Aquela Casa Branca

 

UMA CASA BRANCA

O vento bate leve na intensa verdura que ao longo do caminho cresce lenta, mas cheia de vida e determinada a fazer ver a quem passa, que vale a pena viver. Também, um dia, eu caminhei pela estrada, que me levou à descoberta daquele povoado de características marcadamente rurais, situado a alguma distância de uma pequena cidade. Era uma região onde cada ano a natureza renascia graças à boa terra que favorecia o ressurgir primaveril das folhas verdes que, ansiosas e lentas, crescem nos ramos castanhos das árvores de fruto.

As casas eram poucas e pintadas com um tom tão discreto que quase se não dava conta da sua existência na beira do caminho. Concentradas, quase todas, ao longo da estrada de terra batida, fazendo antever uma salutar relação, quase familiar, entre todos os que nelas habitam. Sensivelmente ao centro da povoação a algumas dezenas de metros de uma curva que a estrada faz para contornar uma barreira de terra crua está situada uma casa branca, baixa e com duas janelas pequenas e íntimas, uma de cada lado da porta de madeira.

O telhado, de um vermelho desmaiado é cortado por uma chaminé de onde se desenrola um longo fio de fumo que se esvai nas alturas para se juntar ás nuvens que, lá no alto correm preguiçosas.

À frente, no jardim, crescem rosas vermelhas, amarelas e brancas, que começam a murchar com o tempo.

Ah! Se pudéssemos entrar para ver o que acontece nesta pequena casa que me parece tão diferente de tudo o que existe à sua volta! Mas a porta está fechada. Poucas vezes se abre durante o dia. Porque será? Não sei, mas prometo que, se alguma vez a encontrar aberta darei uma olhadela e vos contarei o que vi e senti.

Por agora, apenas poderei dizer-vos que serão talvez umas sessenta pessoas rudes e boas, as que vivem neste aconchego. Creio até que a origem desta aldeia está num casal que ali se instalou para construir a sua vida, há já umas dezenas de anos. A ocupação do dia a dia daquela gente é o campo, que a acolhe pela manhã e só ao anoitecer perece ter vontade de a deixar partir.

Mas, como diz alguém, nem tudo são rosas. Aqui onde as ervas daninhas começaram também já a implantar-se. A desunião começou a imperar no coração dos homens. Contaram-me que ainda há bem pouco tempo, um casal, constituído havia longos anos, acabava de separar-se para sempre. O marido abandonara a esposa doente, deixando-lhe dois filhos: um de oito e outro de nove anos, para ir viver, sem pensar, com uma mulher de um lugar vizinho. "Tinha dois filhos - diziam-me - que eram um sonho de beleza e bondade, e vai deixá-los de qualquer maneira."

Caminhava eu estrada acima dando voltas com isto na minha mente quando passei, noutro dia, em frente de uma das janelas da casa branca de que já vos falei. Vi apenas uma cortina de linho puro que coava os raios de sol que entravam de fora violentos e doentios. Pareceu-me ver também uma cama não sei se seria, mas um vulto negro estava lá de pé ou melhor debruçado sobre o que me pareceu ser um leito. Não parei, para não ser indiscreto, e continuei o meu caminho ao longo da estrada cercada de papoilas rubras que sorriam ao sol.

Era um dia de Primavera. O sol radiante brilhava no céu alegrando tudo o que o recebia. Nada podia ficar insensível àquela beleza natural que, lá das alturas lançava, graciosamente, os seus raios sobre a terra.

Não andei muitos metros depois que passei a casa, sem que tivesse de parar perante uma cena que se me deparava aos olhos. Uma criança estava sentada sobre uma pedra lisa e branca numa posição denunciadora de tristeza: o cotovelo assente sobre o joelho e a mão, apoiando a cabeça inclinada para a frente, cobrindo-lhe os olhos e metade da testa. Aproximei-me sem fazer barulho, e parei ao ver as lágrimas que caiam no chão come gotas de orvalho ao amanhecer. Estava a chorar! Vestia calção e camisa vermelhos, da cor do sangue, meias brancas e sapatos pretos. O cabelo era louro e liso. Pus-lhe a mão sobre a cabeça e ele ergueu-a para me olhar com seus olhitos azuis, que só podiam estar naquela face rosada, pois só lá estavam bem para completar a beleza daquele ser pequenino.

