Este grande livro é curto, direto e bruto. Poucos,
como ele, serào tào honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e
esta força parece provir da unidade violenta que o autor lhe imprimiu. Os
personagens e as coisas surgem nele como meras modalidades do narrador, Paulo
Honório, ante cuja personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes.
Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em
função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um
estudo analítico, verdadeira patogênese destesentimento.
De guia de
cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se
elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável
com que manobrou a vida, pi£ando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios.
''O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bemardo, construir esta casa, plantar algodào, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas breilhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular."
É um verdadeiro homem de propriedade, gente para a
qual o mundo se divide em dois grupos: os eleitos, que têm e respeitam os bens
materiais; os réprobos, que não os têm ou não os respeitam.
Daí
resultam uma ética, uma estética e até uma metafísica. De fato nào é à toa que
um homem transforma o ganho em verdadeira ascese, em questão definitiva de vida
ou morte.
"A princípio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso,
viajando pelo sertào, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas,
ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando
operaçòes embrulhadíssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dds rios secos,
briguei com gente
que fala aos berros e efetuei transaçòes de armas
engatilhadas."
O pròximo lhe interessa na medida em que está ligado aos seus negòcios, e na ética dos números não há lugar para'ó luxo do desinteresse. '
"(...) espemeei nas unhas do Pereira, que me levou músculo e nervo,
aquele malvado. Depois, vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo,
deixei-o de tanga."
"(...) levei Padilha para a cidade, vigiei-o
durante a noite. No outro dia cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinøu a
escritura. Deduzi a dívida, os juros, o preço da casa, e entreguei-lhe sete
contos quinhentos é cinqüenta mil-réis. Nào tive remorsos."
Uma só vez age em obediência ao sentimento de gratidào, recolhendo a negra que o alimentou na infância e que ama com a espécie de ternura de que é capaz. Ainda aí, porém, as relaçòes afetivas só se concretizam numericamente:
"A velha Margarjda mora aqui em S. Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa~me dez mil~réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu." Com o mesmo utilitarismo estreito analisa a sua conduta:
"A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejujzo; fiz coisas ruins que me deram lucro."
Até quando escreve, a sua estética é a da poupança:
"É o processo que adoto: extrajo dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço."
Fora das atitudes consistentes em adquirir ou conservar bens materiais,
nào apenas o senso moral, mas o próprio entendimento baralha e não funciona.
A aquisição e transformação da fazenda S. Bernardo leva, todavia, o
instinto de posse a complicar-se em Paulo Honório, com um arraigado sentimento
patriarcal, naturalmente desenvolvido - tanto é verdade que os modos de ser
dependem em boa parte das relações com as coisas.
''Amanheci um dia pensando em casar.'' (...) Nào que estivesse amando,
pois nào me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é
um bicho esquisito, difícil de governar (...) O que sentia era desejo de
preparar um herdeiro para as terras de S. Bemardo."
A
partir desse momento, instalam-se na sua vida os fermentos de negação do
instinto de propriedade, cujo desenvolvimento constitui o drama do livro. Com
efeito, o patriarca à busca de herdeiro termina apaixonado, casando por amor; e
o amor, em vez de dar a demão final na luta pelos bens, se revela, de início,
incompatível com eles. Para adaptar-se, teria sido necessário a Paulo Honório
uma reeducaçào afetiva impossível à sua mentalidade, formada e deformada.. O
sentimento de propriedade, acarretando o de segregação para com
os homens,
separa, porque dá nascimento ao medo de perdê-la e às relaçòes de concorrência.
O amor, pelo contrário, unifica e totaliza. Madalena, a mulher, - humanitária,
màos-abertas - nào concebç a vida como relação de possuidor e coísa possuída.
Daí o horror com que Paulo Honório vai percebendo a sua fraternidade, o
sentimento incompreensível de participar na vida dos desvalidos, para ele
simples autômatos, peças da engrenagem rural. Quando casa, aos quarenta e cinco
anos, já o ofício criou nele as paixòes correspondentes, que o modelaram na
inteireza do egoísmo.
''Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo duma vez. Ela se revefou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste."
A bondade humanitária de Madalena ameaça a hierarquia fundamental
da propriedade e a couraça moral com que foi possível obtê-la. O conflito se
instala em Paulo Honório, que reage contra a dissolução sutil da sua dureza.
"Descobri nela manifestaçòes de ternura que me sensibilizaram (...) As
amabilidàdes de Madalena surpreenderam-me. Esmolagrande."
