a realidade não é simples assim. O problema não é nada fácil, e uma solução
profunda começa pelo cumprimento dos Acordos de San Andrés".
"Os acordos contém os pontos fundamentais para que os povos indígenas possam
tomar sua própria iniciativa, para decidir como querem viver, trabalhar, serem tratados,
como ser parte de uma grande nação e colaborar com o seu desenvolvimento. Por isso,
falamos de direitos, de nossas culturas, de autonomia, de livre determinação. Nós,
povos indígenas, não temos tido essa oportunidade de viver a liberdade".
Diante da propaganda do novo regime, no sentido de que o país é outro, e já há
democracia, o chefe zapatista (David) se mostra céptico: "Já não podemos nos
conformar com palavras bonitas e discursos que não mudam as coisas. Não podemos ficar
calados se no México continuamos vendo a mesma miséria, a violência. Nossos povos vão
continuar falando e protestando".
À pergunta sobre a situação atual do cerco militar e se as comunidades têm
percebido algumas mudanças após a posse dos novos governos federal e estadual, Javier
responde: " Assim como o EZLN tem pedido ao governo um sinal claro de que tem
realmente vontade de cumprir com a sua palavra, até agora ele não cumpriu com a retirada
das sete posições. Faltam ainda três, e também os outros dois sinais continuam
pendentes. Em nossas comunidades não se pode dizer que o Exército federal tenha se
retirado nem um tantinho assim".
"As comunidades têm sofrido muito. Não estamos livres para trabalhar e para
andar pelos caminhos. Com sua presença, os militares pressionam, provocam problemas de
alcoolismo e droga, transformam seus quartéis em casas de prostituição, trazem
doenças, contaminam a água, sujam nossas terras".
"Além disso, eles organizam camponeses como nós para colocá-los contra seus
irmãos. São os grupos paramilitares que se sentem protegidos quando têm os militares
por perto". - O governo garante que
não há provas da existência dos paramilitares - se dá a entender a Javier.
"Está claro que são eles a armá-los e organizá-los, ainda que nem sempre
façam isso diretamente. Aproveitam que há indígenas que não entenderam a luta dos
zapatistas, estão confusos sobre o que é conveniente para eles enquanto povos
indígenas. Se os Acordos de San Andrés chegarem a ser cumpridos, pouco a pouco eles
também vão entender que é em seu benefício. Temos clareza de que a nossa causa é
justa".
David, que leva a maior parte da conversa, anima o seu tom de voz: "Esta
saída e todo o percurso serão um novo encontro com os povos do país. Já fizemos isso
com a marcha dos mil 111 e com os 5 mil da consulta. Muitos deles já nos conhecem. Têm
nos acompanhado nos diálogos de San Andrés, nos fóruns. Agora vão Ter um encontro mais
direto com aqueles que integram o Comando Geral do EZLN".
"Queremos que seja um momento muito importante na vida de todos nós. É
necessário que nos encontremos com nossos irmãos. Este evento significa uma verdadeira
mobilização das pessoas. Sentimos uma grande proximidade com os povos indígenas do
país, vivemos a mesma situação, temos a mesma história, temos sofrido as mesmas
injustiças. É isso que tem nos unidos".
"Também nos sentimos próximos dos que não são indígenas, que em muitas
ocasiões têm nos demonstrado o seu apoio e fazem suas nossas exigências".
- Então, vocês acham
que suas reivindicações continuam de pé?
David responde: "Mais do que nunca estão na vida da nossa luta zapatista. Por
isso, os povos continuam unidos. E muitos outros povos já não acreditam nos discursos
bonitos do governo, têm ouvido e entendido as nossas palavras. Têm nos manifestado, e
temos visto, que esta luta é a deles".
"Nossas reivindicações já são as de todos. Os Acordos de San Andrés não
contém só a palavra do EZLN, e sim neles estão contemplados os desejos, os pensamentos
de muitos povos. Por isso, os convidamos a defendermos juntos o que é nosso. Nos acordos
estão as palavras de milhares de indígenas do México que aí colocaram suas
idéias".
"Nós indígenas temos ficado de fora das leis por muitos séculos. Exigimos
que estes acordos fiquem na constituição. Acredito que, juntos, podemos conquistar algo
importante. - O presidente Fox tem se
perguntado se, na verdade, as reivindicações zapatistas representam as dos povos
indígenas.
"Seria bom que Fox perguntasse aos povos indígenas se não querem viver seus
direitos, se não querem autonomia, livre determinação e uma vida justa. «Já» irão
lhe responder" - expressa David.
- Nestes momentos, como
vocês vêem o CNI?
"Os companheiros do CNI já têm demonstrado em suas lutas de vários anos que
têm experiência e clareza naquilo que buscam. Seu trabalho é importante; que bom que
participam desta mobilização de fevereiro. Eles representam um grande número de povos e
organizações. Temos assumido suas reivindicações, por isso iremos ao seu Terceiro
Congresso, para estar com eles".
A isso, o comandante Javier acrescenta: "Já não é uma exigência do EZLN e
sim dos povos do México, e até serve de inspiração aos indígenas de outros países.
Temos a esperança de que o governo cumpra os Acordos de San Andrés, e os povos tenham a
possibilidade de participar dos destinos dos mexicanos".
Para terminar, David olha o comandante Moisés, cujos olhos intensos devolvem o
olhar ao companheiro; parece que vai participar da conversa, mas diz só algumas palavras
em tzotzil, como indicando algo. Os comandantes Daniel e Amalia assentem, e Daniel, com um
gesto, convida David a dirigir uma mensagem final: "Queremos dizer aos irmãos
indígenas do país que queremos estar perto deles, saudá-los, dizer-lhes nossa palavra
diretamente. Convidamos os povos indígenas e todos os mexicanos a se organizarem, para
que nos acompanhem e nos ouçam. Queríamos que soubessem que esperamos muito deles.
Vivemos por eles, apesar de todos os ataques e cercos. Vivemos e continuaremos vivendo,
mas agora com eles; que sintam por nós o que nós sentimos por eles".
E o comandante David arremata com um último desejo, de certa forma mais pessoal:
"Esperamos que nesta viagem não nos faltem as palavras".
|