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Sorria Sempre.

DOENÇAS DE CHAGAS

A Doença de Chagas estava primitivamente restrita aos pequenos mamíferos das matas e campos da América, desde a Patagônia até o sul dos Estados Unidos. Esses animais (tatus, gambás, roedores) convivem com "barbeiros" silvestres, e através de um mecanismo biológico (interação), entre eles circula o Trypanosoma cruzi, o micróbio descoberto por Carlos Chagas.

Hospital de Lassance em 1909, onde Carlos Chagas descobriu a Doença de Chagas.

 

 

 

Com a chegada do homem e os processos de colonização, em muitos lugares aconteceram desequilíbrios ecológicos (desmatamentos, queimadas) e os "barbeiros" foram desalojados, invadindo as habitações rústicas e pobres dos Lavradores e colonos. A doença chegou ao homem e aos mamíferos domésticos.

Pequenos mamíferos destes ambientes, inclusive os mais domésticos, constituem fonte alimentar para "barbeiros" e importantes reservatórios (verdadeiros depósitos) do perigoso micróbio que acabará infectando o homem. Conhecidos popularmente pelos nomes de "barbeiro', "chupança", "procotó" e "bicho de parede, os triatomíneos, insetos que se alimentam do sangue de mamíferos, são os principais hospedeiros do Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença de Chagas.

Os barbeiros moram nos ninhos, abrigos ou esconderijos dos animais portadores do parasita, de maneira que, ao sugar-lhes o sangue, fazem com que animais adquiram a infeção. a partir daí estabelece-se um círculo vicioso. ao picar os animais, o barbeiro deposita na superfície da pele suas fezes, que contem o parasita. Os excrementos contaminados poderão penetrar no organismo do animal que, então adquirirá a infeção.

 

 

Os indígenas aparentemente não sofriam da doença de Chagas, porque os barbeiros não se adaptavam a suas malocas construídas de troncos e folhas de árvores. Preferiam circular no mato, produzindo a doença nos animais. Quando, no entanto, os colonizadores europeus chegaram, difundiu-se um novo tipo de habitação, feita com material facilmente encontrável e disponível: a casa de barro ou de pau-a-pique. Feitas com varas e troncos amarrados, e rebocada de barro, a casa de pau-a-pique tornou-se a habitação preferida também pelo barbeiro. isso porque o barro, ao secar, se retrai um pouco e se torna fendilhado. Nessas frestas de parede, o barbeiro encontrou um ambiente muito favorável para se ocultar e procriar. Aí as fêmeas põem seus ovos e os filhotes, assim que nascem, começam a chupar sangue, único alimento que experimentarão ao longo de toda a vida.

Durante o dia, tal como os percevejos das camas - seus parentes mais próximos - esses insetos permanecem escondidos. Saem somente durante a noite, para procurar alimento.

Homens e animais domésticos servem para esse propósito. adquirem o parasita e, em seguida, o transmitem a novas gerações de barbeiros (que surgem todos os anos).

Qualquer espécie de triatomíneo pode desempenhar o papel de transmissor. No Brasil, a mais freqüente é o chamado Triatoma infestans, que é encontrado, sobretudo, no sul de Minas, Goiás, Mato Grosso, bem como no interior de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já em Minas e na Bahia predomina o Panstrongylus megistus, inseto que em São Paulo ocupa o segundo lugar como transmissor. No sertão nordestino, as espécies mais comuns são os Trianoma brasiliensis e o Trianoma maculata.

O microscópico Trypanosoma cruzi, parasita causador de zoonoses (doenças de animais), tornou-se a praga das casas de barro, onde ataca animais e homens, sem discriminação. Transformou-se, portanto, em parasita causador de antropozoonoses (doenças dos homens e dos animais).

O número de pessoas com doença de Chagas em toda a América latina é superior a 7 milhões, dos quais bem mais de 5 milhões no Brasil.

Existe, no entanto, outra cifra ainda mais assustadora: calcula-se que 35 milhões de pessoas, em toda a América latina, pelo fato de viverem em casas onde vivem o barbeiro, estão sujeitas ao risco de infeção.

Nem todos os portadores do parasita apresentam as formas graves da doença. Muitos não demonstram os sintomas da doença e podem não sentir mal nenhum em toda sua vida. Outros, no entanto, apresentam alterações cardíacas, em maior ou menor grau. É a chamada miocardite chagástica, que é a manifestação mais freqüente da doença. Outras alterações são o megaesofago (dilatação crônica do esôfago) e o megacólon ( dilatação crônica do intestino).

 

 

A distribuição dos doentes está longe de ser homogênea. Assim é que nos Estados Unidos, em muitas regiões do México e na Amazônia, os casos humanos são raríssimos, apesar da existência do barbeiro e de animais infectados pelo parasita. Dado o tipo de habitação, não ha o contato entre insetos e pessoas, não ocorrendo a transmissão.

O Trypanosoma cruzi se multiplica-se no intestino do barbeiro e é expelido junto com suas fezes. É por esse motivo que só poderá invadir o organismo humano quando o barbeiro deposita seus excrementos na pele, contaminando a mucosa da boca, nariz, olhos ou pequenas lesões ou feridas. Nas áreas em que o barbeiro é estritamente selvático, isto é, se limita a sugar somente o sangue de animais, o homem praticamente não corre nenhum risco. Somente em casos excepcionais, alguém poderá ser atingido, como por exemplo, ao se expor em acampamentos.