Olhou-me, pois, com a boquita semi-aberta e, passados uns momentos, voltou a baixar a cabeça. Foi então que me resolvi falar-lhe, e para perguntar que se passava. Respondeu, a custo pois os soluços embargavam-lhe a voz aguda e doce, que estava sozinho no mundo. Visto que sua mãe não tinha muita saúde e seu irmão estava também doente. Perguntei-lhe pelo pai, e ele, elevando para mim os olhos marejados de lágrimas, disse-me: "Eu não tenho pai''. Não resisti em lhe perguntar se me conduzia a sua casa para ver o seu irmão. A resposta foi um levantar repentino, um olhar-me de novo, e uma palavra que quase soava a ordem: "Venha."

E os dois, lentamente e sem saber que dizer, fomos caminhando ao longo da estrada. Cinco ou seis minutos depois parámos diante de uma casa que me pareceu mais triste do que nunca. "É aqui que eu moro'' - disse. Qual não foi o meu espanto ao descobrir que habitava aquela misteriosa casa branca. Abriu a porta e convidou-me a entrar.

Entrei e do meu lado esquerdo vi uma mulher, que teria talvez trinta anos, sentada à lareira, enquanto à sua frente a lenha ardia vivamente para logo se transformar em cinza negra. Saudei-a. Ela olhou-me espantada e respondeu à saudação com algumas palavras de tristeza e dor.

Passei os olhos pela casa e vi, ao fundo, uma mesa e nela uma jarra de flores; do lado esquerdo havia um armário de madeira, nada mais. Havia apenas, do lado direito uma porta, mas que não tinha nada de especial. Informei-a do porquê da minha ida à sua casa, do que me tinha lá levado: queria ver o seu filho doente. Ela sorriu, levantou-se e disse: "está aqui''.

Caminhou em direcção à porta que dava para o interior da casa seguida pelo filho e por mim. Passámos uma outra porta e entrámos num pequeno e acolhedor quarto caiado de branco. Sobre a mesa de cabeceira uma rosa branca murchava e inclinava-se para a cama, onde um rapaz que cabelo grisalho dormia um longo e profundo sono, coberto por um lençol extremamente branco e por um cobertor verde escuro, ao centro do qual se podia ver a imagem de um cordeiro morto. A cabeça parecia enterrada na almofada, também branca. Pela janela entrava uma luminosidade frouxa que ia dar um tom solene àquele ambiente.

Parámos os três a olhar, comovidos, o doente. O pequeno que eu encontrara no caminho sentou-se na berma do leito e passou com a mão, frágil e meiga , sobre o cabelo do irmão.

Enquanto ali permaneciam saí com a mãe. Viemos sentar-nos à lareira, onde ela me contou com palavras amargas, a sua sorte. Disse: ''Sou doente, tenho estes dois filhos que sã tudo para mim. Um adoece e eu não posso sair de casa para não o deixar só, passo os dias a velar por ele. Estamos tão sós!" Ao dizer isto inclinou a cabeça e as lágrimas rolaram pelo rosto para cairem, pesadas, no chão aquecido pelo fogo.

Como me não falasse do marido, pensei que tivesse já morrido, mas quando estava precisamente a lembrar-me disso, ela continuou dizendo: "0 pai daquelas crianças abandonou-nos...'' Estremeci. Compreendi então que era aquele o casal de que me falaram antes.

Nesta altura, olhei para o relógio e, com bastante mágoa, notei que era hora de me ir embora. Tinha que partir. Ia para um país distante, tão longe da minha pátria!. Levantei-me e fui novamente ao quarto, onde encontrei duas crianças: uma dormindo e outra chorando. Inclinei-me e beijei a que dormia tocando-lhe com o lábio a testa fria enquanto a outra me olhava. Abraçou-me depois e deixou que as lágrimas quentes e salgadas, caíssem sobre o meu ombro.

Mas tive que as deixar. Saí e caminhei rua abaixo, enquanto mãe e filho me seguiam com olhar penetrante e frio e de uma tristeza sem limite. Ia deixar aquela casa sem saber até quando. Parti. Lá longe, quantas vezes tive que impedir o coração de chorar, sempre que recordava os amigos que deixara!.

Mas a minha ausência não foi eterna. Um ano depois podia voltar à terra, onde uma eternidade antes deixara três pessoas que nunca esqueci. O dia de voltar era ansiado com tal expectativa que me fazia esquecer da minha própria existência.