"Percebi depois que eram apenas vestigios da bondade que havia nela
para todos os viventes."
A solução do conflito é o ciúme, que mata a mulher. Até entào, ninguém fazia sombra a Paulo Honório; agora, eis que alguém vai destruindo a sua soberania; alguém brotado da necessidade patriarcal de preservar a propriedade no tempo, e que ameaça perdê-la. O senhor de S. Bernardo reage pelo ciúme, expansão natural do seu temperamento forte e, ainda, forma ora disfarçada, ora ostensiva, do mesmo senso de exdusivismo que o dirige na posse dos bens materiais. Ciúme que aparece, às vezes, como eco de costumes primitivos, de velhos raptos tribais, de casamentos por compra a referverem no sangue. Nessa luta, porém, não hà vencedores. Acuada, brutalizada, Madalena se suicida. Paulo Honório, vitorioso, de uma vitória que não esperava e não queria, sente, no admiràvel capítulo XXXVI, a inutilidade do esforço violento da sua vida.
''Sou um homem arrasado (...) Nada disso me traria satisfação (...) Quanto às vantagens restantes - casas, terras, móveis, semoventes, consideraçào de politicos etc. - é preciso convir em que tudo està fora de mim. Julgo que me desnorteei numa errada (...) Estraguei minha vida estupidamente (...) Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoismo."
Portanto, ao contràrio de Caetés, que se horizontaliza na mediania dos personagens, São Bernardo é centralizado pela erupçào duma personalidade forte e esta, a seu turno, pela tirania de um sentimento dominante. Como um herói de Balzac, Paulo Honório corporifica uma paixão, de que tudo mais, até o ciúme, não passa de variante. Em Caetés, qualquer um poderia ter agido como João Valério, na mesma mediocridade de sentimento e atitude. Ninguém, em São Bernardo, poderia agir como Paulo Honório, pois ninguém possui a flama interior, graças à qual pode sobrepor-se à adversidade. Vencendo a vida, porém, ficou de certo modo vencido por ela; imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer. Neste estudo patológico de um sentimento, Graciliano Ramos - juntando mais um dado à psicologia materialista esposada em Caetés - parte do pressuposto de que a maneira de viver condiciona o modo de ser e de pensar.
"Creio que nem sempre fui egoista e brutal. A profissão é que me deu
qualidades tão ruins. E a desconfiança terrivel que me aponta inimigos em toda a
partel A desconfiança é também uma conseqüência da profissào."
Não se trata, evidentemente, do resultado mecânico de certas relaçòes
econômicas. Uma profissão, ou ocupaçào qualquer, é um todo complexo, integrado
por certos impulsos e concepçòes que ultrapassam o objetivo econômico. E este
todo complexo - como aprendemos nos romances de Balzac - vai tecendo em torno da
pessoa um casulo de atitudes e convicçòes que se apresentam, finalmente, como a
própria personalidade. Em Paulo Honó-
rio, o sentimento de propriedade, mais
que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude
complexa diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo
as próprias relaçòes afetivas. Colorindo e deformando. Uma personalidade forte,
nucleada por paixão duradoura, - avareza, paternidade, ambição, crueldade -
tende a extremar-se, em detrimento do equilíbrio do espírito.
"Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes os nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes."
O seu caso é dramático porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas perietra uma ternura engasgada e insuficiente, incompativel com a dureza em que se encouraçou. Dai a angústia desse homem de propriedade, cujos sentimentos eram relativamente bons quando escapavam à sua tirania, e descobre em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo, que é preciso abafar a todo custo.
"Emoçòes indefiniveis me agitam - inquietação terrivel, desejo doido de voltar, de tagarelar novamente com Madalena, como faziamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é antes desespero, raiva, um peso enorme no coração."
Sendo romance de sentimentos fortes, São Bernardo é também um romance
forte como estrutura psicológica e literária. Longe de amolecer a inteireza
brutal do temperamento e do caráter de Paulo Honório nos dissolventes sutis da
análise, apresenta-o com a maior secura, extraindo a sua verdade interior dos
atos, das situaçòes em que participa. E a concentração no tema da vontade de
dominio permite dar-lhe um ritmo psicológico definido e relativamente sitnples
nas linhas gerais, a despeito da profundidade hu
mana que se desprende.
Dois movimentos o integram: um, a violência do protagonista contra
homens e coisas; outro, a violência contra ele próprio. Da primeira, resulta S.