Já em regiões rurais de Minas, Bahia, Goiás e São Paulo, onde predominam casas de pau-a-pique, a situação é alarmante. Suas paredes de barro rachado constituem um esconderijo cômodo e seguro para os barbeiros. Às vezes, chegam a ser capturados, em uma casa, milhares desses insetos. Destes, nem todos se encontram infectados. Calcula-se que a proporção de barbeiros portadores de Trypanosoma cruzi varia entre 10 a 15%, o que permite compreender porque, dentre cinco pessoas expostas ao risco de infeção, uma certamente acabará por contrair a doença.

Em virtude do habitat predileto do barbeiro, a população que corre mais risco de contrair a doença é a menos favorecida sob o ponto de vista econômico e social, quer nas zonas rurais, quer nos bairros pobres das grandes cidades, onde as condições habitacionais são muito precárias. Dadas as circunstâncias em que se dá o contágio - em casa a noite -, todos os membros da família correm o mesmo risco, independentemente de sexo ou idade. Parece, porém, que as crianças são mais suscetíveis.

 

 

 

1. O barbeiro pica uma pessoa infectada com o parasita.

2. No intestino, os prasitas se reproduzem.

3. O barbeiro deposita as fezes na pele da pessoa, que infecta com o Tripanosoma cruzi quando se coça.

4. Os parasitas invadem primeiro as células da pele e em seguida a circulação sanguínea.

5. Na fase assintomática da doença, os Trypanosoma cruzi se concentram nas fibras musculares.

6. O ciclo recomeça quando uma pessoa é picada de novo.

Os sinais iniciais da doença de Chagas se produzem no próprio lugar onde se deu a contaminação pelas fezes do inseto. Estes sinais surgem mais ou menos de 4 a 6 dias após o contato do "barbeiro" com a sua vítima. Os Trypanosomas eliminados pelo "barbeiro" introduzindo-se nos tecidos da região, aí determinam uma inflamação que marca a "porta de entrada" da doença. Daí a freqüência do "olho inchado" nas zonas de "barbeiro", sinal inconstante da moléstia, pois só aparece quando a infeção se dá no olho ou próximo a ele. Quando ao nível da pele (geralmente nos braços, pernas ou rosto), a lesão inicial pode assemelhar-se a um furúnculo ou a uma mancha avermelhada quase sempre dolorosa, mas que não vem a purgar. Essas Lesões iniciais quase sempre se fazem acompanhar de "ínguas" (que são aumento dos gânglios linfáticos) nas regiões próximas do Local de contaminação.

O olho inchado é um sinal freqüente da infeção inicial. Nas zonas de "barbeiros" todo olho inchado deve imediatamente fazer suspeitar a doença de Chagas.

A febre é um dos sintomas mais freqüentes nessa fase da doença, às vezes o único. Trata-se de febre baixa e contínua, com duração prolongada (semanas).

O "mal estar", a falta de apetite, o aceleramento dos batimentos do coração, o freqüente aumento do fígado e do baço, inchações da face e do corpo inteiro, vão aparecendo alguns dias após a penetração do gérmen e complementam, em seu conjunto, o quadro que indica sua disseminação pelo organismo.

Trata-se da fase "aguda" da doença. É importante notar que o quadro assim descrito é muito mais comum entre as crianças especialmente as mais jovens (1 a 5 anos). Em pessoas mais velhas, geralmente, esses sinais ficam muito atenuados e a fase inicial da doença passa desapercebida, confundindo-se com uma "gripe" ou "mal estar" passageiro.

A fase aguda da infeção dura em geral, algumas semanas, tendendo a febre e os demais sintomas ao desaparecimento espontâneo. Em certos casos graves, porém, sobretudo em crianças, pode sobrevir a morte, em face de um ataque intensivo dos germens aos órgãos e tecidos mais nobres do corpo, como o coração e o sistema nervoso central.

A descoberta da doença nessa fase inicial é extremamente importante, pois os recursos de tratamento, hoje disponíveis, podem, inclusive, proporcionar cura total da infeção especialmente se o remédio for dado adequada e precocemente. Por isso médicos, enfermeiros, professores e pais de família devem sempre pensar em doença de Chagas diante de um caso de pessoa com febre prolongada e os outros sinais e sintomas mencionados, especialmente nas regiões de "barbeiros" ou depois de transfusões de sangue.

Em circunstâncias especiais, a infeção passará de uma pessoa para outra sem a "ajuda" do barbeiro: é o que se denomina transmissão direta.

A transmissão direta da doença de Chagas pode se dar durante uma transfusão de sangue. Se o doador tiver tripanossomos no sangue, estes passarão sem nenhum obstáculo para o sangue do receptor, onde irão se estabelecer-se com toda facilidade. Registram-se casos de pessoas que, embora nunca tenham estado em zonas infestadas, se contagiaram. Feitas as pesquisas necessárias, para saber em que condições havia contraído o mal, chegou-se a conclusão de que a doença se havia estabelecida após uma transfusão recebida pelo paciente. Aprofundadas tais pesquisas, no sentido de se conhecer a freqüência de doadores infestados, verificou-se que a porcentagem varia de região para região: na cidade de São Paulo, oscila entre 1 a 5%, mas em Ribeirão Preto (SP) e em localidades de Minas Gerais, por exemplo, alcança de 10 a 15%.

Alguns bancos de sangue e hospitais empregam vários recursos para prevenir a transmissão da doença por transfusão. Um deles é a seleção de doadores por meio da reação de Machado-Guerreiro, que indica a existência da infeção. Outro método é o de juntar ao sangue uma pequena quantidade de violeta de genciana - corante capaz de matar os parasitas.

A transmissão direta da doença de Chagas dá-se pela passagem do parasita de mãe para filho, durante a vida embrionária, através da placenta. É sua forma congênita, pouco freqüente, em geral muito grave ou mortal à criança.

