NOVOS TALENTOS DA LITERATURA NACIONAL

POESIAS - 2000

Jorge Antonio Pasin (org.) / Rosiris Guerra Inglese / Reinaldo Luciano / Filipe Boechat / Galdino Moreira Neto / Alexandre Bollmann / Nathan de Castro Ferreira Junior / Sidnei Brasil Sales / Giuliana Mendes / Mariana Kexfe



PREFÁCIO
Jorge Pasin

No ano 2000, a Ponto de Vista realizou uma dezena de certames poéticos, que apresentaram como grandes destaques as composições presentes nesta página. Em seu terceiro ano, o movimento cultural da nova literatura ganhava força: foram cerca de 2.500 escritores participando.

 

 

NUVENS

Rosiris Guerra Inglese

 

Nuvens
brancas, azuis, cinzas, negras
anjos, colchões, chuvas, sol
deitada em brancas nuvens
vejo o céu azul e o sol encontro
- azar o dele que tentou de mim se esconder -
vejo minha réplica lá na Terra
deitada na branca areia
observo nuvens brancas - quase cinzas - escondendo o sol...
de repente muita chuva, as nuvens agora são cinzas, quase negras
o mundo em reboliço se encontra
no mar a sereia
enfeitada com flores de girassol
contrastando com sua pele negra
acho lindo, ela percebe, sorri
e entre as águas vagueia
volto para as nuvens
agora, sem saber se vivi ou se morri
quem vagueia sou eu.

 

 

 

AO SILÊNCIO

Reinaldo Luciano

 

Não quero o silêncio culto e tácito

Das bocas caladas pelo medo;

Não quero ouvir os que choram

E os que lamentam em segredo...

 

Não quero minha voz embargada

Pela pressão silenciosa

Da solidão que não diz nada

E da razão que se faz muda...

Eu quero o mundo em polvorosa;

Quero a canção, quero o sorriso...

Quero gritar, se for preciso...

 

Não quero o silêncio assim imposto

Como um tapa que arde no meu rosto!

Eu quero o silêncio sim, mas quero ainda

Poder falar tudo o que sinta;

Poder sentir tudo o que fale...

Eu quero decidir quando me cale!

 

Não quero a minha voz presa no peito

Enquanto o mundo grita ao meu redor!

Eu quero decidir; é meu direito

E não lutar por ele é omissão!

Silêncio! Não consigo ouvir direito!

Há um barulho estranho no meu peito

E não parece ser meu coração!

 

 

AMOR DE CARNAVAL

Filipe Boechat

 

Eu preciso amar alguém,

Nem que por um segundo,

A sós, só nós, no nosso mundo,

Onde eu me esqueça de mim;

Esquecer a dor da ida,

Esquecer a dor do fim

E viver somente a sua vida

E esquecer-me da minha

Que, de tão só, solitária, mesquinha

E nada mais além.

 

 

ANOITECENDO

Galdino Moreira Neto

 

As luzes chegam,

Terminando de apagar o dia.

Desce a noite sobre a vida os cílios de negro tafetá.

Noites que rejuvenescem ilusões,

Ao recobri-las com o verniz do luar.

Cada luar vem rastrear lagoas,

Silhuetar canoas bem defronte de mim,

Tão vazias, tão cheias,

Tanto faz, sendo assim um mergulho

O abandono profundo,

Deixando-se afogar os lastros do mundo.

 

 

CHAPELARIA

Alexandre Bollmann

 

Encaro o desencontro

Troco esse encontro por qualquer troco

Aos trancos e barrancos

Arranco da memória a sua sombra

Apago do olhar a mera visão aterradora

E pago porque não se apaga

Apego à emoção que não se apega

Pego e carrego na carne

Encarnando a velha máxima que prega:

???????????????????????????????????