Bernardo-fazenda, que se incorpora ao seu próprio ser, como atributo penosamente
elaborado; da segunda, resulta S. Bernardo-livro-de-recordaçòes, que assinala a
desintegração da sua pujança. De ambos, nasce a derrota, o traçado da
incapacidade afetiva.O primeiro movimento ganha corpo na volúpia da construão
material em que se realiza enquanto homem, acrescentando a si os bens em que lhe
parece residir o bem supremo; e, por meio dé enumerações curtas e precisas,
grava no leitor a paisagem humanizada, os elementos que lhe juntou pelo
trabalho: o açude com as plantas aquáticas, o descaroçador e a serraria, movidos
com a energia fornecida por ele; as culturas bem tratadas, o gado de raça. Tudo,
numa palavra, que, vindo sobrepor-se à fazenda decadente que soube arrebatar aos
maus proprietários, perpassa discreta mas necessariamente em cada página, como
suporte do seu modo de ser e legitimação dos seus atos. Por isso justificaram-se
ai liquidaçòes sumárias de vizinhos incômodos, a corrupçào de funcionários e
jornalistas, a brutalização dos subordinados.
"Uma fazenda como SãoBlemardo era diferente."
Não se podia comparar a qualquer outra empresa, pois era o prolongamento dele próprio; concretizava a sua vitòria sobre homens e obstáculos de vário porte, reduzidos, superados ou esmagados. E assim percebemos o papel da violência, que voltada para fora é vontade e constròi destruindo. Mas vimos que a este primeiro movimento se entrelaça outro: voltada para dentro, a violência é dissoluçào, e destròi construindo. Caracteriza-se efetivamente pela volúpia do aniquilamento espiritual, pelo cultivo implacável do ciúme, que nào é senào uma forma de exprimir a vontade de poderio e recusat o abrandamento da rigidez. Certa
"... tarde, no escritório, uma idéia indeterminada saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante quebrando louça e deu'o fora. Quando tentei agarrá-la, ia longe."
O fato é que consegue agarrá-la, plantando-a dolorosamente no
pensamento e dela extraindo a causa final da sua desgraça. Nesse processo de
autodevoramento pelo ciúme, e a dúvidaanula a construção anterior, percebe a
vacuidade das realizaçòes materiais, nega o próprio ser, que elas condicionam.
Intervém então o elemento inesperado: Paulo Honório sente uma necessidade nova,
- escrever - e dela surge uma nova construção: o livro em que conta a sua
derrota. Por ele, obtém uma visào ordenada das coisas e de si; no momento em que
se conhece pela narrativa, destrói-se enquanto homem de propriedade, mas
constrói com o testemunho da sua dor a obra que redime. E a inteligência se
elabora nos destroços da vontade. O próprio estilo, graças à secura e violência
dos períodos curtos, em que a expressão densa e cortante é penosamente obtida,
parece indicar essa passagem da vontade de construir à vontade de analisar,
resultando um livro direto e sem subterfúgio, honesto ao
modo de um caderno
de notas.
Aqui não há mais, como em Caetés, influências diretoras,
jeito de exercício. Há um processo estilístico em maturidade, revelando o grande
escritor na plenitude dos recursos. A aprendizagem laboriosa do volume anterior
deu todos os frutos: narração, diálogo e monólogo fundem-se numa peça harmoniosa
e sem lacunas, onde cada palavra ou conceito, obtidos nas altas temperaturas da
inspiração e lavrados pelo senso artístico, perfazem a unidade inimitável, cujo
efeito sobre nós procuramos inutilmente explicar. Veja-se um exemplo desta
síntese, em que sentimos a presença, não mais separável, dos elementos apontados
em Caetés: caracterização do personagem pelo exterior; progressão psicológica do
diálogo, obtida por notaçòes breves e certeiras; conhecimento do espírito pela
situação:
- "Por que foi esse atraso, seu Ribeiro? Doença?
O velho
esfregou as suíças, angustiado;
- Não senhor. É que há uma diferença
nas somas. Desde ontem procuro fazer a conferência, mas nào posso.
-
Por quê, seu Ribeiro?
E ele calado.
- Está bem. Ponha um
cartaz ali na porta proibindo a entrada às pessoas que não tiverem negócio. Aqui
trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, ouviu. Sem
exceção.
- Isso é comigo? disse D. Glória esticando-se.
-
Prepare logo o cartaz, seu Ribeiro.