Passada a fase aguda, o destino do doente vai depender de muitos fatores, dentre os quais a capacidade de defesa de seu organismo e a intensidade agressora do gérmen. Com efeito, muitos pacientes podem passar um longo período ou mesmo toda a sua vida, sem apresentar nenhuma manifestação da doença, embora sejam portadores (forma "latente" da moléstia). Em outros casos, entretanto. a doença prossegue ativamente, passada a fase inicial, podendo comprometer muitos setores do organismo, salientando-se o coração e o aparelho digestivo. Nessa fase, os Trypanosomas são raros no sangue do doente, pois escondem-se na intimidade dos órgãos do corpo, onde causam graves lesões.

O coração é, sem dúvida, o órgão mais lesado, dada a fatal preferência do Trypanosoma por suas fibras musculares. Baqueando aos poucos, o órgão vai se dilatando e crescendo, atingindo amiúde dimensões enormes, que lhe merecem a designação de "coração bovino".

São comuns, nessa fase avançada, as grandes inchações das pernas e do restante do corpo, as sensações de "fraqueza" e de "canseiras", as freqüentes palpitações, intensa "falta de ar", etc. Aqui, nem sempre pode o médico fazer muito pelo paciente...

O coração, enfraquecido pelas lesões da doença de Chagas tenta readquirir sua capacidade de trabalho de diversas maneiras: contraindo-se maior número de vezes por minuto (taquicardia); engrossando o diâmetro das fibras musculares sadias (hipertrofia); aumentando o volume de suas cavidades (dilatação). O coração chagássico é muito maior do que o normal e suas paredes são mais espessas. No entanto, nessas paredes encontram-se numerosas lesões, como inflamações, pequenas hemorragias, obstruções de vasos devido a coágulos sangüíneos (tromboses), enfartes e formação de áreas fibrosas por causa da cicatrização de antigas lesões.

Os sintomas da insuficiência cardíaca decorrente da doença de Chagas não se distinguem das que aparecem nas moléstias cardíacas resultantes de outras causas. Há taquicardia, ou seja, o número elevado dos batimentos do coração por minuto, e arritmias, isto é, irregularidades no ritmo, que são observadas com freqüência, tanto ao se tomar o pulso, quanto ao se auscultar o coração.

A falta de ar somente se manifesta a princípio, quando o paciente faz esforços maiores. Com o passar do tempo e com a progressão da doença, a capacidade de trabalho físico reduz-se e o cansaço vai aparecendo com mais freqüência. Outros sinais que resultam na deficiência respiratória são congestão do fígado e de outros órgãos, inchaço nos pés ou nas pernas, e até edema generalizado, com falta de ar, mesmo quando em repouso.

Em geral, o "chagásico" vem a apresentar estes sintomas tardios após os 25 anos de idade, época em que as pessoas estão em vida ativa de trabalho e constituindo família. Não são raras, infelizmente, as mortes súbitas e inesperadas entre indivíduos jovens, aparentemente sadios e em pleno vigor de trabalho. Nesses casos mais comuns entre os homens que entre as mulheres acontece que as lesões produzidas pelo Trypanosoma cruzi afetaram gravemente o sistema nervoso do coração. Isso produz grave desorganização na maneira do órgão contrair-se para bombear sangue, ficando extremamente irregulares as batidas do coração. De repente pode parar de bater e o indivíduo morre inesperadamente.

Felizmente, grande parte dos chagásicos, mais da metade, não chega a desenvolver formas graves da doença no coração. São pessoas que poderão passar uma vida praticamente normal, pois seu organismo foi capaz de entrar em equilíbrio com o Trypanosoma cruzi. Elas podem exercer a maioria das profissões, ter filhos, etc.

 

 

 

 

 

Coração doente Coração sadio

Os comprometimentos digestivos se traduzem geralmente pelo aumento de calibre do esôfago ou das porções finais do intestino. No primeiro caso resulta uma dificuldade progressiva em realizar-se a deglutição, inicialmente para os alimentos mais duros e secos e depois para qualquer alimento, mesmo os líquidos. É o que se conhece por "mal de engasgo", "embuchamento" ou "empazinamento" nas áreas onde grassa a doença. O comprometimento intestinal geralmente acarreta fortes "prisões de ventre", que podem durar alguns dias, algumas semanas, ou mesmo dois ou três meses, levando o doente a um intenso sofrimento por não conseguir evacuar. Ao contrário do que pensam alguns, num mesmo chagásico podem coexistir dois ou mais órgãos acometidos ao mesmo tempo. Por exemplo, não são raros os doentes com o coração lesado e que padecem também do "mal de engasgo".

Como saber se uma pessoa é chagásica? Pode-se fazer uma suspeita caso a pessoa tenha tido contato com "barbeiros" e apresente os sintomas já mencionados. Entretanto, para ter certeza, exames especiais são necessários, de acordo com a fase da doença.

Na fase inicial (aguda) quando há febre e milhões de ipanosomas circulando pelo sangue, deve-se procuras diretamente o Trypanosoma cruzi numa gotinha de sangue, examinada ao microscópio.

 

 

No período agudo da moléstia, circulam no sangue os mortíferos Tryoanosomas, às vezes em grande número. É, entao, facil surpreendê-los ao microscópio. A grande aumento, aí vemos um deles, entre os glóbulos vermelhos de uma de suas pequenas vítimas.

