1. O Autor
Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857/1913). É considerado o
inaugurador do naturalismo em nossa literatura, destacam-se, em sua obra, os
romances O mulato (1881), Casa de pensão (1884) e O cortiço (1890). A presença
marcante das idéias científicas, sociológicas e antropológicas da época a
respeito da determinação incoercível do meio, da herança genética e do momento
histórico no comportamento humano, tomando o homem o resultado de sua
constituição psicofisiológica e das pressões sociais, caracteriza as obras
naturalistas do Autor. Revelando influências do naturalismo europeu,
particularrnente do escritor português Eça de Queirós, Aluísio Azevedo assume
uma posição crítica de denúncia à corrupção moral e à hipocrisia da burguesia e
do clero, chamando a atenção para problemas sociais, numa atitude polêmica, bem
ao molde do espírito combativo da época.
Aluísio Azevedo foi um dos
principais autores da Literatura Brasileira de seu tempo. Caricaturista de
inegável talento militou nas principais folhas políticas do Rio, atividade que
lhe ensinou a arte da linha grossa que deforma o corpo e o gesto e compõe a
técnica do tipo, própria da concepção naturalista de criação da personagem e do
ambiente em que se desenrola a trama. Aliada a esta técnica de composição está a
descrição minuciosa do ambiente e das ações, buscando integrar monoliticamente o
personagem e o meio social em que se movimenta.
2. Síntese
O Mulato
"O Mulato" é considerado pela crítica em geral como o primeiro romance
naturalista no Brasil, embora não seja uma autobiografia, nele está presente
muito da vida do escritor, sua interpretação da existência e o enfoque da
experiência vivida em sua terra natal. Certos elementos que aparecerão nas obras
do romancista jà se fazem notar neste primeiro livro, como a forte tendência
para o caricatural e o grotesco, forçando e deforrnando os traços que compõem as
características físicas e psicològicas dos personagens. O romance é feito com
boa técnica. O enredo dá a sensação de esquemático, de dureza na montagem, em
que os elementos constitutivos são pensados rigorosamente a fim de que nada
viesse prejudicar a unidade do romance. "O Mulato", como narrativa naturalista
que é, contém uma tese que pode ser, formulada da seguinte forma: numa cidade
provinciana como São Luís, há preconceitos raciais, um clero corrompido, uma
casta privilegiada, comerciantes gananciosos e empregados corruptos, passando o
romance a ser uma denúncia deste estado social degradado. Um empregado de origem
portuguesa, João Dias primeiro caixeiro de seu patrão, procura por todos os
meios casar-se com a filha deste, Ana Rosa, pois desta forrna obteria uma
posição social melhor e tornar-se-ia rico. A harmonia dos planos é quebrada por
um elemento de fora, o Dr. Raimundo, de origem duvidosa, filho de uma negra,
mulato pela cor e aspectos do cabelo. Com reservas é aceito pela sociedade, mas
quando pretende o amor de Ana Rosa, a sociedade o reprime. O vilão é o cônego
Diogo que manobra com as armas da intriga, da chantagem e da manipulação para
conseguir que o rival amoroso de Raimundo, João Dias, o assassinasse à traição,
libertando a cidade de sua presença indesejada.
O romancista
comporta-se diligentemente para todos os pontos da obra estejam dentro do
esquema preestabelecido. As personagens traçadas artificialmente vivem como
fantoches, sem vida e sem autonomia. O romance, por suas características
documentais, naturalista que é, exige a presença de um tempq definido e certo, o
que faz o tempo ser cronológico e o espaço físico é a própria área geográfica em
que se movimentam as personagens.