- Perguntei se era comigo, tornou
D. Glória diminuindo um pouco.
- Ora, minha senhora, é com toda a
gente. Se eu digo que nào há exceção, não há exceção.
- Vim falar com
minha sobrinha, balbuciou D. Glória reduzindo-se ao volume ordinário."
Caso elucidativo é o da paisagem. Não há em São Bernardo uma única descrição, no sentido romântico e naturalista, em que o escritor procura fazer efeito, encaixando no texto, periodicamente, visòes ou arrolamentos da natureza e das coisas. No entanto, surgem a cada passo a terra vermelha, em lama ou poeira; o verde das plantas; o relevo; as estaçòes; as obras do trabalho humano: e tudo forma enquadramento constante, discretamente ie ferido, com um senso de oportunidade que, tirando o caráter de tema, dá significado, incorporando o ambiente ao ritmo psicológico da narrativa. Esse livro breve e severo çleixa no leitor impressòes admiráveis.
"Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar
de S. Pedro.
Estàvamos em fim de janeiro. Os paus-d'arco, floridos,
salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhà a serra cachimbava; o riacho,
depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que
se despenha, antes de entrar no açude, enfeitavase de espuma.
Quando
viu os arames da iluminaçào, o telefone, os mòveis, vários trastes de metal, que
Maria das Dores conservava areados, brilhando, D. Glória confessou que a vida
ali era suportàvel.
- Eu não dizia?
Ofereci-lhe um quarto no
lado esquerdo da casa, por detrás do escritório, com janela para o muro da
igreja, vermelho. O muro está hoje esverdeado pelas águas da chuva, mas naquele
tempo era novo e cor de carne crua. Eu e Madalena ficamos no lado direito - e da
nossa varanda avistávamos o algodoal, o prado, o descaroçador com a serraria e a
estrada, que se torce contornando um morro."
Se a percepção literária do mundo sensível aparece aqui refinada, é
igualmente notável o progresso verificado nos mecanismos do monòlogo interior,
gênese dos sentimentos e evocaçào da experiência vivida. A narrativa áspera de
um homem que se fez na brutalidade e hesita ante a confissão vai aos poucos
ganhando contornos mais macios, adentrando-se na pesquisa do pròprio espírito,
até atingir uma eloqüência pungente, embora freada pelo pudor e a inabilidade em
se exprimir de todo, tão habilmente elaborada pelo autor. O capítulo XXXI, em
que desfecha não apenas o seu drama íntimo, mas o da pobre Madalena, que se
mata, é porventura o encontro ideal das linhas de construção da narrativa -
desde o amadurecimento da autoconsciência até a primeira noção do seu
fracasso humano, numa seqüênéia admirável em que se vêm unir a paisagem e a
rotina de trabalho na fazenda; o significado latente do diálogo, as entrelinhas
cheias de ecos e premoniçòes. E o capítulo XIX - um dos mais belos trechos da
nossa prosa contemporânea - pode citar-se como ponto alto daquela mistura de
realidade presente e representação evocativa, que vimos esboçar-se em Caetés e,
surgindo tão depuradas nesta història rude, mostram que o autor conseguiu
inscrevê-la na categoria pouco acessível das obras-primas.
2. DOIS ESTUDOS FUNDAMENTAIS
Após a morte de Madalena, Paulo Honório tenta retomar o ritmo anterior
de sua vida, lançando-se ao trabalho, mas logo esfria o entusiasmo, e a
lembrança da mulher morta impõe-se ao seu espírito, Entediado, vagueia pela casa
de forma inconseqüente, sem saber direito o que fazer, perdido em "intermináveis
passeios, de um lado para o outro". Um a um os moradores mais chegados vão
abandonando-oi D. Glória, depois Seu Ribeiro, e enfim o Padilha - o Luís Padilha
que era a imagem completa da submissão e da subserviência e que desaparece para
juntar-se aos revolucionários.
Com a revolução, o mundo de Paulo
Honório descaminha de forma definitiva: "O mundo que me cercava ia-se tornando
um horrível estrupício, E o outro, grande, era uma balbúrdia, uma confusão dos
demônios, estrupício muito maior". A vitória da revolução traz-lhe problemas com
a propriedade. Reacendem-se antigas questões de limites, seu crédito é cortado,
os preços dos produtos caem, S. Bernardo transforma-se numa fazenda abandonada.