 

 

Na fase tardia (crônica) da doença o número de tripanossomas no sangue está muitíssimo reduzido e não adianta procurá-los ao microscópio. Lança-se mão, por isso, de outros métodos, especialmente as chamadas "reações sorológicas". Estas são provas de Laboratório realizadas no soro que se obtém do sangue do doente. Através de métodos especiais verifica-se a presença, nesse soro, de partículas que o organismo fabrica contra o Trypanosoma cruzi. denominadas "anticorpos". Há vários tipos dessas reações, sendo uma das mais conhecidas a de "Guerreiro e Machado" nome dado em homenagem aos cientistas que a descreveram. Outras reações como "imonofluorescência" e "hemaglutinação" estão hoje muito difundidas e podem ser feitas tanto a partir de sangue tirado na veia, como em pequenas gotas retiradas por picada na ponta do dedo e colhidas em tiras de papel de filtro.

Um outro exame, menos usado, utiliza-se "barbeiros" sadios criados em laboratórios, que são postos a sugar o sangue de uma pessoa supostamente portadora da doença. Se os "barbeiros" sugarem Trypanosomas circulantes nesse sangue, esses germens multiplicam-se intensamente no interior do inseto e poderão ser encontrados 30 a 60 dias depois, se olharmos as fezes dos "barbeiros" ao microscópio. Esse exame é chamado xenodiagnóstico e é usado em situações especiais (principalmente para pacientes em que a reação sorológica foi "duvidosa" ou para candidatos a tratamento).

Carlos Chagas, em seus primeiros trabalhos, vaticinava que o problema era extremamente importante nas regiões endêmicas, e que seu controle definitivo iria depender do combate efetivo aos "barbeiros" mediante melhoramento das pobres habitações rurais. Isto, por sua vez, dependeria da compreensão da moléstia e de vontade política para desencadear e sustentar um programa de governo neste sentido. A partir de 1911, Chagas e seus companheiros do Instituto Oswaldo Cruz se puseram em campo para melhorar o diagnóstico e tentar estabelecer um tratamento específico da doença, que vitimava geralmente crianças em sua etapa aguda e desencadeava uma terrível e mortal cardiopatia em muitos casos da fase crônica. Muitos medicamentos foram experimentados contra o Trypanosoma cruzi (T.cruzi), agente da moléstia, ao longo de décadas, sem sucesso: arsenicais, antimoniais, derivados do quinino, aminas, sulfas e antibióticos, que se mostravam ativos em outras infeções e doenças tropicais como a sífilis, a malária, a doença do sono, as leishmanioses, a tuberculose, a amebíase, etc., mostravam-se inócuos contra o tripanosoma de Chagas. Este protozoário, ao infectar o homem, se abriga na intimidade de várias células e mostra capacidade de defender-se contra uma série enorme de compostos químicos e de agentes biológicos, mediante estratégias e artifícios como neutralização, inativação, capeamento, variação antigênica, etc.. Na realidade, somente nos anos 40 alguns compostos mostraram alguma ação contra o T. cruzi em modelos experimentais e casos agudos humanos. O principal deles foi o quinoleínico "Bayer 7.602", com discreta atividade parasiticida, seguindo-se um arsenical composto de enxofre, denominado "Spirotrypan", muito usado nos anos 50. Muito tóxicos, remédios como estes reduziam efetivamente o número de parasitas circulantes na doença aguda, mas eram praticamente ineficazes na crônica, nunca logrando a extinção total do parasitismo, como seria necessário para a cura. A doença de Chagas, cada vez mais diagnosticada, ganhou o estigma de incurável.

Os anos 60 trouxeram fatos animadores, como o trabalho de Zigman Brener, indicando a necessidade de que o tratamento fosse prolongado (até 60 dias) e o surgimento de drogas mais ativas, os nitrofuranos. Dentre estes, o mais efetivo foi o "nifurtimox" (Lampit â ), que realmente levou à cura vários casos agudos e mesmo de alguns crônicos, trazendo esperanças aos doentes e à comunidade científica. Mais adiante surgiu outro fármaco, um derivado imidazólico denominado "benznidazol" (Rochagan â ), um pouco mais efetivo. A partir daí, multiplicaram-se os ensaios terapêuticos que levariam pelo menos 20 anos para alcançar consenso e resultados comparáveis entre os pesquisadores. Apesar de apresentarem moderada toxicidade, estes medicamentos conseguiam eliminar o parasita no sangue e nos tecidos, se administrados na dose certa e durante o período de 2 meses, efeito este mais palpável na fase aguda. Sempre indicado para ser feito por médico, o tratamento exige cuidadosa atenção para adequação da dose do fármaco e para o manejo de reações colaterais que ocorrem em cerca de 30 a 40% dos pacientes, em gravidade variável. Para o Lampit as reações principais referem-se a perda de apetite, emagrecimento, irritabilidade e alterações temporárias de comportamento. Para o Rochagan, ocorrem principalmente reações na pele (semelhantes à urticária), alterações digestivas, neurite e diminuição de glóbulos brancos no sangue. Em alguns pacientes, tais reações adversas são intensas e obrigam a suspender o medicamento. Com muitos estudos experimentais e em humanos, já nos anos 80 a comunidade científica brasileira indicava o tratamento específico para todos os casos agudos e congênitos da doença de Chagas, ampliando-se aos poucos esta indicação para casos crônicos de baixa idade e de infeção recente, assim como na qualidade de preventivo para situações de acidentes de laboratório e de transplantes de órgãos de doador chagásico para receptor não-chagásico.

O seu tratamento apresenta. ainda hoje. muitos problemas. Alguns medicamentos já existem, capazes de matar e destruir o Trypanosoma cruzi. mormente no período inicial da doença, trazendo esperanças a muitas pessoas infectadas. Compete ao médico, experiente e esclarecido, decidir sobre a necessidade e a conveniência do tratamento de cada caso, individualmente. Os cientistas prosseguem pesquisando novos medicamentos contra o terrível tripanosoma.