O dia chegou e eu voltei. Era um dia em que nuvens muito negras e sem conta corriam vagarosamente no céu, arrastando-se com dificuldade.

Subia alegre estrada fora quando um corvo negro esvoaça por cima de mim emitindo uma melodia fúnebre. Não reparei nisso, seguia alegre o

meu caminho e nada me podia deter pois estava demasiado ansioso por chegar.

Minutos depois, vi surgir por detrás de umas árvores onde a estrada faz uma curva que a faz perder de vista, a cruz de Cristo ladeada por duas velas e seguida por uma multidão apocalíptica de gente. A morte avança na minha direcção. Parei. Esperei. Olhei e vi, lá no meio daquela turba, duas urnas brancas como o frio duma manhã de geada que eram transportadas por homens vestidos de negro, bem da cor do carvão. O meu coração contraiu-se os olhos cerraram-se-me e, instintivamente, segui o cortejo, que se dirigia para o cemitério.

Uma vez chegados, todos entraram excepto eu, que fiquei à porta, mas não por muito tempo, pois senti-me obrigado a ir ver o que é que se encontrava dentro daquelas caixas, horríveis detentoras da morte. Avancei lentamente, aproximei-me e vi, brancos e frios como as pedras de uma catedral, dois rostos que eu conhecia. Naquele momento apenas desejei que essa realidade fatal descesse implacavelmente sobre mim.

As urnas foram fechadas e aqueles rostos desapareceram para sempre, entrando depois no ventre da terra fria que se abria para os tragar. Todos saíram. Eu fiquei ali chorando, e o coveiro, homem de que não gosto pois terra que ele mova é prisão para os corpos que não podem mais voltar. Mas creio que as almas não as aprisiona ele. Essas levam-nas os anjos imortais para o céu de onde nos olham continuamente.

Sem saber que fazer, saí do cemitério Apenas ali não queria estar. Era um barco que navega no mar alto sem rumo, sem remo e sem vela.

Avancei a passos largos pela rua e só parei quando estava em frente daquela casa branca, onde nada existe agora, que se erguia como um fantasma no meio da noite. Olhava eu o interior através da janela que me tinha levado lá dentro pela primeira vez, quando alguém se aproximou de mim para me contar como é que a vida aí tinha acabado.

Disse-me tudo o que acontecera na minha ausência. "A mãe era doente, começou, o filho mais velho adoeceu também depois que o pai se afastou da família Era o mais novo que, com oito anos, se ocupava de tudo amparado por outros, é claro."

Um dia em que voltava da loja onde fora comprar algumas coisas para o almoço entrou em casa e viu a mãe morta a seus pés. Saiu correndo a chamar alguém, mas isso de nada valeu, ela já não podia viver. Enfim, foi sepultada e aqueles dois filhos ali ficaram, indefesos, um ao lado do outro ajudando-se no que podiam. Eram como um pastor que arrumado ao seu cajado sobe com dificuldade a montanha duramente áspera como as ondas do mar que batem nas rochas negras.

O mais novo não saía do pé do irmão doente, não queria deixá-lo morrer também. Sempre que precisasse de algo que não pudesse fazer, pedia a alguém que lho fizesse, mas sair de junto do leito do irmão é que ele não saía! Era uma mãe que vigia o filho ferido! Ali chorou lágrimas em fio, e quantas noites não dormiu aquele anjo enviado de Deus!"

Nesta altura, não me sentindo bem, sentei-me. Ele continuou: "Mas o fim tinha que chegar, e chegou numa noite de trovoada em que, tomado pelo sono, este pastor que vela a ovelha doente adormece, não por muito tempo. O seu coração terno estava inquieto. Quando acordou, o irmão já não vivia. Um sorriso brotava dos seus lábios, levemente pálidos, como se se tratasse de um agradecimento por tantas horas que passaram junto dele. Ao dar pela morte do companheiro, o pequeno corre pela noite levando no coração e nos lábios um pedido de socorro. Bateu à porta da primeira casa que encontrou e ela foi aberta por alguém a quem ele apenas teve tempo para dizer com voz rouca: "Morreu!" Caindo por terra, terminou também a maratona da sua vida''

Ao ouvir isto, a minha cabeça tombou para a frente e as lágrimas correram abundantemente, transportando em si a dor e a mágoa de um coração partido.

El Tabit (1986)

 

 

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