Os amigos, que o freqüentavam regularmente, são obrigados a afastaj-se, e ele
fica sozinho, com seus intermináveis passeios. É, enfim, o mundo à revelia, fora
de seu controle. "E os meus passos me levavam para os quartos, como se
procurassem alguém.'' Nesta última frase do capítulo 35 o estilo revela a
impotência do herói, A sinédoque se engasta na estrutura ação/personagem,
mostrando que o comando dos atos foi perdido por Paulo Honório: não é ele quem
anda em quarto, mas são suas pernas que o levam. O desnorteamento é paralelo à
perda do mando. Entramos agora numa outra etapa, a vida atual de Paulo Honório.
Em contraste com a narrativa do passado, o tempo que se instala agora traz
problemas diferentes e, em conseqüência, provoca modificações no conteúdo e na
composição do livro. Embora o romance mantenha do começo ao fim uma
extraordinária unidade estilística (muito visível em vários planos, da escolha
do léxico à construção sintática das frases), sua composição geral se altera
levemente, o bastante, entretanto, para imprimir a São Bernardo. Uma dimensão
nova.
A duplicidade temporal - existem representados o tempo do
enunciado (os eventos que ocorreram na vida de Paulo Honório) e o tempo da
enunciação (o momento em que se escreve o livro) - está,ligada ao problema do
ponto de vista narrativo. O romance é narrado em primeira pessoa, por um
eu-protagonista que, distanciado no tempo, abrange com o olhár toda sua vida e
procura recapitulá-la, contando-a para si e para nós, leitores. É este
distanciamento que lhe dá uma pseudo-onisciência, concomitante à existência do
olhar abrangente, capaz de determinar os momentos importantes de sua evolução.
Este procedimento é responsável por boa parte da objetividade que, como vimos,
ressuma por toda a narrativa. Não é, entretanto, o único responsável, pois a
objetividade nasce - como também já vimos - da atitude que caracteriza o
narrador em face de tudo que lhe acontece. Na verdade, existe uma conjugação
funcional dos dois procedimentos: o conhecimen,to amplo dado pelo distanciamento
temporal funde-se à caracterização do personagem-narrador e os dois juntos criam
a postura objetiva que dá o tom do romance, Neste momento, todavia, entramos no
presente da enunciação e o distanciamento desaparece. Por outro lado, o caráter
ativo de Paulo Honório está emperrado, paralisado pela derrota definitiva que
foi a morte de Madalena, É forçoso que os procedimentos técnicos se modifiquem e
a narrativa ganhe uma textura diferente, A linguagem seca do tempo do enunciado
cede lugar à lamentação elegíaca do tempo da enunciação, e o ritmo rápido da
narrativa é substituído pelos compassos mais lentos de uma reflexão
problematizada, difícil e tortuosa: "Aqui sentado à mesa da sala de jantar,
fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a
folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é
um objeto pesado, Não estou acostumado a pensar, levanto-me, chego à janela que
deita para a horta".
A verdadeira busca começa onde termina a vida de
Paulo Honório. A busca verdadeira, entenda-se, a procura dos verdadeiros e
autênticos valores que deveriam reger as relações entre os homens. A vida
terminou, o romance começa. O romance, segundo Lukács, é a história da busca de
valores autênticos por um personagem problemático, dentro de um universo vazio e
degradado, no qual desapareceu a imanência do sentido à vida, Ora, só neste
instante o herói se torna problemático, o universo surge conio vazio e
degradado, o sentido da vida desaparece. Antes, Paulo Honório fora um personagem
coeso e forte, movendo-se em um mundo de objetivos claros e (ainda que ilusório)
repleto de significado:
a propriedade. O suicídio de Madalena desmascara a
falsidade do sentido e problematiza tudo. Agir para quê? - pergunta-se ele.
"Nesse movimento e nesse rumor haveria muito choro e muita praga."