Hoje estas indicações estão se ampliando, principalmente para os pacientes crônicos de qualquer idade que ainda não desenvolveram lesões cardíacas muito graves da doença de Chagas. As pesquisas experimentais da Dra. Sônia Andrade, da Bahia, mostram cura em cães agudos e crônicos tratados, com a eliminação do parasita e regressão de lesões ativas da doença, inclusive a diminuição dos processos de fibrose, tão lesivos ao coração do chagásico. No homem, trabalhos de pesquisadores brasileiros (como Anis Rassi, Romeu Cançado, Ana Lúcia Andrade e Abílio Fragata) e argentinos (Viotti, Sosa-Estani) estão mostrando a cura do crônico e a prevenção de lesões graves em proporção significativa de pessoas tratadas, frente a controles não-tratados. Estes resultados animaram os programas de doença de Chagas, já havendo decisão oficial dos ministérios da saúde do Brasil, da Argentina e da Bolívia em prover o tratamento específico em todos os casos agudos e em crônicos de baixa idade. Outros casos crônicos poderão ser tratados em caráter individual por decisão médica, especialmente aqueles assintomáticos da chamada forma indeterminada e mesmo os portadores de cardiopatia ou forma digestiva sem maior gravidade.

O medicamento é de fácil aquisição e deve ser administrado conforme o peso corporal em duas tomadas diárias (12/12 horas), não sendo necessária internação. É ideal um acompanhamento médico semanal ou quinzenal, e pelo menos 2 exames de sangue (hemogramas) durante o tratamento. Geralmente os efeitos colaterais desaparecem com o término do tratamento e/ou a retirada da droga.

Uma antiga suspeita de que o emprego destas drogas seria capaz de induzir câncer (linfomas), não se confirmou nem no laboratório nem na revisão de milhares de casos tratados. Não obstante, os compostos ativos contra o T. cruzi hoje conhecidos não devem administrar-se a gestantes e a pessoas com insuficiência hepática ou renal. Também são contra-indicados para pessoas em uso de álcool. Lamentavelmente, o Lampit saiu do mercado, embora haja um esforço para que sua produção seja reativada. Uma recente esperança o Alopurinol (empregado no tratamento da gota), embora com alguma ação sobre o parasita, mostrou-se ineficaz para chagásicos agudos e crônicos. Novas drogas têm sido testadas, algumas delas com ação maior que o benznidazol, também apresentando menores efeitos colaterais. São anti-fúngicos de última geração, que atuam impedindo a síntese de esterois, substâncias importantes para o parasita. Poderão estar no comércio em poucos anos, ampliando o arsenal contra a doença de Chagas. Além de outras, uma vantagem de disponibilizar-se outra droga é a de ter-se uma alternativa no caso de falha terapêutica ou de reações adversas com um primeiro fármaco.

Para avaliação do tratamento, exames de sangue (sorológicos) indicarão a longo prazo uma progressiva diminuição de anticorpos contra o T cruzi, naqueles casos em que este parasita for eliminado. Melhora clínica, com exceção dos casos agudos, não será de regra perceptível; o grande ganho, aqui, é impedir-se que a doença evolua para as formas graves. Uma recomendação importante é que o chagásico tratado evite doar sangue, enquanto seus exames sorológicos não se tornem total e permanentemente negativos, com isto prevenindo-se qualquer possibilidade de transmissão da infeção a terceiros.

Vê-se que houve avanços substanciais na terapêutica específica da doença de Chagas. Um grande desafio atual, além da busca de drogas mais eficazes, mais eficientes e com menos efeitos colaterais, é o de preparar-se mais médicos que saibam diagnosticar e tratar esta doença. No Brasil, a Fundação Nacional de Saúde está incentivando cursos neste sentido e apoiando serviços de referência como o de Belo Horizonte (Ambulatório Bias Fortes), do Rio de Janeiro (Instituto Oswaldo Cruz), de São Paulo (MI - Faculdade de Medicina), de Ribeirão Preto (Fac. Medicina), de Campinas (GEDOCH/Fac. Medicina), de Uberaba (Med. Tropical, Fac. Medicina), de Goiânia (IPT e Fac. Medicina), de Recife (Hosp. Oswaldo Cruz), de Porto Alegre (Instituto do Coração), etc..

Infelizmente, as lesões do coração e de outros órgãos, que já estiverem presentes. como vimos, são irreversíveis e não serão curados com a eliminação do parasito. Cuidados médicos especiais deverão ser instituídos frente aos sinais mais graves da moléstia. Os chagásicos cardíacos deverão evitar grandes esforços e emoções, comidas muito salgadas e ir periodicamente ao médico. Tônicos cardíacos podem ser benéficos e há mesmo aparelhos eletrônicos capazes de serem ligados ao coração e ajudá-lo a regular melhor seus batimentos em alguns casos.

Para o "mal de engasgo" e a "prisão de ventre" do chagásico podem ser instituídas dietas especiais, havendo também operações que corrigem ou atenuam os problemas do esôfago e do intestino.

