· O AUTOR
José Saramago nasceu em 1922, de família humilde, no Ribatejo e foi,
por muito tempo, um trabalhador desconhecido e inexpressivo. Aos quarenta e
quatro anos, em 1966, portanto, publicou sua primeira obra literária: a
coletânea Os Poemas Possíveis. De lá para cá, entretanto, construiu uma obra
longa e bastante representativa, levando-o a tomar-se o escritor português
contemporâneo mais conhecido em todo o mundo.
Vive num auto-exilio na
Espanha, como protesto político contra o estado português. Recentemente, encheu
de alegria as pátrias lusófonas por ter-se tomado o primeiro escritor de língua
portuguesa a ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, glória maior a que
pode afungir quem se dedica ao trabalho literário.
Esteve recentemente
no Brasil e foi tremendamente explorado pela mídia, envolvendo-se em
questões políticas e intrometendo-se em assuntos polêmicos de nossa estrutura
político-social, o que deve motivar uma atenção maior dos candidatos ao
vestibular da UNICAMP, na leitura, discussão e compreensão da obra aqui em
estudo.
· DA OBRA
Publicado em 1982, o Memorial do Convento traz, de imediato, uma
novidade para o leitor: o narrador, indubitavelmente onisciente, comporta-se de
uma forma inusitada ao apresentar a fala dos personagens. A forma canônica de se
materializar o discurso direto é com a utilização dos chamados verbos dicendi e
de uma notação constituída por dois pontos (:) e travessão (-) ou aspas (" ").
Saramago não se utiliza desse expediente, adotando uma forma nova: "Blimunda
levantou a cabeça, olhou o padre, viu o que sempre via, mais iguais as pessoas
por dentro do que por fora, só outras quando doentes, tomou a olhar, disse, Não
vejo nada. O padre sorriu, Talvez que não tenha vontade, procura melhor, Vejo,
vejo uma nuvem fechada sobre a boca do estômago. O padre persignou-se, Graças a
Deus, agora voarei. (p. 124) "
Como se pode observar, o que marca a
mudança de interlocutor é a letra maiúscula e não a notação habitual, o que, a
nosso ver, pode confundir algum leitor menos atento. Outro aspecto a se notar é
a erudição do autor, na mesma linha do italiano Umberto Eco, Saramago recheia
seu texto de conhecimento da História de Portugal e do Brasil, usando
personagens e fatos que realmente existiram e ocorreram. Dessa forma a ficção e
a realidade fundem-se de forma a criar situações que se encaixam perfeitamente
na linha do "Realismo Mágico" tão conhecido na literatura latino-americana.
· RESUMINDO
A história começa com o problema da sucessão
portuguesa: o rei, D. João V não tem herdeiros e isso preocupa a corte e a
população. Naturalmente todos culpam a rainha pela situação, já que o rei, sendo
rei, tem uma vida sexual intensa, tanto fora quanto dentro dos limites de seu
matrimônio. Aparece um frade franciscano e negocia com o rei uma gravidez da
rainha: caso a rainha engravide, D. João se obriga a construir um convento em
Mafra. Dito e feito. Assim que o rei faz a promessa de construir o convento, a
rainha anuncia sua gravidez e dai em diante não falha mais. É uma gravidez
atrás de outra. Por ocasião do entrudo (carnaval da época), as pessoas fartam-se
e divertem-se para depois, na quaresma, se auto flagelarem em penitência. Nesse
transe é que se encontram Baltasar Mateus, o sete-sóis, ex-soldado que perdeu a
mão esquerda na guerra e Blimunda, jovem cristã-nova que tem o poder da
vidência. Junto a eles também aparece o Padre Bartolomeu de Gusmão - o Padre
brasileiro, inventor que viveu em Portugal - e juntos assistem a um auto-de-fé,
cerimônia em que eram queimados os condenados pela santa Inquisição Católica. A
partir dai a narrativa centra-se na união entre Baltasar e Blimunda e com o
trabalho dos dois no auxilio ao padre voador e sua invenção, a passarola,
máquina de voar já experimentada e em fase de aperfeiçoamento.
A
construção do convento de Mafra segue passo a passo com o aperfeiçoamento da
passarola; inúmeras peripécias; fugas e andanças. O surgimento de vultos
históricos como o músico italiano Domenico Scarlatti e o teatrólogo brasileiro
Antônio José, o judeu. Com a sagração do convento por D. João V e com a execução
de Antônio José e de Baltasar Mateus Sete-Sòis em um auto-de-fé, temos o término
da narrativa.
· CONCLUINDO
A construção do convento e a criação da passarola são dois eventos que
corporificam a idéia de que a História é feita pelas realizações e necessidades
coletivas do homem, bem ao gosto marxista adotado pelo Autor em sua pregação e
atividade politica. Na formulação de um libelo crítico da sociedade, Saramago
elege o rei D. João V como paradigma de uma elite tola, vaidosa, ingênua e
superficial, omitindo aquilo que o soberano também fez de positivo em sua vida,
notadamente no clima cultural que despertou em Lisboa.
A descrição
pormenorizada e repetitiva dos autos-de-fé dá continuidade ao anti-clericalismo
tão presente na literatura portuguesa desde o século passado é a visão
predominantemente popular da ação inquisitorial confirma o terror que o Santo
Oficio instaurava no seio da população e nas injustiças que cometia em nome de
uma supostamente justa e santa fé cristã.