Paulo Honório abandona a açâo e volta-se sobre si mesmo, buscando na
memóría de sua vida o ponto em que se desnorteou, "numa errada", Nesse
debruçar-se, o estilo se tinge de lirismo e a objetividade épica fica abalada. É
preciso assinalar que o fato de o romance estar narrado na primeira pessoa não é
gratuito nem inconseqüente, mas deixa suas marcas na composição da narrativa. O
estatuto do "narrador onisciente'' (intruso ou não) difere sensi
velmente
dessa posição aqui adotada, na qual um eu-protagonista, aproveitando-se da
distância, nos conta sua história. Não que seja impossível falar de si mesmo com
objetividade (na medida em que possa existir realmente objetividade) - coisa que
Paulo Honório demonstra, aliás, de forma cabal no decorrer do livro. Mas, no
instante em que o tempo da enunciação começa a ser representado, notamos
imediatamente a infiltração dos signos da subjetividade, a irrupção do monólogo
interior, o abalo do ponto de vista pseudo-onisciente. Esse processo se instala
um pouco antes, no decorrer mesmo do tempo do enunciado, quando o ciúme retira a
segurança do narrador e o faz duvidar do que vê: "Será? Não será?" Ou mais
adiante, no capítulo 29: ''Os meus olhos me enganavam. Mas se os olhos me
enganavam, em que me havia de fiar então?" É certo que permanecem no romance,
muito bem delimitdos, Os dois níveis de representação, e o leitor percebe de
maneira clara o que é real e o que é deformação provocada pelo ciúme. São
Bernardo mantém sempre uma objetividade que o torna diferente de certos romances
contemporâneos, nos quais os planos da memória, da imaginação e da realidade se
confundem e se embaralham. Nem por isso, entretanto, a objetividade deixa de ser
questionada de várias maneiras. Uma delas é a marcação do tempo, que vimos atrás
ser feita de forma obsessiva e precisa, e que agora parece escapar ao domínio do
narrador: ''Uma pancada no relógio da sala de jantar. Que horas seriam? Meia?
uma? uma e meia? ou metade de qualquer outra hora? (...) Segunda pancada no
relógio. Uma hora? uma e meia? Só vendo. (... ) Ah, sim, ver as horas. Empurrava
a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma
coisa saber as horas''. Se a capacidade de controlar o tempo estava ligada atrás
à capacidade de ação e domínio, neste momento a incerteza simboliza a impotência
e insegurança a que está reduzido o narrador. Simboliza, em última análise, sua
oscilação diante do mundo que já não pode reduzir à objetividade da medida
exata, que já não pode controlar. Mas a subjetividade penetra mesmo, de forma
avassaladora, quando começa a ser apresentado o tempo da enuciação, o instante
em que Paulo Honório escreve. O belíssimo capítulo dezenove, colocado no centro
do romance, embaralha de fato consciência e realidade, memória e presente,
objetividade e su.bjetividade. Como afirma Lukács, a mais humilhante impotência
da subjetividade manifesta-se menos no combate contra estruturas sociais vazias
do que no fato de ela estar sem forças diante do curso inerte e contínuo da
duração. Paulo Honório escreve seu livro e busca o sentido de sua vida. Através
da escritura faz emergir um mundo reificado e cruel, repleto de corujas que piam
agourentas, de rios cheios, atoleiros e "uma figura de lobisomem''. O que surge
é afinal o seu retrato: penetrando dentro de si mesmo arranca um mundo de
pesadelos terríveis, de signos da deformação e da monstruosidade. Um mundo
objetivamente real acaba revelando-se, através da subjetividade. Mas é, por
outro lado, um mundo alheio a Paulo Honório, um universo que anda indiferente à
sua vontade. O tempo histórico continua a decorrer, à sua revelia: "O que não
percebo é o tique-taque do relógio. Que horas são? Não posso ver o mostrador
assim às escuras. Quando me sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pêndulo,
ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relógio, mas não consigo
mexer-me".
A objetividade da representação é atingida pela
subjetividade do narrador, mas ambas acabam interpenetrando-se, compondo uma
unidade dialética. O sujeito poético, que se emancipa das convenções da
representação objetiva, confessa ao mesmo tempo a própria impotência, a
prepotência do mundo reificado que volta a apresentar-se no meio do monólogo. O
recurso ao monólogo interior, portanto, ajuda a compor a busca de Paulo Honório.
E é através dela que surge o mundo de S. Bernardo, São Bernardo romance,
tentativa de encontrar o sentido perdido e encontro final e trágico consigo
mesmo e com a solidão: "E vou ficar às escuras, até não sei que hora, até que,
morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos". Com estas
palavras, o romance se fecha, mostrando a vitória da reificação e a derrota
total do herói, que é incapaz de mexer-se, modificar-se. Penso em outro
personagem, de outro romance: “Ah, o que eu não entendo, isso é que é chama de
me matar... -me lembrei dessas palavras. Mas palavras que, em outra ocasião,
quem tinha falado era Zé Bebelo, mesmo".
fonte: Resumo do livro São Bernado da coleção Objetivo.
PS.: Pedimos desculpas pelos erros de ortografia, pois esse resumo foi scaneado.