Os princípios básicos da prevenção da doença de Chagas são aqueles que visam cortar em algum ponto a cadeia de transmissão. A gravidade do mal, suas conseqüências individuais e sociais, e também as dificuldades de tratamento, trazem à Profilaxia uma importância capital. É uma longa e árdua tarefa, consubstanciada nos próprios fatores que envolvem a doença, quais sejam. o aspecto sócio-econômico a miséria das populações a ela expostas. A doença incide justamente, sobre as áreas mais desprotegidas, socialmente as rurais, onde o analfabetismo, a desnutrição, o desinteresse político, a falta de higiene, etc., fazem da existência humana imenso sacrifício. Faz-se necessária a par das medidas específicas e intensa campanha educativa, à tentativa de descobrir para o infortunado homem do campo, perspectiva mais humana de vida. Pois sabemos muito bem que a presença do "barbeiro" se prende com intimidade à existência das "cafuas" esta rústica habitação tão comum no interior do nosso país. Já afirmava o próprio Carlos Chagas em memorável trabalho: "Cumpre, antes de tudo, afastar toda a possibilidade de procriação do inseto nas casas, cujas paredes devem ser rebocadas e livres de fendas e cujas coberturas devem obedecer a cuidados visando o mesmo objetivo. Nas zonas infestadas, as casas apenas barreadas (paredes de sopapo) e cobertas de capim são absolutamente condenáveis, visto constituírem os grandes focos de "barbeiros", que aí encontram condições as mais propícias de existência" .

São, portanto, essenciais as medidas que visam também à melhoria da habitação rural, ao lado de outras que tragam ao camponês uma proteção específica contra os "barbeiros". Esta se realiza, atualmente por intermédio de poderosos inseticidas, ditos "de ação residual", por possuírem capacidade de exterminar os insetos, mesmo muitos dias após terem sido aspergidos. Além do BHC, inseticida pioneiro e hoje ausente do mercado, tem o dieldrin, que são suspensão na água. Empregam-se poderosos inseticidas denominados "PIRETRÓIDES", de longa ação residual e praticamente destituídos de toxicidade para o homem e animais domésticos. A aplicação em frestas e paredes é feita com a ajuda de uma bomba aspersora. Quando o liquido seca, a parede fica recoberta de cristais microscópico da droga

A luta contra os "barbeiros" vem sendo assumida em nosso País por organismos governamentais como a FUNASA, a SUCEM e Secretarias Estaduais de Saúde, bem como pelas Secretarias Municipais de Saúde. De modo geral, essas entidades têm procurado aplicar inseticidas nas áreas mais atacadas pelos "barbeiros", fazendo previamente pesquisas nas casas e coleta de sangue entre as populações. Várias regiões, entretanto, não foram ainda desinsetizadas, pois a tarefa é muito extensa e nem sempre os recursos são suficientes. Além disso, depois da aplicação do inseticida, há sempre o perigo de voltarem os "barbeiros". se uma verdadeira "vigilância" não for efetuada contra esses insetos. Aqui se impõe como extremamente necessária uma conscientização da população acerca do problema, para que ela mesma participe ou exerça essa vigilância. Não é difícil que o povo se organize e faça isto com os próprios recursos municipais e das comunidades. Em algumas regiões de São Paulo e de Minas Gerais, há exemplos importantes. No município de Bambuí, em Minas, desde 1974, as professoras rurais vêm trabalhando em suas comunidades, alertando e estimulando as pessoas para que procurem e denunciem a presença de "barbeiros" em suas casas. Foi criado na sede municipal uma espécie de posto ligado à Prefeitura. onde um funcionário recebe e examina insetos capturados pela população.

A solução ideal para esta "casa" seria a sua pronta derrubada e substituição por uma residência decente. Diante, entretanto, dos graves problemas sociais e econômicos das populações do interior, o uso de inseticidas se faz necessário no combate aos "barbeiros".

Quando se trata de barbeiro. esse funcionário municipal vai à casa que o enviou e ali aplica inseticida fornecido pela FUNASA, eliminando assim a possibilidade de uma infestação da casa. Esse trabalho vem sendo acompanhado pela Fundação Oswaldo Cruz, que observou estar o município praticamente livre da transmissão da doença de Chagas às novas gerações da população. Neste exemplo. é importantíssimo notar-se a capacidade de liderança das professoras rurais, tão simples, tão fortes, tão dedicadas e responsáveis. E também a capacidade de resposta do povo rural, quando se lhe dá participação em um programa que de seu interesse e que sintoniza com as coisas concretas de sua vida. Hoje sistema semelhante vem sendo usado pela FUNASA e mais de 500 municípios brasileiros.

Ao nível das famílias e pequenas comunidades, independente do trabalho governamental, os agentes de Saúde e de Educação devem divulgar os seguintes cuidados.

a) Combate intensivo ao barbeiro.

Se possível, usar piretróides, pulverizando toda a residência, os móveis, os quadros e as dependências (porão, forro, galinheiro, paiol, etc.). Na falta deste inseticida, usar qualquer outro, ou mesmo inseticida, capaz de matar os "barbeiros". Capturar insetos suspeitos e enviá-los em caixas de fósforo para os Postos de Saúde ou Prefeitura Municipal, para que possam ser tomadas providências. Exigir e facilitar os trabalhos de levantamentos e aplicação de inseticidas por parte dos órgãos como a FUNASA e outros.

b) Melhorar a habitação, pelo reboco e tamponamento de rachuras e frestas, o que dificulta a instalação do transmissor, ficando compreendido que a habitação desejável é a que não tenha esses e outros riscos à saúde e que apresente o conforto mínimo compatível com a dignidade humana. Em algumas regiões de Minas Gerais pode­se observar que o povo aprendeu a melhorar suas casas rebocando-as periodicamente com uma mistura de giz, barro tabatinga e estrume fresco de vaca, bem amassado, capaz de formar uma ótima liga que não racha e dá bom acabamento. Quando é possível, a caiação completa esse trabalho e dificulta ainda mais a presença do "barbeiro".