 

Bem... Já não há máximas, nem pregadores

No máximo... eu

Que apanho meu chapéu e vou embora

 

 

FRAGMENTOS DE ESTRELAS

Nathan de Castro Ferreira Junior

 

Caminhando apressado sobre cacos de lua e

fragmentos de estrelas que espalhei pela estrada;

não me foi possível vê-la apagada pelas ruas

a chorar a solidão daquelas tristes madrugadas.

 

O tempo passou, mas nunca esqueci do vento

assanhando seus cabelos, derrubando folhas secas;

me avivando pelo corpo arrepios suaves e sedentos

de seus beijos, seus abraços e sua pele de seda.

 

Hoje a saudade é redemoinho em meu peito e

espalha poeira em meu coração todo encharcado,

deixando-o escorregadio, mas, como que refeito

 

das lágrimas e do orvalho que nas noites frias,

derramamos juntos, eu e a madrugada e

nos tornamos íntimos, fortalecidos na poesia.

 

 

SONETO DO AMOR SEM FIM

Sidnei Brasil Sales

 

Que seja eterno o meu amor mesmo inseguro,

Que seja puro transpirando falsidade,

Que sem idade seja às vezes obscuro,

Que sem futuro sonhe com felicidade.

 

Que em solidão se agasalhe na saudade,

Que, em verdade, seja impulso que renasce,

Que me abrace e dê consolo de amizade,

E na ansiedade seja a paz beijando a face.

 

Será o soneto que sem rima tem sentido,

E deprimido viverá por ter passado,

E já cansado emitirá mais um gemido.

 

Será o carinho derrotando a força bruta,

Será conduta de esperança doce e forte,

Que só a morte levará com muita luta.

 

 

 

VAGA-LUME

Nathan de Castro Ferreira Júnior

 

O que vi em seus olhos não sei;

eu só sei que vi e senti seu perfume

me embriagar de paixão e desejo,

me modelando e marcando a seu jeito.

 

E de repente me vejo sem seus beijos

sem seus braços, abraços, trejeitos

sem aquele brilho fugaz de vaga-lume

que reluzia nos olhos que tanto amei.

 

Olhos

 

Desejo

 

Abraços

 

Trejeitos

 

Vaga-lume

Vaga-lume vaga e lume o meu coração;

Deixaste o poeta a navegar sem rumo,

num navio ao léu sem vela e sem prumo,

embriagado de vinho, poesia e paixão.

 

 

 

MENTES INSANAS

Giuliana Mendes

 

Mentes

Dementes

E mentes insanas

Que pensam poder

Que pensam o poder

Que mentem

Não sentem

Não sabem o porquê

Me fazem sofrer.

 

E tu?

Também mentes para mim?

 

 

 

CINZA

Mariana Kexfe

 

O céu é cinza.

A vida é cinza.

Estou cinza sem saber por que...

Há uma névoa cinza

Que se mostra cinza,

De cinzas cores,

e cores de dor...

De amores perdidos,

prantos derramados,

chorados,

adorados,

sofridos...

 

É tão cinza em mim...

A idéia de que a vida

Por mais cinza,

ainda é vida

colorida

de cores

que não cinza...

 

Mas,de tão cinza,

não sei mais ver as cores,

não fugi das dores

dos prantos cinzas,

não há a cor

colorida...

divertida...

Não há vida

E sim dor.

 

E essa dor cinza,

por mais cinza

que seja a cor,

ainda é vida.

Mas dói ainda,

fala de amor...

 

 

PONTO FINAL

Alexandre Bollmann

 

Corpo – Frio.

Pupilas – Dilatadas.

Coração – Mudo.

Uma lágrima que desce pelo rosto

às vinte e quarenta e cinco.

 

Aparto

a angústia do risco, o sofrimento, a dor...

A dor do parto

a vida que nasce, grita e chora

disposta a viver.

Não estou disposto,

então parto.

Parto sem dor, pois parto

da vida.

 


Para voltar à Biblioteca, feche esta janela.