Em vários lugares estão sendo experimentadas construções baratas de "solo-cimento". É uma liga prensada de barro com areia e uma pequena parte de cimento que dá excelentes paredes.

A melhoria da habitação rural deve ser também um objetivo dos Órgãos do Governo, como o Ministério da Saúde, do Interior e da Agricultura. Deveriam ser estudadas fórmulas para incentivar programas especiais através do Banco do Brasil e outras instituições. Problemas como êxodo rural, falta de terra e meios de produção, juntamente com a desvalorização do produto rural estão intimamente ligados à existência da cafua e do barbeiro necessitando, portanto, atenção urgente e específica.

 

 

 

 

 

 

 

 

c)Proteção individual

Recomenda-se, em zonas infestadas, o uso de "cortinados" telagem de portas e janelas, etc. Comparecimento periódico ao médico ou às unidades sanitárias. Suspeitando ter sido picada por "barbeiro", a pessoa deve desinfetar o local da picada com álcool, éter, nitrato de prata ou água e sabão. Procurar o médico imediatamente, se possível levando o inseto vivo para ser examinado.

Não permitir dentro de casa animais que possam ajudar a transmitir a doença, como o cão, o gato, o macaco e outros. As aves não oferecem perigo, pois nunca apresentam o micróbio em seu organismo. Como seu sangue serve para alimentar os "barbeiros", recomenda-se construir os galinheiros, o mais afastado possível da casa.

Evitar montes de lenhas, telhas ou outros entulhos no interior ou arredores da casa. Estes locais são ótimos abrigos aos "barbeiros". Limpar sempre atrás dos quadros e calendários pendurados nas paredes, bem como Colchões, onde também costuma se esconder o "barbeiro".

d) Outras medidas:

Todas as pessoas devem auxiliar na propagação dos ensinamentos básicos sobre esta doença, fazendo-se também assim a Educação Sanitária, que tem muito maior valor quando realizada pelo próprio povo.

Quanto à transmissão pelas transfusões de sangue, trata-se de um problema muito sério, inclusive em várias capitais do Brasil. É um assunto da competência do Governo e das autoridades médicas, merecendo atenção enérgica e urgente. As pessoas que saibam ser chagásicas, ou que procedam de regiões onde os índices da doença são altos, não devem doar sangue sem comunicar esses fatos ao médico assistente. Todos os Bancos de Sangue do Brasil devem fazer exame de sangue nos doadores, para evitar não somente a doença de Chagas, mas também a sífilis, a hepatite, a AIDS e outras doenças que podem contaminar o receptor de sangue.

Muito se tem falado sobre uma vacina contra o Trypanosoma cruzi e a Doença de Chagas. Muitos cientistas, devotados e de renome, têm dado o melhor de seus esforços para a obtenção de uma vacina eficaz e destituída de efeitos indesejáveis. Alguns têm sido relativo sucesso e têm surgido possibilidades e esperanças. São ainda, entretanto, trabalhos preliminares, necessitando-se de tempo e paciência até que tais vacinas possam ser empregadas na proteção do homem. Temos que reconhecer que não se dispõe, hoje, de nenhuma vacina para uso imediato. Por isso mesmo não devem ser diminuídos os trabalhos de combate ao "barbeiro" (melhoria de habitação e inseticidas), que terminarão por controlar ou eliminar a transmissão da doença em nosso meio rural.

Generalidades e distribuição geográfica

 

Os "barbeiros", também chamados chupões, chupanças, bicudos. funções ou procotós, são insetos muito conhecidos das populações rurais de várias regiões do Brasil. De tamanho relativamente grande, geralmente pretos ou acinzentados, possuem manchas vermelhas. amarelas ou alaranjadas ao redor de seu abdome. Em sua fase adulta apresentam 02 pares de asas. das quais a parte superior compõe-se de uma parte mais endurecida e outra mais fina. Por isso são chamados hemípteros. quer dizer. sua asa é metade dura e metade flexível.

Os "barbeiros" são insetos largamente difundidos nas Américas. sendo encontrados desde o sul dos Estados Unidos até o sul da Argentina. Sua importância é grande, pois podem ser transmissores de uma grave doença para o homem - a Doença de Chagas.

Existem mais de 100 espécies de "barbeiros". Algumas vivem ainda. e somente na mata o seu ambiente de origem: são os "barbeiros" silvestres. Outras se adaptaram totalmente à casa do homem. procurando sobreviver ao desvastamento das florestas: são os "barbeiros" domésticos. Um terceiro grupo de espécies encontra-se em transição, habitando ao redor das casas e sendo capazes de viver tanto nessas como nas florestas: são os "barbeiros" peridomésticos. Todos são capazes de transmitir a Doença de Chagas, desde que contaminados pelo micróbio causador, mas os mais perigosos são realmente os "barbeiros" domésticos, por estarem mais próximos do homem.

Alimentação

Como os demais seres vivos, para viver, os "barbeiros" necessitam de abrigo e de alimento. Geralmente abrigam-se em locais muito próximos à fonte de alimento. Os "barbeiros" alimentam-se somente de sangue e por isto são chamados hematófagos. Podem alimentar-se de qualquer tipo de sangue seja uma ave, de um mamífero, de homem, ou mesmo de animais de sangue frio.

Por isto podemos encontrar "barbeiros" vivendo em ninhos, em casas, em buracos de tatus, em galinheiros, etc. Em sua alimentação, os "barbeiros" utilizam-se de sua boca especial - a tromba - que funciona como uma agulha de injeção. A tromba é introduzida através da pele do animal em que vai se alimentar, e por ela o barbeiro chupa (suga) o sangue de que necessita. De modo geral cada barbeiro suga, por vez, de meio a 1 e meio cm³ de sangue, demorando 10 a 20 minutos para fazê-lo. É importante que a pessoa ou animal sugado esteja quieto durante a alimentação do "barbeiro" e por isso este prefere procurar indivíduos durante o sono. A picada do inseto não é dolorosa, mas acompanhada de pequena coceira: o barbeiro possui, em sua saliva, uma substância que anestesia o local onde introduz sua tromba. Uma vez alimentado, novo repasto só será necessário de 7 a 14 dias depois, dependendo das atividades do barbeiro, da temperatura ambiente, etc. No calor, há necessidade de intervalos mais curtos entre as refeições, mas no inverno, quando menos ativos, os "barbeiros" podem permanecer semanas ou meses em jejum.

Transmissão da doença de Chagas

Bastante importante é a particularidade de que quase sempre os "barbeiros" evacuam logo depois de uma refeição: acontece que é nas fezes dos "barbeiros" contaminados que virão os trypanossomas, micróbios causadores da Doença de Chagas. Penetrando pelo próprio local da picada do barbeiro, esses trypanossomas poderão invadir a pessoa ou animal sugado, e assim ocorrer a transmissão da Doença de Chagas. Todos os "barbeiros" nascem livres do micróbio da Doença de Chagas, mesmo que seus pais estejam infectados. O barbeiro só adquire esse micróbio se sugar uma pessoa ou animal contaminado. Essa é a razão pela qual encontramos na natureza muitos "barbeiros" não infectados, principalmente aqueles que só se alimentam do sangue das aves, pois essas não albergam o Trypanosoma cruzi.

Ciclo evolutivo-reprodução

Um barbeiro vive em média de um a dois anos. A fêmea adulta; chegada a época da postura, coloca 1 a 2 centenas de pequenos ovos. Cada ovo gastará por volta de 4 semanas para abrir-se por uma de suas extremidades, deixando sair uma forma jovem de "barbeiro" denominada larva. Ao serem postos os ovos são branco-leitosos, adquirindo uma cor rósea ou avermelhada na medida em que se aproxima o momento da eclosão. A pequena larva, após alguns dias, necessitará de alimento e andará á procura de sangue. Após sua primeira refeição, a larva sofrerá mudanças (em seu corgo), com perda de sua pele também chamada casca. Este fenômeno chama-se muda ou ecdise e serve para possibilitar que o inseto sofra algumas transformações e aumente o seu tamanho, enquanto a nova casca ainda está mole e flexível. O "barbeiro" passa ao todo por 5 mudas, até atingir o estádio adulto. Esse se diferencia dos anteriores pelo seu maior tamanho, pela presença de asas completas e pelo aparelho sexual totalmente desenvolvido, portanto apto à procriação. A fêmea adulta diferencia-se do macho pela presença de uma protuberância em sua extremidade traseira, denominada ovopositor porque se destina à postura de ovos. Cada macho pode fecundar várias fêmeas. Através de uma única relação sexual. serão fecundados praticamente todos os ovos daquela postura.

O Triatoma infestans em todos os estágios de sua evolução, desde o ovo até a fase adulta.

 

 

 

Outros aspectos

De modo geral, a vida do "barbeiro" é simples e sem grandes exigências. As diversas espécies podem adaptar-se a diferentes fontes alimentares e variações ambientais. Os "barbeiros" podem ser facilmente criados em laboratório, servindo para inúmeras experiências de Biologia e alguns testes e pesquisas acerca da doença de Chagas. Entre nós, a maioria dos "barbeiros" prefere as temperaturas ao redor dos 28 graus centígrados e ambientes não excessivamente úmidos. Procuram fugir dos lugares muito iluminados, pois a luz os incomoda. Por isto, no seu ambiente natural abrigam-se em frestas e lugares escurecidos, saindo à noite para procurar alimento.

Os "barbeiros" são insetos lentos, pouco agressivos e de pequena mobilidade. Relativamente pesados, caminham o mínimo necessário, para encontrar sua fonte alimentar e achar seu abrigo. Seu vôo é curto - como diz o povo podendo às vezes ser vistos à noite voando pesadamente e sem muita orientação, vindo dos matos e batendo nas paredes das casas. De modo geral, os "barbeiros" se mudam de ambiente apenas por falta de comida ou diante de uma ameaça a suas vidas. Mas é comum serem transportados passivamente nas penas das aves ou pelos animais em cujo ninho habitavam ou mesmo, freqüentemente nas mudanças roupas, tralhas, lenhas e outros objetos carregados pelo próprio homem.

Ovos, formas jovens e adultos de barbeiro doméstico em sua morada preferida: as paredes de barro com frestas e rachaduras.

Insetos hemípteros semelhantes aos barbeiros

É necessário saber que uma porção de insetos caseiros e do mato são parecidíssimos com os "barbeiros", mas incapazes de albergar o Trypanosoma e transmitir a Doença de Chagas. Em geral são hemípteros bastante comuns entre nós, que vivem de sugar plantas ou devorar outros insetos. Os "barbeiros", como sabemos, só se alimentam de sangue, e por isto sua tromba é bastante especial: fina, longa e reta, enquanto que os não "barbeiros" apresentam trombas grosseiras e arredondadas.

As características de vida dos "barbeiros" são importantes de se levar em conta para o controle da Doença de Chagas. No ciclo dessa moléstia, o barbeiro representa apenas um papel de vetor intermediário, e somente o seu contato com o homem é que traz a este - acidentalmente - a doença que afeta e que já dizimou milhares e milhares de seres humanos.



Oiê!!!!

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